Zeferino Alves Neto in memoriam: Vãs e vagas memórias de um ex-motorista de van

 

Vãs e vagas memórias de um ex-motorista de van

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(Zeferino Alves Neto - Zan)

O nosso editor Mário Pazcheco, entre outras coisa, é um tipo engraçado, dado a graçinhas tipo essa que linhas abaixo vos participo. Anuncia ao pé de uma crônica insôssa por mim escrita, que dali a alguns dias sairão nas páginas do sítio minhas memórias de motorista de van, conduzindo gente como John Mayall ou Celso Blues Boy pelas ruas de Brasília. Detalhe: se esqueceu de me avisar. Abro o sítio e vou ver como saiu a crônica sobre A noite em que não dormi no quarto de Torquato Neto e lá no rodapé me deparo com a ideia... É no que dá ficar dizendo que se conheceu gente famosa, esses papos que às vezes carregam exageros de intimidades e mentirinhas inocentes, de quebra. Pra não desapontá-lo e a quem de algum forma ficou curioso com a informação, aqui vão alguns desses causos, uns sem grande graça, tadinhos, doutros até se ri, com boa vontade, mas causos acontecidos, se não me falha a desmemória de um quase sexagenário, saudoso hoje, de alguma forma, daqueles tempos heroicos... Era infeliz e não sabia...
Depois de anos fingindo que trabalhava num poderoso banco estatal, que me pagava bem mais do que merecia pelo que lá fazia ou deixava de, eis que me vi na rua com algum dinheiro na mão sem saber exatamente o que fazer com ele e com a vida. Fazia pouco da preocupação alheia com a minha até hoje notória atrapalhação em conduzir a malfadada existência, que em temerosa hora, anos antes, resolvera associar à de uma senhorita e quatro crianças que vieram nos enfeitar as dores amores e desamores nos vinte e três anos seguintes (tudo bem, me aturar por vinte e três anos merece condecoração, mas isso é outra estória...), dizendo pra quem me perguntava o que iria fazer com aquela grana, que quando acabasse de gastá-la pensaria nisso. Antes de acabar com a grana cruzei com um amigo que saíra do banco junto comigo. Ele tinha comprado uma van e já rodava lampeiro por aí a bordo de uma. O amigo me convenceu a fazer o mesmo e começo aí a minha vida de motorista de van, uma Topic cor vinho, ano 94/95, placa JED 0614 DF, de segunda mão, trinta mil quilômetros rodados. Era o ano de 1996. Abril de 1996, mais precisamente.
De início fazia traslados, serviços típicos de agência de turismo, que era quem solicitava nossos préstimos, pegar gente no aeroporto, levar pro hotel, do hotel para o local de algum evento, daí pro hotel, do hotel para o aeroporto, viagens para cidades próximas. Foi quando não me tornei íntimo dessas criaturas que hoje genericamente chamam de celebridade, algumas nem tanto... Explico-me. Essas criaturas ignoram solentemente quem vai lá na direção do veículo, lhes levando para algum lugar... E você tem que se dar por feliz se na hora do pagamento pelo serviço a moça da agência de turismo não reclamar que o cliente dela reclamou do ar condicionado da van ou da barba que transgressivamente cultivo a alguns decênios. Quem mandou não estudar?
Evidentemente que eu nessa época já era quem sou ou me considero até hoje, modestamente, claro, um brilhante e anônimo zé-ninguém da vida, e tenho publicamente que perdoar essas pessoas por não saberem com quem não estavam falando, sentiram a sutileza...? Exagero... Algumas eram até gentis, como o pessoal da equipe de apoio do Chicletes com Banana, essa esfuziante banda de axé, que me apelidava simpaticamente de “piloto”. Ainda hoje sinto saudade de uma fita com hits de Bob Dylan que um desses ouviu no toca-fitas da van num momento de relax em frente ao Hotel Bonapart e curioso por nunca ter ouvido aquilo em sua vida, me pediu emprestado e até hoje não me devolveu, como se um bahiano importante como ele fosse obrigado a me devolver uma fita daquelas, tem dó... Passei cinco dias convivendo com aquela troupe e me convenci que bahiano, ou melhor aqueles bahianos, eram, ou melhor, se achavam, seres absolutamente especiais. Quem duvidar procure saber que estão na estrada das micarês, fazendo média de quatro shows por mês por esses brasis, há algum tempo, o que, convenhamos, não é pouca coisa, pra não dizer outra... Democracia é isso, sobra pra todo mundo...Claro que se eu fosse contar aqui tudo o que eu vi ou ouvi naqueles cinco dias, ia sobrar pra muita gente, principalmente pra mim. Esqueçam, já faz tanto tempo, e passar uma semana com Bell e sua turma não é pra qualquer um, ainda mais ganhando diária de 70 reais e ticket
refeição num restaurante melhor que esses selfs do Conic, pra ficar 24 horas a disposição, que no final não eram nem doze...Tenho uma filha de vinte anos chamada Adelaide que ainda hoje curte a banda, fazer o quê, né, Dale...?
