Os 60 anos de 1966 – 2026
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Quando o mundo aprendeu a acelerar
Os 60 anos de 1966 – 2026
Em 2026, 1966 completa 60 anos. Pode parecer apenas um marco cronológico, mas 1966 não foi um ano qualquer: foi um ponto de ignição. Um momento em que forças que vinham se acumulando desde o fim dos anos 1950 finalmente se encontraram, entraram em curto-circuito e passaram a moldar, de forma irreversível, o mundo contemporâneo. Para entender 1966, é preciso olhar para trás — e também para dentro.
Entre 1958 e 1965, como o documento revela com riqueza de imagens, sons e personagens, o mundo já estava em estado de ebulição. A arquitetura moderna sonhava com poemas eletrônicos (Le Corbusier e Xenakis), a música rompia fronteiras (do blues elétrico de Muddy Waters ao nascimento silencioso de um jovem George Harrison), a fotografia aprendia a revelar fragilidade e mistério (Francesca Woodman, ainda criança, já inscrita no tempo), o cinema desmontava a narrativa clássica (Tati, Hitchcock, Maya Deren). Tudo parecia anunciar que algo estava prestes a acontecer.
1966 é o ano em que esse anúncio se torna realidade.
1966: o ano em que a juventude assume o comando
Em 1966, a juventude deixa de ser promessa e vira protagonista. Os Beatles já não são apenas uma banda: são um laboratório cultural. Revolver não é só um disco, é um manifesto sobre estúdio, linguagem e consciência expandida. Bob Dylan eletrificado já não pede desculpas. O rock deixa de ser entretenimento juvenil e se torna comentário existencial, político, estético.
No cinema, a Nouvelle Vague já contaminou o mundo. No Brasil, o Cinema Novo radicaliza a pergunta: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” ainda basta? Glauber Rocha responde com imagens que ferem, provocam e acordam. Em Londres, Paris, Nova York, Berlim, Roma, os jovens não querem mais herdar o mundo dos pais — querem refazê-lo.
1966 também é um ano de tensão: Guerra Fria, Vietnã, repressões, conservadorismos. Mas é justamente nesse atrito que nasce a linguagem do presente. Como já se insinuava nos anos finais da década de 1950, a cultura passa a ser território de disputa simbólica. Um disco, uma roupa, um corte de cabelo, uma fotografia, um filme — tudo comunica posição no mundo.
De 1966 a 2026: o eco que não cessou
Sessenta anos depois, em 2026, ainda vivemos dentro da frequência aberta em 1966. A ideia de que arte e vida não são campos separados, de que a estética é política, de que o corpo, a imagem e o som são territórios de expressão e conflito — tudo isso vem dali.
A fotografia contemporânea ainda conversa com o “anti-selfie” de Francesca Woodman, que se escondia para dizer mais. A música independente ainda deve ao gesto de eletrificar o folk, distorcer o blues, romper formatos. A arquitetura continua debatendo a utopia moderna que nasceu otimista nos pavilhões de 1958 e se tornou crítica após os excessos do progresso. O cinema segue oscilando entre espetáculo e experimentação, como se Maya Deren ainda estivesse sentada no Washington Square Park, observando em silêncio.
1966 ensinou algo fundamental: o futuro não chega limpo. Ele nasce confuso, barulhento, contraditório. E exige participação.
1966 como estado de espírito
Mais do que um ano, 1966 é um estado de espírito. É o momento em que uma geração percebe que não basta consumir cultura — é preciso produzi-la, tensioná-la, vivê-la. É o instante em que o passado deixa de ser autoridade absoluta e passa a ser material de remix.
Ao completar 60 anos, 1966 não envelhece. Pelo contrário: reaparece como referência em tempos de crise, quando o mundo novamente parece endurecer, vigiar, normatizar. Revisitar 1966 hoje não é um exercício de nostalgia, mas de sobrevivência simbólica.
Como sugere a frase de Susan Sontag citada no documento:
“Tempo existe para que tudo não aconteça de uma vez só.”
1966 foi o momento em que muita coisa aconteceu de uma vez — e seguimos, até 2026, tentando entender, absorver e reinventar esse impacto.
Celebrar os 60 anos de 1966 é reconhecer que ainda caminhamos dentro dele. E talvez sempre caminhemos.

