UVA – Uma Cronologia Afetiva (1973–2025)
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Raiz Incendiária do Guará
Sem amargas pretensões, vamos encarnando nosso próprio realismo mágico — sem a ambição de sermos Guimarães Rosa — e transformando a realidade em mito, como quem descreve a trajetória que vai do nascedouro da UVA à mais incrustada de nossas memórias. Em dias em que falar do passado parece uma afronta à “borracha existencial”, insistimos: lembrar não é apagar, é iniciar de novo. Como se fosse possível uma verdadeira iniciação àqueles tempos.
Em 1973, o reggae deu um passo decisivo rumo à projeção internacional com o lançamento de Catch a Fire, o primeiro álbum de Bob Marley and the Wailers distribuído oficialmente fora da Jamaica, sob o selo da Island Records. Produzido por Chris Blackwell, o disco foi remixado com elementos do rock — guitarras mais presentes, teclados atmosféricos, uma sonoridade mais “ocidentalizada” — numa estratégia clara para conquistar o público europeu e americano, especialmente roqueiros em busca de novos ritmos com alma e rebeldia.
A estratégia funcionou. Faixas como “Stir It Up” e “Concrete Jungle” começaram a tocar em rádios alternativas e abriram caminho para que a banda alcançasse palcos maiores fora da Jamaica. Na época, os Wailers ainda tinham Earl “Wire” Lindo nos teclados, acrescentando novas texturas ao som.
Mas 1973 também foi ano de rupturas. Bunny Wailer e Peter Tosh deixaram o grupo após o lançamento de Burnin’, último disco da formação original, que trouxe hinos como “Get Up, Stand Up” e “I Shot the Sheriff”. A regravação desta última por Eric Clapton — que alcançou o topo das paradas nos EUA — ampliou drasticamente a audiência global de Marley. Com Catch a Fire e Burnin’, os Wailers deixavam de ser apenas uma força local jamaicana para se tornarem ícones mundiais da cultura popular.
Catch a Fire não foi apenas o início da projeção internacional de Bob Marley — foi também uma fagulha que, anos depois, incendiaria sonhos e sons em um bairro distante chamado Guará.
Enquanto o reggae cruzava fronteiras e ganhava as prateleiras de jovens europeus e americanos, o Guará — recém-criado no entorno de Brasília — vivia suas próprias transições culturais. Em 1973, a banda de baile Matuskela se preparava para gravar seu único LP, marcando presença nos salões e festas da cidade. Ao mesmo tempo, o tradicional time de futebol amador UVA, do Guará I, encerrava suas atividades, deixando para trás os campos de terra batida onde tantos jovens haviam moldado sua identidade coletiva.
A sigla UVA continuou ecoando no bairro, permanecendo no imaginário popular. Anos mais tarde, um grupo de estudantes que cresceu entre as quadras do Guará e circulava pelas Asas Sul e Norte adotou o nome Turma da UVA. O nome não vinha de relação direta com o antigo time, mas de uma afinidade simbólica: havia ali um senso de comunidade, de raiz, de presença — algo que unia juventude, invenção e pertencimento.
Assim nasceu uma nova UVA: um coletivo inquieto, criativo, que deixaria sua marca nos circuitos culturais de Brasília. E, mesmo sem perceber, aquela fagulha lançada por Marley e seus companheiros em 1973 já ardia silenciosamente no coração de muitos — alimentando futuros encontros entre o som rebelde das ilhas e os ritmos, caminhos e sonhos do Planalto Central.

UVA – Uma Cronologia Afetiva (1973–2025)
Por Mário Pacheco · Blog Do Próprio Bolso
O que aqueles caras da UVA fazem?
Quase cinco décadas depois, ainda estamos tentando responder. A UVA — essa casa de ideias, turma, tribo, família improvisada — nasceu antes mesmo de sabermos seu nome. Hoje, continua viva como memória, ritual e afeto.
1973 — A Gênese
A semente foi plantada na QE 34 do Guará II, no começo dos anos 1970. Os casais Edinho e Luciene Saldanha, Joel e Narcisa Oliveira, Zé Otávio e Lilian, e Mima e Eliane formavam o núcleo social e cultural que viria a se chamar UVA.
Eliane — estudante secundarista — foi a primeira a nos falar de Renato Russo e do Aborto Elétrico. A UVA era inquieta por natureza, um território fértil de invenções: Chaguinhas filmando em Super-8, Mancha imprimindo a primeira camiseta (Led Zeppelin / Jesus Cristo), Pedro Veras desenhando como ninguém, Joel artesão, Gaspar professor de matemática, Zé Otávio na horta e no rumo político, Eli Soares pilotando a moto TT branca. Uma proto-cena cultural que se espalharia pelo Brasil.
