Jane Fonda, militante da alma feminina

Jane Fonda, militante da alma feminina
Patrícia Villalba - O Estado de S. Paulo

 

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Sai no Brasil a autobiografia da estrela que causou furor nos Estados Unidos ao revelar que participou de orgias nos anos 60
Jane Fonda conta sobre as filmagens de Barbarella, o célebre filme da atriz e também do diretor, Roger Vadin

 

30 jun. / 2006 - SÃO PAULO - Minha Vida Até Agora é a autobiografia de Jane Fonda, mas bem que poderia ser um manual de psiquiatria. A autora, agora com 69 anos, é obsessiva, filha de uma suicida, tem crise de identidade, distúrbios alimentares, problemas com a auto-imagem e baixa auto-estima, insiste na transferência da figura paterna e, enfim, não fosse ela a charmosa estrela de cinema, poxa vida, tudo isso seria um pouco demais para se ler antes de dormir.

E tem também as passagens que chamaram muito a atenção quando o livro foi lançado nos Estados Unidos no ano passado, quando Jane conta que participou de orgias nos anos 60, para agradar ao então marido, o cineasta francês Roger Vadim - estas, sim, são boa leitura para antes de dormir.

Mas muito fina, Jane não chega a dar detalhes das noites em que dividiu sua cama com uma mulher trazida da rua por Vadim - aquele que, além de E Deus Criou a Mulher e Barbarella, passa para a história como o homem que se casou com Catherine Deneuve, Brigitte Bardot e Jane Fonda. Em vez disso, diverte contando que o melhor das orgias era mesmo ficar conversando com a parceira da noite anterior durante o café da manhã.

"Para mim, isso era uma forma de trazer um pouco de humanidade ao relacionamento", escreve a atriz. "Eu lhe perguntava sobre si, tentando entender sua história e o motivo por ter concordado em compartilhar nossa cama."


Desde a infância atribulada às divertidas filmagens de Barbarella

São conclusões desse tipo, depois de grandes revelações, que fazem de Minha Vida Até agora (Record, 644 págs., R$ 69 90) um livro que soa tão verdadeiro. Jane conta a infância atribulada que teve, filha de um pai ausente - o astro Henry Fonda - e de uma socialite com graves problemas psiquiátricos - Frances Seymour, que cortou a garganta com uma navalha quando Jane tinha apenas 12 anos.

Explica como se tornou bulímica, para se enquadrar no famoso e terrível padrão magérrimo, até sair do controle. Lembra os tempos divertidos das filmagens de Barbarella, a fantasia cult de Vadim, e surpreendentemente confessa que se comparou várias vezes - e para pior - com Brigitte Bardot. Relata a viagem, em missão de paz e contra o governo Nixon, ao Vietnã, em plena guerra. E abre os bastidores dos vídeos que a transformaram no mito da ginástica nos anos 80.

Militante por definição, seja a causa que for, Jane vê a autobiografia como uma maneira de ajudar outras mulheres a refletir sobre suas vidas. Talvez por isso, ela tenha detalhado tanto as passagens em que se submeteu aos caprichos de seus maridos, fazendo de tudo para ser querida - atire a primeira pedra quem nunca torceu pelo Corinthians por estar namorando um corintiano ou não virou habitué de cineclubes bolorentos para agradar a um certo estudante de cinema charmoso da ECA.

 


Leia o capítulo Barbarella, do livro de Jane Fonda


Em sua autobiografia "Minha Vida até Agora", que chega às livrarias pela editora Record, a atriz Jane Fonda dedica um capítulo ao seu filme fetiche, Barbarella, dirigido por Roger Vadin em 1968, que na época era seu marido, mas também se casou com belas como Brigitte Bardot e Catherine Deneuve. Leia o capítulo:

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BARBARELLA

Ei! Nada é o que parece.
- Madonna

Quando terminaram as filmagens de Descalços no Parque, Vadim e eu nos mudamos para Roma, onde Barbarella seria filmado, no estúdio De Laurentiis. Alugamos uma casa na periferia da cidade - parte castelo, parte masmorra. Ao lado do nosso quarto havia uma torre que datava do segundo século antes de Cristo. Numa noite, durante um jantar, na sala de estar cavernosa, houve um estrondo. Um pedaço do gesso do teto caiu e uma coruja despencou dentro do prato de Gore Vidal. Acabamos descobrindo que era uma família de corujas que fazia a algazarra na torre.