Toda profissão tem suas regras. A de um motorista de van, é ser discreto, entre outras. Eu era, até onde dava... O diabo é que motorista de van tem ouvido e às vezes ouve coisa que lhe impedem de não olhar discretamente por aquele espelhinho
retrovisor interno, pra ver quem foi o autor da brilhante frase que lhe chegou aos ouvidos. Véspera de eleição, acho que 1996, magistrados presidentes dos Três vêm a Brasília pra uma reunião no Tse. Pego um grupo deles no Kubischek Plaza pra levar no setor de autarquias. Os magistrados entram na van, um reclama da altura do teto, na verdade o meretíssimo é que era alto demais, ou lhe incomodavam as galheiras que só ele talvez enxergasse ou sentisse (acontece), abuletam-se e começam a prosear. Tinha havido naqueles dias uma invasão de sem-terras, com enorme repercussão na mídia. Comentavam sobre o acontecido. Um deles se sai com essa pérola: "Imagina um cidadão sem dinheiro, chega no banco e exige do gerente que lhe dê algum, simplesmente porque não tem... dinheiro, era um sem-dinheiro e por conseguinte, o gerente que se virasse...” Era a lógica dos invasores sem-terra, segundo a visão iluminada do magistrado. Recusei-me a olhar a cara do magnânimo, mas não tenho a menor dúvida que hoje deve estar do céu pruma banda, como um sem-terrra invasor morto a bala, assim como quem acha que reforma do judiciário dá jeito numa cabeça “feita” como aquela...
Festival Internacional de Blues. John Mayall, Celso Blues Boy Band, The Fabulous Thumderbirds e outros que não me lembro mais. John Mayall só peguei pra levar pro aeroporto. Sentou do meu lado, na frente. Simpaticíssimo, parecia um lorde inglês de bermuda, camiseta e tênis. Cumprimentou-me discretamente quando entrou e saiu. Conhecia seu som desde os anos setenta, tinha um CD dele na van, mas a timidez foi maior do que a coragem de lhe pedir um autógrafo, valeu a intenção... Celso Blues Boy, estrelíssima, enfurnado no hotel o dia inteiro, com uma gata que deus nos acuda... Assistindo a sessão da tarde, que ninguém é de ferro... Quando ia pro teatro à noite, tava com uma cara de quem assistira televisão a tarde inteira, só vendo... Por esses dias passei o maior susto da minha breve, sete anos, carreira de motorista de van. Estou pegando um grupo de funcionários do INSS do Brasil todo, no Torre Palace, pra levar prum seminário na UnB. Pegava o pessoal de manhã no hotel, e no cair da tarde, na UnB, de volta pro hotel. Primeiro dia, os taxistas próximo ao hotel, secam um pneu da van. Segundo dia, estava saindo com o pessoal pra UnB, aparece uma tropa de choque da Pm, com metralhadora, fuzil, cão amestrado, sirene ligada...um escarcéu dos diabos, me prendem, prendem a van, escândalo, tomam minha habilitação, prendem outras vans fazendo o mesmo serviço, deu até televisão no pedaço, antiga Manchete, se não me engano, fui entrevistado, super nervoso, não me lembro o que falei. Explicação pra ação? Alguns taxista das proximidades do hotel, nas horas vagas eram Pms, ou se quiserem, Pms que nas horas vagas eram taxistas, numa demonstração “civilizada” de demarcação de território, que é pra isso que você paga imposto, afinal era uma ação de interesse deles Pms/taxistas, que pela mixaria (né, professores da rede pública?) que ganham por mês, careciam de algum bico mais decente pra sobreviver, Deus tá vendo... Ou não é pra isso que eles se vestem daquele jeito e andam com aquelas botas nos pés e maquininhas de morte nas mãos, impunemente, em nome da ordem e da lei, prendendo e arrebentando, pra nos dizer sutilmente que a nós outros comuns mortais toca-nos o direito de sentirmos medo deles? Ou em fins semana de churrasco e cerveja, trancando rua e construindo casa em becos públicos da Ceilândia e Taguatinga, dando sua contribuição para o belo plano habitacional do coronel Joaquim, não é Cicinho...? Cala-te boca...! Paguei multa, retirei a van do depósito, recorri da multa, me devolveram o valor da multa dias depois, era só intimidação, entendi o recado, capitão (ou sargento ou tenente, qual a diferença?), eu feliz da vida porque escapei daquela com... vida... Claro que isso tem a ver com o fato de que volta e meia bandido mata taxista numa quebrada dessas aí... Nessas ocasiões, eles, bandidos com passagem, assim ditos, quase sempre, é que estão armados, mesmo que sem farda, e de frente pro crime, quer dizer, pra vítima... Ou é o contrário...? Deixa pra lá, voltemos às celebridades, porque a barra aí é menos pesada, podem crer.