Anos 1970 — A Experiência Guará/Taguatinga
Cheguei de Osasco para Taguatinga Sul e depois para o Conjunto C, QE 34. Era 1978. No dia da mudança, acontecia o velório do pai de Ricardo Muniz — futuro amigo. Enquanto isso, tocava “Whole Lotta Love” no Superstars do Rock. Foi ali que minhas amizades mais duradouras começaram.
No Guará, tudo era mais aberto. As casas, os pais, as noites. As festas atravessavam madrugadas nos Conjuntos C e O da QE 34. Dona Luci (†) e Dona Catarina eram grandes anfitriãs.
Ao entardecer, o “chá das 5” era numa parada de ônibus vazia. A praça da QE 34 era território de convivência: Peixe, Pedro Veras, Mancha, Antônio Padeiro, entre tantos. O uniforme era a camiseta do Led Zeppelin III. E Zulu, com seu famoso “E aí, figurinha?”, completava o cenário.
Final dos anos 1970 — Guará Rock City
As festas surgiam quase sozinhas. Eu estava largado, sem estudo ou trabalho, e qualquer festa começava por mim. Na Vidraçaria da 32, Joel e Eli pediram uns pés de mandioca para o caldo da noite. A festa foi para Isabela, mas era também meu aniversário de 20 anos.
Levamos uma fita ao vivo do Extremo, banda de hard rock que caminharia ao nosso lado por quase vinte anos.
As festas eram simples: mexidão na mesma panela, pão quente, frango assado, Velho Barreiro, Chapinha, vodka e rock. O Rock Baby tentou unir Guará I e Guará II, dando origem ao Psicose Crônica. E, paralelamente, nasceram as primeiras festas reggae da cidade.
1980–1983 — Cinema, Beatles e Rock Cerrado
A vida cultural fervilhava:
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Sganzerla exibindo Hendrix,
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Woodstock, Monterey Pop,
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“Rock é Rock Mesmo”,
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Galpãozinho, Escola Parque, Cine Brasília, Gama.
Em agosto de 1980, assisti Help! na Cultura Inglesa. Uma semana após o assassinato de Lennon, exibiram Alucinados do Som e da Guerra. Em 1981, Magical Mystery Tour e, depois, o histórico Rock Cerrado de setembro.
Em abril de 1982, na QE 32, abrimos o fã-clube dos Beatles e organizamos uma homenagem a Bob Marley — que terminou na nossa primeira noite na cadeia. Saímos duas vezes no Correio Braziliense.
Outubro trouxe a apresentação da Legião Urbana, onde conheci o trio Extremo.
Ainda em 1982, surgiram os Encontros de Músicos do Guará (EMG). Conheci ali o professor e escritor Lincon Lacerda.
Era época de Jegue Elétrico, de contracultura no Conic, de discos da produtora Strawberry Fields comprados por Joel e Narcisa. Vimos Marco Antônio Araújo ao vivo em 1985.
Shows, exposições, bandas como Barão Vermelho, Plebe Rude, Robertinho de Recife, Venom, Exciter, Liberdade Condicional… Um mosaico de três décadas de pão, circo e rock.
1983–1989 — Consolidação
As festas seguiam fortes na QE 34...
Joel de Oliveira e Narcisa Fonseca foram os primeiros a adquirir discos diretamente da Strawberry Fields, a produtora de Belo Horizonte comandada por Marco Antônio Araújo. Em 1985, nós o vimos ao vivo, com seu Grupo, no Teatro Nacional — Sala Martins Pena.
No fim dos anos 80, viajamos a BH para vender camisetas no show d’Os Paralamas. Herbert fraturara o pulso; o show foi cancelado. Sem dinheiro, seguimos para Ouro Preto. Sobrevivemos — e rimos.
2012 — Disfarçados & Mocados
Em fevereiro de 2012, reencontramos Zé Otávio, Mário e Eli. Revimos histórias, fotos e sobrevivências. Em agosto, comemoramos os 50 anos do Joel. Um banquete inesquecível. Black Sabbath, Led Zeppelin, Hendrix, Raul. O trio Graves Blues Acústicos abriu com homenagem a Celso Blues Boy.
2015 — Fotografia Social
Joelma Antunes passa a registrar a vida cultural do Guará com precisão documental. Um novo capítulo da memória visual da UVA.
2022 — Sessenta anos de Joel
Em agosto de 2022, celebramos o aniversário de Joelzinho. Comida farta, humor, música e a sensação de que a ampulheta não nos ameaça — nos favorece. Já não éramos garotos famintos; éramos avós com boa lembrança e paz interior.
Foi bom estar juntos.
Foi bom ser parte.
