Córrego Bernardo Sayão: A Mata que Recomeça na Beira da Cerca (2025)
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Colônia Agrícola Bernardo Sayão - chácara 12
QE 40
Guará 2

Beba Bernardo Sayão
por Mário Pazcheco
No princípio, a mata ciliar do córrego Bernardo Sayão ocupava cerca de 30.000 metros quadrados. Dela foi arrancada a terra turfa — aquela terra de brejo — e levada embora em cerca de 3.000 viagens de caminhão. Fora de seu habitat natural, a água diz: não vale nada. Aquela terra não serve de aterro nem de adubo; não tem nutrientes.
E como sempre, algum mistério — ou providência — tocou o lugar. Havia uma estaca de demarcação de terreno junto à minha cerca, e ali a destruição estancou. A mão de Deus? Se eu acredito em milagres existenciais? Acredito. Porque, daquela cerca, há décadas eu vejo um filete — ora jorro, ora recato — e a luz que filtra pelas árvores desenha manchas de sombra e brilho sobre a aguinha e o barro negro.
Ainda hoje há plantas nativas submersas, vegetação densa e folhas verdes e brilhantes de mudas que crescem encostadas na cerca. As estacas estão parcialmente enterradas no solo encharcado pelas mãos da água, com folhas secas espalhadas pelo chão. Essa é a ecologia que eu pratico e que resiste.
Hoje mesmo, peguei a velha enxada e cavei no rego da mata úmida. A aguinha brotou, seguiu pelo canal e deu de beber, apaziguando a seca do córrego Bernardo Sayão — que, pela graça do tempo e da água, recupera sua margem e segue alimentando a vida ao redor.
Derrubaram, varreram, cercaram nascentes, canalizaram a mina — fizeram o possível para apagar a memória da mata. Mas a água insiste: surge, fortalece-se e avança mata adentro, rente à cerca que não foi posta para barrar pessoas, e sim para proteger as bananeiras e evitar que as capivaras as devorem.
É esta resistência humilde — um fio de água, uma estaca, uma muda verde — que me dá esperança. É assim que a mata, pouco a pouco, volta a ser.

