"Eu estou morto, minha cabeça é feita de cobre e as cobras em meu estômago estão me queimando"

reportagem / drogas
"EU ESTOU MORTO, MINHA CABEÇA É FEITA DE COBRE E AS COBRAS EM MEU ESTÔMAGO ESTÃO ME QUEIMANDO"
 
Ou a história de como a CIA teria provocado mortes e a maior bad trip da humanidade ao testar secretamente os efeitos do LSD em uma pequena cidade francesa
por Guilherme Rosa / http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI135001-17773-2,00-EU+ESTOU+MORTO+MINHA+CABECA+E+FEITA+DE+COBRE+E+AS+COBRAS+EM+MEU+ESTOMAGO+ES.html

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AS VÍTIMAS: o padeiro Maillet (à esq.) ficou preso por duas semanas, acusado de vender trigo envenenado. O bioquímico Frank Olson (à dir.) teria sido morto pela CIA por falar demais

Créditos: AFP e reprodução

A morte explica
O LSD foi acidentalmente descoberto pelo químico suíço Albert Hoffman em 1943. A CIA foi criada em 1947, para coletar informações relativas à segurança nacional americana. Durante todos os anos 50 e 60, a agência estudou a droga como quem encara a arma definitiva. “Eles pensavam que o LSD tivesse o potencial de substituir as armas de fogo e bombas, que guerras poderiam ser travadas apenas com químicos alucinógenos”, diz Albarelli.

O jornalista deparou com a história de Pont-Saint-Esprit e do Pão Maldito quando investigava a morte do cientista bioquímico Frank Olson, tema de seu livro. Olson trabalhava para a CIA e foi encontrado morto no final de 1953, depois de presumidamente se jogar do 13º andar de um hotel.

A versão de que Frank teria se suicidado nunca convenceu a família — a janela estava fechada quando ele se atirou para a rua. Só em 1975, quando o governo americano abriu arquivos que eram mantidos em segredo, que as circunstâncias de sua morte começaram a ficar claras.

Olson trabalhava no Forte Detrick, em Maryland. O local era conhecido como o centro de pesquisa para ataques bioquímicos do governo. “Seu trabalho era pensar em modos novos e melhores de matar”, diz Albarelli. Ele estudava vários tipos de agentes biológicos e químicos.

Ali, ele atuava sob supervisão de um projeto da CIA chamado MKULTRA, que estudava quase todo tipo de droga, a fim de utilizá-las como soro da verdade, em missões de sabotagem ou para fins de controle mental. “O MKULTRA testou todas: LSD, mescalina, cogumelos, peyote, morfina, heroína.”

Mas, sem dúvida, a mais investigada de todas as substâncias foi o LSD. Segundo Albarelli, pelo menos 6 mil homens do exército americano serviram de cobaias para o projeto. “Mas se contarmos o total de afetados, incluindo civis e estrangeiros, foram mais de 10 mil cobaias, inclusive prisioneiros de guerra.”

O MKULTRA também testou a droga em civis. Às vezes, os experimentos eram voluntários, como os que aconteciam com viciados em drogas na Prisão Federal em Kentucky. “Os viciados em heroína não gostavam de tomar mescalina e LSD. Então, como forma de pagamento, eles ganhavam mais heroína do governo”, afirma o jornalista.

Um dos casos que mais repercutiu na opinião pública americana foi a Operação Clímax da Meia-Noite. Organizada por um agente chamado George Wight, a operação testava a droga em homens cooptados por prostitutas. Segundo uma matéria da revista TIME, de 1977: “De noite, mulheres atraíam os rapazes para esconderijos e lhes davam LSD ou maconha, enquanto outros homens olhavam através de um falso espelho e gravavam a cena [...] As mulheres, aparentemente prostitutas clandestinas, ganhavam US$ 100 por cada trabalho para a CIA”.

Grande parte dessas informações veio a público em 1975, quando uma investigação do Congresso tornou públicos os arquivos da operação MKULTRA. Ou o que restou deles. “Mais detalhes sobre esses casos são muito difíceis de descobrir, já que os documentos foram todos destruídos em 1973, por ordens do diretor da CIA. Foram queimadas 140 caixas. Sobraram somente umas vinte, em sua maioria com balanços financeiros”, diz Albarelli.

Com as novas informações, a família de Frank Olson tinha subsídio para cobrar por respostas mais aprofundadas do governo. Acontece que era comum os cientistas também testarem as drogas em si mesmos. O diretor do MKULTRA, Sidney Gottlieb, contou para Alabrelli que usou a droga mais de 40 vezes: “E ele gostou de cada uma delas, disse que se tornou uma pessoa melhor”, afirma o escritor.

Frank Olson nunca tinha participado desses experimentos, até que foi chamado para uma reunião com outros cientistas do projeto, nove dias antes de sua morte. No evento, quase todos os presentes foram drogados por uma dose de LSD que havia sido escondida numa garrafa de Cointreau. A versão oficial do caso mudou. Agora, Frank teria entrado em um estágio de extrema paranoia e depressão depois de ter sido drogado pelo governo. Ele teve de ser afastado de suas funções e estava em Nova York para receber ajuda psiquiátrica, mas se matou durante o tratamento. Em 1975, o presidente Gerald Ford pediu desculpas para a família de Olson e ofereceu US$ 750 mil de indenização.

A nova história também não convenceu a família do cientista, especialmente o filho mais velho, Eric Olson. Em 1994, ele finalmente conseguiu que o corpo do pai fosse exumado e uma análise forense apontou lesões em seu crânio. Frank teria sido golpeado na cabeça e nocauteado antes de ser atirado pela janela. Os depoimentos recolhidos por Albarelli trazem uma nova versão: ele teria sido assassinado pela CIA. Olson estaria falando demais, revelando segredos da agência. Suspeitavam, inclusive, que estivesse contando histórias sobre uma experiência ultrassecreta realizada numa cidadezinha francesa...

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