Foi bom ser querido.
Epílogo — Sem Confabulação
A conferência da UVA não inventa glória. Não buscamos reconhecimento. O retrato é simples: adolescentes com discos de rock, uma volta de camburão, festas no Conjunto C, pequenas responsabilidades da vida.
O brilho estava — e está — nas pessoas que cresceram conosco.
Numa dessas noites, redescobri algo essencial:
preciso mudar meu temperamento.
Deixar de ser isolado.
Manter o diálogo.
Com cuidado.
UVA: Um Domingo que Valeu por Mais de Quatro Décadas (1978–2025)
Amizade desde 1978 — Ely, Joel, Zé Otávio e Mário
27 de abril de 2025
Revi a foto de ontem: Ely com a camiseta dos Sex Pistols, eu com a da Janis Joplin. Lembrei de quando Joel trouxe o LP Never Mind the Bollocks de Ribeirão Preto, entre 1979 e 1980. Quase implodimos disputando quem ficaria com o disco.
Ruídos
And we’re gonna groove…
Em tradução livre e sentimental:
E nós vamos curtir… até o amanhecer.
A Padaria da QE 19
Começamos o dia no café com Ely e Danny. Ao sair, Danny pediu:
— “Dê um abraço no Joel e agradeça por ter me apresentado Molly Hatchet e Marco Antônio Araújo!”
Joel completou:
— “… e Ram Jam também!”
O domingo prometia.
Born to Be Wild
Partimos para o Guará I. A UVA — “União dos Vagabundos Alcoólatras” ou “Uma Visão do Amor” — existiu entre 1978 e 1982 como nosso veículo cultural movido a riscos, ousadia e sonhos. Hoje, claro, seríamos cancelados antes dos 20.
Salto no Tempo
O underground real só ganharia corpo no início dos anos 80. Víamos shows no Galpãozinho, rodas culturais no Conic. No Bom Demais, Cássia Eller bebeu o copo de vodca da mesa do Joelzinho. Vimos Cida Moreira cantar com Renato Russo na Funarte. Ely me apresentou Antonio Augusto, do Malas & Bagagens. E só aceitávamos show “0800”.
Adianta a Fita
Hoje, buscamos concluir juntos a travessia no serviço público. Joel reciclava materiais antes de quebrar o braço pintando parede; Zé Otávio foi professor; eu e Ely disputamos quem se aposenta primeiro.
Nossa reunião é mais valiosa que qualquer volta triunfal de banda.
Rock, Cerveja, Política e Futebol
Nos encontramos no Incra 8, depois na casa da neta de Joel e Tânia, onde a peixada na brasa reinou. Tambaqui de água doce, talvez proibido, mas Brasília tem suas peculiaridades.
Coisas do Destino
O meu celular virou jukebox: The Doors, B.B. King, Creedence, Led Zeppelin IV. Joel resumiu:
— “Esse domingo valeu por dez anos.”
Na volta, Joel ligou do carro só para dizer que o Flamengo fizera 4 no Corinthians.
QNQ — No fim da QNR 5 haverá um arco-íris?
A QNR 5, entre urbano e rural, vive sob tensão. Derrubadas recentes do DF Legal mexem com a vizinhança. Dizem que ali pode surgir um condomínio para sete mil pessoas. Carros chegam cedo; ninguém sabe se são corretores ou grileiros.
Joel se mudou para a QNQ em 2004 e esperou quatro anos para ver asfalto. A QNQ virou extensão afetiva da UVA.
O reencontro nasceu no Dia do Amigo, 20 de julho. Mas aprendemos: WhatsApp não sustenta afeto. Ely sustenta.
A Caixa d’Água e o Fogo
Durante o almoço, a caixa d’água se rompeu. Fechamos o registro e acendemos o fogo. Conversamos sobre política, futebol e velhas estradas. As netas do Joel socializam melhor conosco do que nossos filhos. Elas gostam de pagode; nós, de rock. Mas somos um núcleo único.
QNQ Vermelha — Derrubando Muros
Na hora de ir embora, Joel lembrou The Wall. O muro só cai quando alguém atravessa.
No carro, coloquei “Comfortably Numb”. Foi a trilha da despedida. Depois, deixei um por um em suas casas — Ely, Zé Otávio, Joel, Tânia e o sempre gentil Dudu.
Ao fundo, uma garota chorona… querendo apenas dançar.
O Restante do Domingo
Meu domingo ainda surpreenderia: meu time paulista venceu o clássico. E, à noite, ao lado de Marizan, fui ao teatro ver Marielle, dirigida por Jorge Antunes. Uma peça visceral, favela, milícia, resistência.
O voo da liberdade é alto — e caro.







