A Tábula d'Os Oito Cavaleiros da 28 (2025)

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Sábado 20, de dezembro de 2025

Às vezes a gente sai para ser notado. Hoje mesmo, sábado, saí pela manhã: Carrefour primeiro, depois Conic. Havia uma feira de discos — que nem dei moral. A pintura do Conic estava na sua versão mais horrenda, e o cenário lembrava um capitalismo de favela, sem charme nem verniz.
Fiquei sendo observado enquanto saía pela culatra, espiando de soslaio o que a falta de segurança faz com espaços públicos que acabam privatizados à luz do dia, num sábado qualquer.
A noite veio para corrigir o dia. Fui ao aniversário do Tupanzine — uma dádiva. Trinta e um anos de luta do zine, celebrados ali, entre amigos sobreviventes, cada personalidade marcando seu território sem pedir licença.
A cerveja era boa, e o som melhor ainda por ser de graça — infinitamente superior a pagar entrada em qualquer casa, até mesmo no chamado bar “Culto”.
Marquinhos discotecou colado no rock’n’roll. Wilton seguiu pelo caminho clássico e linear. Já Cláudio Bull puxou tudo mais para perto do inferno sonoro das grandes casas de música do primeiro mundo. Foi ousado. Eles foram ousados — até quando tocaram The Verve e The Kinks.
Lá na 28, a festa ainda vibra. Não darei nomes, mas a massa era musical de altíssima categoria.
Love you.

2.

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Jesus Amado resolveu reunir os fósseis num bar do comércio da QE, em frente ao conjunto “I”, aquele que se estende até o fim da quadra e faz divisa com uma bela área verde que desemboca na 26. Nem preciso dizer: naquelas esquinas e becos matamos o tempo — e o tempo, por sua vez, ficou como testemunha silenciosa dos nossos atos.

Seríamos os oito cavaleiros do pós-apocalipse? Um octeto terrível, criminosos conceituais contra o Homem-Aranha e outras falsas moralidades. As histórias brotaram infinitas. Edson decretou que Taguatinga não é tão alegre quanto o Guará — e que lá chove mais. O velho e eterno embate entre Léo e Edson reapareceu como um clássico mal resolvido.

Kozac contou, com a solenidade de quem confessa um pecado capital, a venda de 495 LPs para abastecer o Maverick branco. “Mas era um Maverick”, justificou, como se isso explicasse tudo — e talvez explicasse mesmo. Fred foi generoso: deixou os caras à vontade, deixou o tempo correr solto.

O Bar do John, na 28, tinha algo do Sabbath Bar: fotos de Tony Iommi, retratos do Dio, e na TV rodava um vídeo dele — não sei se era Heaven and Hell, mas parecia. Aquele tipo de lugar que cria vínculo. Como calças justas, atraímos multidões e paixões. Ali, na 28, ainda se respira um pouco de ar de liberdade, enquanto ao redor as pessoas parecem meio mortas-vivas — ou pior, apenas esperando a própria sorte.

E nós buzinamos, bebemos e rimos, como personagens diletos de Bukowski, sobreviventes de bar em bar, insistindo em existir.

3.

Não dá mais para seguir roteiros despóticos, desprovidos de guitarras grunge e carregados de restrições musicais caretas. Fujo disso como óculos escuros enfrentam o sol. Minha nave é Marte: rumo à memória embriagada do passado, onde as questões se reacendem e as pontas soltas voltam a se tocar.

Foi um belo tributo de Ricardo Tubá ao mundo underground dos zines e à cena que celebra o rock de Brasília — suas batidas, seus ruídos, a energia que deu vida a tudo isso. É isso que celebramos: a vida ligada à música.

Os 31 anos do Tupanzine foram mais que uma festa; foram um rito. Era como se o espírito de Ricardo Retz sobrevoasse nossas cabeças, nossos copos, nossa escuta atenta. Afinal, a resistência é um prato inesgotável — e enquanto a vida não finda, ela segue fecunda.

 

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