Ano seguinte, 1997, a maioria das agências de turismo tinha até frota de vans, pus uma faixa amarela na minha, consegui uma licença no Detran e comecei a fazer transporte escolar pelos próximos seis anos. Nas horas vagas e nas férias, arrumava sempre alguma coisa diferente pra fazer... Temporadas Populares, alguém se lembra? As celebridades aí eram menos “estrelas” do que aquelas dos outros tempos, artistas em começo de carreira, gente do então chamado circuito alternativo, muito mais simpático e “gente”. Saia sempre com um produtor local, alguns com quem me relaciono até hoje, nos divertíamos, chegávamos a nos enturmar com os artistas, como aquele grupo de teatro de rua de São Paulo, que nunca esqueci... Assistíamos aos shows de graça, emprestávamos o crachá pra algum amigo mais duro assistir...Fiquei conhecido de porteiro, bilheteiro, administrador do Teatro Nacional, gente da Secretaria da Cultura que até hoje, quando me encontra por aí, recordamos aqueles bons tempos. Muita coisa vi e vivi, mas não me sinto muito confortável de contar algumas dessas, em respeito à privacidades de pessoas simpáticas e legais, coisas que nem em off, conversando a toa, costumo contar.
Tenho um amigo que está fora de Brasília há algum tempo e que costumava tomar por essa época um café expresso comigo numa lanchonete ali onde tem hoje outra com o nome de Nepper, no Conjunto Nacional, uma coisa toda preta, com um puxado lá pra cima, maneira, mas que não tem o calor humano e causos e causos contados por Pedro, um paraibano, gerente da antiga, em Brasília desde os tempos da construção, hoje gerente doutra no térreo dum espigão daqueles do setor comercial sul, edifício Baracat ou Bacarat. Encostava por ali em momentos de folga e tirava dedos de prosa de meia hora e até mais com Jorge Roux, conhecido professor de Filosofia e Psicologia nas universidades locais, autor de livros nessas áreas, que conhecera no meu tempo de bancário, numa roda que ainda tinha gente como o inquieto Antonio Carlos, conhecido na intimidade como Tonicão “Pega Leve”, especial prazer em falar “bem” de petistas e assemelhados, seqüelas talvez de antigas lides sindicais bancárias, em que pepessistas e petistas se batiam pela liderança da categoria, que ninguém é só imperfeito... Jorginho, como a maioria dos pepessistas, era, é, uma flor de criatura, doce e amigo Jorginho, que eu não esqueço. Pessoa séria e circunspecta, então beirando os setenta, ria como uma criança quando lhe contava causos envolvendo alunos que eu levava pra escola na minha lida diária. Por razão que até hoje desconheço, a maioria dos alunos que transportava eram do Colégio Militar. Acontecia às vezes de um pai me indicar pra outro e lá eu ia conhecer o novo pai interessado em que lhe levasse o filho pro colégio. Quando o pai era milico, tomava susto com aquele cidadão que de motorista de van não tinha muito jeito ou aspecto, cabelo grande e despenteado, barba mau aparada e óculos de grau, cara de maluco. Acho que depois de ligarem de novo pro pai que me havia indicado, confirmando se eu era eu mesmo, me chamavam novamente para assinar contrato e fazer as recomendações de praxe. Os filhos eram crianças e adolescentes que talvez pelo fato de conviverem com militares, alguns eram filhos, netos de militares, não costumavam me cumprimentar quando entravam ou saiam da van, eu não estranhava, nunca fui uma flor de comunicação. Militar se cumprimenta fazendo continência, deve ser por isso. Uma dessas histórias, que Jorginho me pedia pra recontar ou pra contar pra outras pessoas, lhe tiravam do sério, literalmente. Começo de ano, um garoto de quinta série, doze, treze anos, calouro, bicho, segundo os veteranos, era alvo de brincadeira dos outros quando entrava na van e sentava.
Amuado, ficava na sua, sem reclamar, a matutar “ano que vem me vingo num bicho que rala num cursinho preparatório ao seletivo...”. Um dia, uma garota já veterana, do segundo grau, pelo que sei hoje fazendo Física ou engenharia na UnB, chega pra perto dele, simpática e gozadora, e pergunta: "Quer namorar comigo?” O garoto, querendo se defender daquele assédio jocoso, se sai com essa pra cima daquela dama zombeteira e mordaz: “Vá tomar no cu...!”, reação típica de um “bicho” do Colégio Militar, em defesa de sua honra ultrajada por indecente proposta, em meio a tentativas de lhe arrancarem da cabeça a boina tão cuidadosamente ali plantada, e lançarem-na pela janela da van... Às vezes tinha que parar o carro pra serenar os ânimos, chamá-los aos costumes como um bom bedel do colégio, onde tinham que por seis longas horas, se comportarem como um bom recruta...
Que saudade daquela risada gostosa de meu amigo Jorginho...!
“Where are you, Jorginho?” Como não diria um ex-amigo hoje desafeto temporário (espero), poliglota, ou quase, por destino e carma...

