Concerto Cabeças: O sonho acordou

O Sonho Acordou

por: Paulão de Varadero

                                                                                                                 
"Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou" . Gilberto Gil

http://www.cabecas.org/
 
No final dos anos 60, penso que despertado pelo barulho das bombas jogadas no Vietnam e pelos desentendimentos com sua banda, a mais famosa do mundo e, talvez, a mais importante da história do Rock, John Lennon, líder dos The Beatles, garotos de Liverpool que revolucionaram o mundo com guitarras elétricas e uma bateria decretou:  "the dream is over."  Logo em seguida, outro jovem brasileiro, que estivera em Londres amargando um breve exílio, por ter participado de uma passeata contra o regime militar, Gilberto Gil, referendava com outra música aquela espécie de vaticínio do líder da banda mais famosa do país de Shakespeare: "O sonho acabou".
    
Ainda no final daqueles anos, um grande evento de jovens roqueiros americanos em Woodstock, numa fazenda perto de Nova York, também deixaria marcas em jovens de todo mundo, pela influência e penetração de uma cultura rebelde, que pregava sex, drogs and rock'n roll, era contra a guerra do Vietnam, pregava a paz e o amor no planeta, que Marshall Mac Luhan identificava como uma "aldeia global".
 
Dito isso, dou um salto de quase 40 anos para falar do último Concerto Cabeças, que presenciei neste último sábado, no Parque da Cidade, e que nos remete aos Concertos Cabeças que ocorriam a três décadas atrás no mesmo Parque da Cidade, num belo anfiteatro com espaço para cerca de 8 mil pessoas, que foi engolido, infeliz e autoritariamente, por um grande galpão onde ocorre anualmente a Festa dos Estados.
    
Assisti deslumbrado a uma viagem de volta ao tempo do sonho da nossa juventude cabloca do serrado, comandada pelo meu camarada Néio Lúcio Barreto, o jovem Néio. O caro amigo andara recolhido ao silêncio, num exílio interior por muitos anos, depois de ter criado em Brasília o movimento artístico-cultural mais importante da história da cidade, no final dos anos setenta. Néio, depois de alguns infartos e pontes de safena, sempre acompanhado de sua carteirinha de Marlboro, saiu de novo da toca. Quem foi ao Parque da Cidade neste sábado assistiu a um verdadeiro deja vu daquelas tardes de música, poesia e sonho da geração que primeiro ocupou Brasília e deu corpo e alma ao sonho de JK, de Lúcio Costa, de Niemeyer, Darcy Ribeiro,  Anísio Teixeira e, provavelmente, ao de Dom Bosco, lá nos idos do Século XIX.
           
Não vou falar de todas os artistas, bandas, cantores e poetas que desfilaram naquele palco, naquele calorento sábado de setembro seco do cerrado do Planalto Central. Registro en passant os belos espetáculos de Suzana Mares, do Vagabundo Sagrado, do meu velho amigo Ivan Santos. Aldo Justo, Duboc e o pessoal do  Liga Tripa, Mel da Terra,  o Toninho Maia e Rodolfo Cardoso, amigo que revi depois de quase trinta anos. Eduardo Rangel, Rênio Quintas, colega de infância, e Célia Porto. Não cheguei a ver o Renato Matos, mas me disseram que ele arrasou e não queria mais sair do palco. Quero apenas dizer da ventania de emoção que varreu o parque, corações e mentes de todos que estiveram ali, se reencontrando 30 anos depois. Alguém me comentou ao ouvido: "isso é uma grande família!". O painel de fundo do palco nos trouxe a lembrança de ícones que já nos deixaram, mas continuam presentes na memória dos brasilienses e, alguns deles, de todo o país, como Cássia Eller, Renato Russo. O meu querido brother Paulo Tovar, um dos fundadores do movimento Cabeças, estava lá. O poeta Ariosto Teixeira,  Marcão Adrenalina,  outro agitador cultural da cidade, Cesinha, ator e dançarino, Margarete Piantino, querida parceira de Beirute e tardes poéticas na 208 Sul,  Zé Pereira, o paraibano que fêz cinema e muvuca cultural-folclórica-carnavalesca na capital, desde os idos do governador Zé Aparecido;  também o saudoso e querido Aluísio Batata, ator que tem seu nome gravado em uma das salas de espetáculos perto da Funarte estava lá no painel que homenageava essas grandes figuras do movimento cultural de Brasília. 
  
Não vou cair em armadilhas nostálgicas e saudosistas. Só vou registrar as lágrimas da filha do meu diretor no grupo teatral XPTO Ary Pára-Raios, Maíra, que praticamente vi nascer, e que hoje leva adiante "O Esquadrão da Vida", outra invenção do saudoso Ary, agitador cultural e ambientalista precussor do Partido Verde, que se orgulhava de ser palhaço. Maíra não cabia dentro de si de emoção, depois de ter apresentado seu número e me abraçar em frente ao palco que também homenageava seu pai.
             
Ao ver jovens casais namorando ali, em frente ao palco, no seco gramado de início de Primavera, e um jovem candidato a deputado distrital pedindo votos ali em meio ao colorido das pessoas e das luzes que iluminavam os artistas na bela tarde-noite no Parque da Cidade, anteví novos dias de felicidade e esperança para Brasília. Néio já lançou a idéia de fazer um museu da memória artística da cidade, com colaborações via internet. Quer resgatar a história artístico-cultural da cidade, não apenas a do Cabeças. Acho que isso vai dar samba. Vai ter muvuca de novo. Quem sabe, poderíamos fechar a Câmara Distrital e usá-la para o museu cultural do Néio. O custo-benefício do museu nos traria grande lucro em relação à Gaiola de Ouro do DF.  JK está se rebolando no céu, abençoando toda essa festa. Lúcio Costa está delirando, lá em cima.  Niemeyer tem que ser convidado para o próximo concerto. Valeu Néio Lúcio! Seja bem vindo nesse seu reencontro com o sonho e a utopia.  Lennon e Gil que me desculpem. Em Brasília, o sonho não acabou, mas acordou! 
                                   
 

* Paulão de Varadero é membro do Politiburo do Pacotão

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