CONTRACULTURA (BLOG DO DODÔ AZEVEDO)

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Contracultura
Por Dodô Azevedo

8 jun. / 2018 - Jurassic Park, o filme original de Spielberg, completou 25 anos e voltou às telas. Uma grande sacada no roteiro do filme: para garantir que os dinossauros do parque não se reproduzam, criam-se apenas fêmeas. O matemático interpretado por Jeff Goldblum diz que isso não vai impedir a reprodução. "De alguma forma, a vida sempre encontra um jeito de se reproduzir" - é a mensagem meio subversiva que ficou na cabeça da criançada que assistiu ao filme.

A arte é exatamente como a vida. Tão perigosa para a manutenção de ambientes controlados, seja pelo governo ou pelo mercado (como o parque do filme de Spielberg), a arte sempre encontra um jeito de se reproduzir.

E é geralmente em ambientes hostis que a arte mais e melhor se reproduz.

Semana passada, no Rio de Janeiro, o prefeito Crivella proibiu a peça na qual Jesus Cristo era interpretado por uma atriz travesti. Resultado: uma mobilização civil levará a peça para uma apresentação amanhã, sábado, na Fundição Progresso. Com duas, três vezes público maior que teria ido na apresentação proibida.

Vivemos, no geral, no país, tempos praticamente impossíveis para a arte. Principalmente para os pequenos empreendedores ou produtores culturais. E a falta de dinheiro não é o grande problema.

Não é nada perto da opinião pública deste novo (velho) Brasil de direita, que diz que a arte é prescindível e que artista é um sujeito que vive às custas do dinheiro do governo.

Onde até a apreciação da arte se vê prejudicada por um público que dá claros sinais de emburrecimento nos últimos cinco, seis anos, onde cada vez se vê menos livros nas casas das pessoas e os novos gurus intelectuais conservadores possuem o que chamávamos nos anos 80 de "cultura de seminário", quando se conhece o mundo apenas por livros. Sendo que os gurus de agora sequer leram o fundamental A Lanterna na Popa, fanfic de 1.500 páginas de Roberto Campos. Pior do que "cultura de seminário", parecem ter se informado em videos de YouTube, desses que misturam teorias da conspiração com terraplanismo.

Pois é nesse cenário pós-apocalíptico que a arte nunca esteve tão ouriçada. A produção cultural autônoma, nos últimos dois anos especialmente, é tão vertiginosa que nos parece invisível.

Ninguém aqui do lado de cá do túnel ouviu, por exemplo, falar da rede de produtoras culturais da baixada fluminense. Muito menos do grupo de cineastas mulheres, independentes, de Nova Iguaçu, que faz cinema sem recurso algum, e distribui também sem recurso algum para o seu próprio público, o morador da região. Não procuram jornais ou tevês para divulgar o seu trabalho. São autônomas. Se você não correr atrás, nunca saberá da existência delas (são, só nesse caso, vários coletivos, como o Coletivo Roque Pense, o Coletivo Laranja Vulcânica a Facção Feminista Cineclube).

Assim como quase ninguém conhecia, fora das rodas de pessoas antenadas em procurar a vivência da rua, Marielle Franco.

Outro exemplo: a cena rock na periferia do Rio só se compara em volume à cena do início dos anos 90.

O sarau literário no escondido sebo Belle Epóque, no Méier, "no lado de lá da linha do trem", também está fora de nosso radar. Na última edição, revelou talentos que não encontraremos na FLIP.

Grupos de teatro que nunca ouvimos falar (por questões de interesse geográfico nosso, sempre) resolveram ir para as ruas, ocupar praças desocupadas.

Nas praças do subúrbio, quase todo dia há em uma delas, à noite, roda de Slam - a batalha de rap que, abrasileirada, têm revelado os melhores cronistas, logo letristas, da atualidade. Tudo molecada de 20 anos que, se resolver em turma visitar um shopping da Zona Sul, será abordada por seguranças.

Escolhemos nunca olhar ao redor. Só para o centro. Mesmo os moradores de periferia também sentem o impulso de olhar para o centro (no caso, a nossa Zona Sul). Somos, em parte, vítimas, é verdade. Bombardeados por propaganda cultural, da mesma qualidade que nos deixa com vontade de comprar o mais último modelo do carro da marca xis.

Mas só em parte. Não se movimentar pela cidade é um pecado e o preço a pagar caríssimo. A própria violência urbana é reflexo da falta de movimentação, de uma espécie de sedentarismo cultural, que cultivamos - como ensinou o Plano de Giulliani para recuperar Nova Iorque nos anos 80, tolerância zero com o crime e estímulo aos empreendedores periféricos da cidade.

A última vez que o Brasil viveu tempos tão áridos, foi nos primeiros anos após o golpe militar. Quando veio 1968 e a linha dura escancarou a ditadura, produzimos grandes canções, romances e obras de artes plásticas. Do chão infértil pisado pelo delegado Sérgio Fleury, nasceu a Tropicália.

Ao que tudo indica, estamos, hoje, em 2018, vivendo um ensaio para tempos tão miseráveis quanto aqueles.

Mas a arte, este antídoto tão temido por quem ganha com a miséria do outro, é um velociraptor.

Ela sempre encontrará um jeito.

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