AS GENESIS DO PRÓPRIO BOL$O (2018)

As genesis do próprio bol$o

trio

Revisão: Roberto Gicello

Texto autobiográfico

RETARDADOS - éramos um trio: eu, o meu melhor amigo e o irmão mais velho dele. Líamos o trio de revistas Mad/Pancada/Porrada e elas influenciavam a nossa vida. Na escola me chamavam de Mad, que eu achava legal. Levávamos meias fétidas ao nariz ou queimávamos formigas com cigarros (essas eram as coisas leves). Um dos termos empregados era Retardado – fulano ou filho de tal pessoa é retardado! Os discos de rock de Led Zeppelin, Pink Floyd e Queen foram trocados pelos de discoteca - os tempos estavam mudando. Não pegamos o punk e sim a new wave, 1980. Escroto era uma gíria usada em Brasília e eu achei horrendo se referir às pessoas como sacos escrotais. Então, Divine lançou uma música chamada "Born to be cheap" que traduzida a gíria era algo como "Nasci para ser escroto" e eu adorei o título, mas achava pesadíssimo. Comecei a escrever uma autobiografia, Nascido para ser escroto. Eram textos sem nexo, tipo Crumb e Skrotinhos, com muita sátira e confusão mental. Os contos curtos de freiras de capuz sendo atropeladas e outros vacilos ficaram na gaveta. As revistas americanas de metal anunciavam discos da Black Flag. Os compactos independentes ingleses eram prensados sem capa e vinham numa embalagem plástica transparente, com o desenho impresso. Nunca mais vimos algum desses. Surgiu o selo americano ENIGMA Records. Surgiu também a vontade de montar um selo. Os artistas mais velhos, e ligados à maioria a desenhistas e serígrafos, falaram da ideia de montar um selo com as bandas dos amigos. Então, veio o alistamento militar e matou muitas dessas ideias rebeldes antissistema. Ali nasce o conceito do próprio bol$o – aproveitamos os parcos recursos, mas falhamos em escala industrial.

II

ANAIS - Doctor, o vizinho do conjunto 'A' na QE 34, respirava um ar de intelectual. No final de 1980, em meio aos exames finais, quando alguns de nós sabíamos que tínhamos perdido o ano letivo, Superman 2 foi levado às telas. Mr. Doctor, com sua fala mansa, apareceu no conjunto com uma revistinha ilustrada a lápis com o título de SUPERTHIN (Supermagro) eu era caricaturado, nessas páginas, como um esqueleto voador com capa - me lembro que no final havia uma entrevista comigo feita em minha mansão em Hollywood! Doctor era sabido mesmo. Sabia inglês mais do que os professores. Ele não me deu o único exemplar existente com medo que eu o rasgasse. Nunca mais fiquei sabendo o que foi feito com a vida do Doctor e nem me lembro do seu nome de batismo.

Esse foi o primeiro zine que eu vi! Até então os boletins informativos dos fã-clubes eram impressos em offset (das origens do próprio bol$o)

III

Devido ao grande fluxo de cartas trocadas com fãs de rock de todos os estados, entramos numa de rodar o zine. Arrumamos caixas de grampos, grampeador, carimbo e uma resma. Envelopes foram conseguidos e, de vez em quando, até selos! Essa onda rolou porque Brasília era Brasília a capital das máquinas "xeroxs". Nosso zine não tinha patrocinador, revisor e nem colunas – aliás, no mundo dos adultos ninguém nunca tinha visto um zine e pensavam que seria um jornalzinho mesmo. Nunca tive horizonte, nunca pensei em aumento de tiragens, o que 'fodeu' do próprio bol$o precocemente. Achava que a informação deveria ser de graça, pois não havíamos pagado pelas cópias. Nessa época, emprego era de estagiário ou contínuo, nome geracional para office-boy do serviço público. Os que estagiavam na Caixa Econômica usavam um conjunto, ridículo: blusa de cambraia com camisa e calça na cor turquesa – alguns vestiam uma camiseta branca por baixo para a camisa do uniforme, aberta, passasse como um sobretudo descolado – o jovem no desalinho garboso da pobreza desafiando as formalidades ocas do patrão.

E assim os amigos eram incumbidos de conseguir as cópias das folhas. Então, me lembro rindo!, flagraram (ou quase) meu melhor amigo tirando as cópias... ele teve que colocá-las dentro das calças. O bom foi que tivemos que nos instruir – estudar e aprender a escrever na tora e na base da bala. Que fique o exemplo para nossos filhos.

 

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