PS – Se ninguém se incomodar seriamente, volto ao assunto em outra oportunidade... (ZAN)

Zeferino Alves Neto, uma enciclopédia do futebol, bom com a bola nos pés e craque no campo das palavras

Zeferino Alves Neto e seu acróstico ZAN, foi emérito colaborador do sítio Do Próprio Bol$o por anos. Dono de talento ímpar. O último medalhão desconhecido da contracultura nacional do Piauí a São Paulo, de São Paulo a Brasília especificamente no Conic. Autor de peças de teatros, livros, novelas e o escambau. Inteligente por opção. Leitor voraz e admirador de Luís Carlos Maciel.
Doou vários volumes raros e revistas a minha biblioteca. Sua última contribuição foi a biografia  Zé Ramalho O Poeta dos Abismos.

Um dos maiores cristãos benevolentes da Humanidade. Quando me conheceu disse: - Marão sempre procurei alguém que falasse como os meus personagens.

Habitar os anos dourados da intelligentsia coniquiana, onde o amigo de todos.

Um dos escritores mais atuantes e criativos que tive o prazer de conviver. Uma das autoridades máximas sobre futebol, sabia a história e quando jogava distribuia canetas nos adversários. Velho amigo que abandonou tudo pelas letras. Agora ZAN teremos que tomar uma. Pezão, o aguarda na sala celeste, Zeferino subiu para Academia dos Mortais lendo On the Road.

 

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