Cidade, a Embalagem da Memória

Cidade, a Embalagem da Memória

 Por Almandrade

 

“A memória é um campo de ruínas psicológicas, um amontoado de recordações.”

Gaston Bachelard

 

A memória conquista sua existência nas armadilhas de uma linguagem, atravessa o tempo, envolve cidades e gerações; é uma das razões da recordação e da imaginação. Sem ela o homem estaria perdido no vazio de seu destino, sem condição para habitar nem mesmo a caverna. Pela memória o passado se incorpora à vida presente, e os seus elementos materiais são também suportes de evocações. “A memória é redundante: repete os símbolos para que a cidade comece a existir” (Ítalo Calvino). A permanência do indivíduo na cidade é marcada por um tempo de atribuir significados a trajetórias e lugares freqüentados; quem não traz guardada na memória, a infância vivida na cidade ou no jardim onde brincou? Faz-me lembrar Barthes por Barthes: aquela fotografia do escritor adolescente em um grande jardim onde se deram inesquecíveis “episódios da sexualidade infantil”. Só os sonhos desconhecidos não depositam suas imagens na memória, se perdem no fundo do inconsciente.

 Os bens artísticos são instrumentos que veiculam e fazem parte da memória de uma civilização, de uma cidade, de um grupo social; eles transportam pelo labirinto dos anos e séculos, uma dimensão estética e social, transformam o território urbano em um museu eterno. No século XIX, a burguesia marca seu domínio na cidade com os mais diversos

monumentos arquitetônicos e artísticos destacado no tecido urbano,para serem contemplados como valores eternos. “Sem a razão, a memória é incompleta e ineficaz” (Bachelard). É preciso se refletir sobre o sentido oculto dessas imagens que se apresentam como atemporais semelhantes às fotografias tiradas em viagens de turismo. Diferentes dos animais irracionais que constroem seus ninhos basicamente por instinto, buscando uma forma favorável para a acomodação de seus corpos, a construção do homem não é vazia de significados simbólicos.

 A cidade é heterogênea, produto de várias sociedades e de contraditórios momentos históricos; a cidade é uma enciclopédia de memórias que guardam conflitos, intranqüilidades, medos individuais e coletivos. Através de um acervo simbólico o homem documenta o seu desejo de vencer o destino. A arquitetura antes de se prestar a um determinado fim, o de abrigo de atividades realizadas pelo homem, é depósito de fantasias e imaginações. “Os edifícios não vivem somente por aquilo que têm de visível, de físico, mas também pelas reflexões sobre a memória de gerações e pessoas” (João Rodolfo Stroeter). Às vezes são construções que contradizem a opinião pública, a racionalidade e a necessidade de uma época, mas com o decorrer do tempo passam a incorporar o acervo simbólico de uma cidade. A memória é construída também à custa de sacrifícios e desperdícios, operações de perda, diria Bataille, semelhante ás coisas sagradas e aos cultos religiosos.

 Na era moderna, tudo aparentemente passa rápido, assim como “... o dia desfaz o trabalho da noite”(Walter Benjamin). Subordinada a renovação urbana, a cenografia do tempo passado desaparece para atender necessidades do presente; o teatro da temporalidade moderna aspira uma memória efêmera. O triunfo da velocidade e da mídia alterou o conceito de tempo e acabou fazendo do presente um conjunto de imagens que se multiplica em espetáculos descaracterizadores de seus significados reais. Mas as obras modernas estão aí protegidas pelo invólucro da memória.

 A cidade geralmente, no decorrer de sua história é um conjunto de fragmentos de cidades que vão se edificando umas sobre as outras, que se substituem e se acumulam. Dos templos gregos à capela de Ronchamp, das pirâmides egípcias aos arranha-céus transparentes, dos estádios romanos à casa da cascata; cada sociedade produz os elementos particulares de configuração espacial de sua existência. Parte de nossa memória se encontra fora de nós, em nossos objetos, nos lugares construídos e vividos.

 A cidade contemporânea é uma colagem de estilos arquitetônicos, o antigo é conservado muitas vezes com a intervenção do novo, sem contudo,  desconfigurar sua condição de suporte de uma memória. São signos de realidades complexas que o olhar arqueológico revela. E antes de tudo, é preciso preservar dentro das condições da vida presente. O uso preciso da tecnologia moderna devolve a memória um pedaço do passado enriquecido com a presença do presente. Nesse caso, o histórico e o atual são componentes simbólicos que não interessam por si só isolados, eles tecem uma rede de relações entre si, para dialogar e memorizar a forma e o símbolo de tempos distantes. Um monumento é também um acúmulo de conhecimentos e de memórias temporais. O centro da capital da colônia portuguesa, erguido por Tomé de Souza e seu mestre de obras Luiz Dias, em 1549, conservou até hoje, mesmo desprezado, sua condição de centro simbólico, lugar da origem de uma história.

 

Se o passado é preservado é porque ele tem sempre algo a dizer para situar e referendar o presente. Uma cidade não é feita somente do desenho de ruas e arquiteturas, ela é feita também de sonhos, segredos, interpretações objetivas e subjetivas que vão se armazenando no seu desenho. Bairros, praças, ruas, edificações, monumentos e até mesmo seus respectivos nomes, documentam a ficção vivida de uma cidade. A memória de uma cidade é também a memória de seus habitantes.

Não poderíamos imaginar o novo sem acreditar em nada, sem recorrer à história. A invenção dos significantes identificadores do presente depende da capacidade de raciocínio, e este pressupõe um fundo de memória. Sem a memória toda a percepção seria inútil e o passado um vazio sem acesso.

 

 

Almandrade é Artista plástico, poeta e arquiteto

 (do livro "escritos sobre arte - ed. cispoesia, salvador, 2008)

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