Capa de Açougueiro, Ferros-Velhos e LPs Japoneses (2025)

CRÔNICA SONORA — “Capa de Açougueiro, Ferros-Velhos e LPs Japoneses”

mário pazcheco

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Há discos que são mais que discos – são portais. Um deles é o lendário “Yesterday and Today”, dos Beatles, com a infame capa do açougueiro. A foto, feita por Robert Whitaker, mostrava os quatro rapazes de Liverpool vestidos como açougueiros, cercados por bonecas decapitadas e pedaços de carne crua – uma crítica surrealista à Guerra do Vietnã e à forma como a indústria mutilava sua imagem.

O público não entendeu. A Capitol Records recolheu o lote e colou uma nova capa por cima: os Beatles sentadinhos, inofensivos, ao redor de um baú. Mas alguns fãs descobriram o truque – bastava vapor e paciência para descolar a “máscara”. Assim nasceram as míticas “second state butcher covers”.

Cinquenta e nove anos depois, em 2025, esse disco continua a provocar fascínio. Uma cópia autografada por John Lennon foi vendida por US$ 234.000, o equivalente a R$ 1.258.054,20. Uma fortuna. Um símbolo. Um pedaço de loucura dos anos 60 ainda pulsando.

E o fã brasileiro que quiser uma cópia original – sem autógrafo, claro – terá de desembolsar modestos R$ 149.544,00. Um preço quase metafísico, desses que fazem o colecionador rir de nervoso.


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Hoje acordei com vontade de mexer nos discos, mas antes precisei enfrentar o mundo real. Fui cuidar da boca – odeio tirar as chapas da arcada. Na saída, um carro estacionado sobre a zebra bloqueava a passagem. Esperei. O motorista nem tchum. Passei pela direita, buzinei. Ele veio atrás, furioso. Segui devagar, entrei na vaga de idosos. Ele gritou, eu sorri. Pensei: “Você já combateu o fascismo hoje.”

Depois disso, fui rondar os ferros-velhos. O Gilson, do ferro-velho, me disse que eu estava entre as três maiores coleções de discos do Guará. Gostei da atualização do ranking – sempre bom saber que o passado ainda rende dividendos simbólicos.

Foi o Fabrício Bizu quem me trouxe o pôster do festival de 1975, e foi pelo poster também que descobri que a banda Biscoito Celeste, de Brasília, participou do Festival Banana Progressyva em 1975, em São Paulo. Décadas depois, Bizu resgatou o cartaz e transformou o esquecido em arte.

Guardei o pôster por dez anos. Agora ele brilha na parede, ao lado de outras memórias do rock brasileiro.


Em 1982, Luiz Calanca, da Baratos Afins, acreditou em Arnaldo Baptista e lançou Singin’ Alone. No ano seguinte, trouxe de volta Lóki? e Os Mutantes no País do Bauretz. Nos anos 80, a Baratos Afins virou guardiã da psicodelia.

E em 2003, quando a loja completava 25 anos – no meu aniversário de 24 de maio —, ganhei dois pôsteres comemorativos: um da banda Mákina du Tempo, outro autografado por Rolando Castello Jr., do Patrulha do Espaço.
Quando o Calanca viu a colagem que fiz com o pôster, soltou:

“Vocês estão consumindo ácido da melhor qualidade!”

Lembro de uma cena vívida: a Mákina du Tempo entrando numa salinha lotada de pôsteres, como quem invade o Olimpo do vinil. E Serguei, no palco, quase entrando fora de hora — até que o Célio de Morães grita, divertido:

“Agora, não!”
E a nave segue psicodélica, intacta.


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Hoje, folheando os LPs, encontrei o Beatles No. 5, prensagem japonesa Apple AR-8028, em mono. Raridade pura. Foi nesse disco que, pela primeira vez, as faixas “Sie Liebt Dich” e “Komm, Gib Mir Deine Hand” apareceram juntas em LP – exclusividade do Japão.

Muita gente prefere as edições inglesas, mas eu tenho o ouvido treinado: os japoneses soam diferentes. Talvez mais limpos, mais humanos. Decidi – de agora em diante, só compro LPs de 140 gramas. Soam melhor que os de 180.
Comparar um LP nacional a uma prensagem importada é uma viagem – um barato, como o melhor fumo.

Adoro os alemães, respeito os franceses, e tenho paixão pelos compactos portugueses dos Beatles e dos Rolling Stones – capas desenhadas à mão, puras raridades. Os ingleses originais? Quase lendas. Talvez o tempo deles tenha passado – ou talvez nós é que estejamos passando por eles, de novo.


Entre pôsteres, ferros-velhos e prensagens japonesas, descubro que minha coleção é também um diário.
Cada vinil, um capítulo.
Cada ruído de agulha, uma lembrança.
E cada faixa tocada é uma forma de continuar vivo, girando, colecionando ecos – como se o mundo ainda fosse uma vitrola que não parou de rodar.

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