Nenhum dos efeitos especiais a que hoje quase não damos importância existia em 1967. Vadim e seus colaboradores tinham que inventar tudo, e, às vezes, as idéias davam certo, outras, não. A seqüência inicial do filme mostra Barbarella se despindo de seu traje de “astronauta” enquanto flutua em sua cabine espacial turva e forrada de pele. Essa cena incomum rendeu um bocado, sendo o primeiro strip-tease flutuante da história do cinema (e talvez o último!). Claude Renoir, cineasta brilhante e sobrinho de Jean Renoir, diretor de cinema francês, teve a idéia de como fazer a filmagem en­quanto brincava no banheiro de seu hotel, numa noite. Veja como foi: o cenário da cabine espacial, em vez de um cômodo comum, no qual você entra e sai, era virado para cima, para que ficasse de frente para o teto do imenso palco de som. Uma placa de vidro grosso foi posicionada atravessando a entrada do cenário, e a câmera ficava pendurada nas vigas, logo acima. Eu teria que subir a escada em direção ao vidro para que, sob a pers­pectiva da câmera, a cabine espacial ficasse atrás de mim e eu parecesse estar suspensa no espaço. Então, eu começaria a tirar minha roupa lentamente, enquanto uma máquina de vento sopraria meus cabelos e moveria as peças de roupa ao redor, como se estivessem comigo, no espaço. Eu estava mor­ta de medo de o vidro quebrar; morta de medo de sair rolando; morta de medo de não ser perfeita. Mais uma vez, eu simplesmente não achei que po­dia dizer não. Mas Vadim prometeu que os créditos do filme seriam posicionados, criteriosamente, para cobrir o que tivesse de ser coberto - e foram.

O maior desafio para nós era encontrar um meio de filmar as seqüências em que Pygar, o anjo cego, voa pelo espaço carregando Barbarella nos braços. Um especialista em controle remoto bolou um plano: um imenso mastro de aço saindo, horizontalmente, de uma tela cinza semicircular. O mas­tro tinha ganchos grandes e parafusos nas pontas, aos quais seriam afixados dois espartilhos metálicos. Um espartilho havia sido feito para John Phillip Law e o outro, para mim, e eram bem apertados, pois nossos figurinos tinham que ficar sobre o metal, sem parecer volumosos.

Nós nos vestimos, primeiro os espartilhos metálicos, depois as roupas e, então, as asas de John com arames que iam até uma máquina de controle remoto foram amarradas em suas costas. Depois, um guindaste nos içou e ficamos em pé na plataforma, enquanto John era pendurado numa das pontas do mastro. Em seguida, meu espartilho metálico foi aparafusado à frente do dele, me colocando numa posição que fazia parecer que ele estava me carregando. Depois que havíamos sido vestidos, erguidos e aparafusados, chegou a hora da verdade. O guindaste, que até então estivera nos sus­ten­tando, foi afastado, nos deixando suspensos no ar, com o peso de nossos corpos esmagando nossos quadris e fundilhos contra os espartilhos de metal.

Foi a mais absoluta agonia. E, com tudo isso, nós tínhamos que nos lembrar de nossos diálogos, fingir estarmos sonhando e ser engraçados. Os sons contidos de angústia que eu ouvia de John (que ainda lidava com o peso adicional de suas asas) me diziam que sua dor era pior que a minha, que já era quase insuportável. Ninguém havia levado em conta os nossos pobres fundilhos! John estava convencido de que sua vida sexual teria um fim prematuro.

E lá estávamos nós, pendurados, enquanto em algum lugar do palco escuro de som um técnico manejava os controles remotos, fazendo o mastro girar para lá e para cá, levando as asas de John a baterem, para cima e para baixo. Enquanto estávamos pendurados, girando, era projetado um filme do céu, com nuvens em movimento (filmadas de um avião), na tela cinza atrás de nós. Nada do céu e das nuvens poderia ser visto em nossos rostos ou figurinos, nem era possível ver o que estava sendo projetado na tela até que o filme fosse revelado. John e eu não estávamos nos movendo no espaço à frente, realmente, mas o filme tinha de dar essa impressão. Essa era a inten­ção. Esse tipo de projeção frontal é comum hoje, porém, naquela época, nunca havia sido feita - nós éramos as cobaias. Muitas coisas tinham que funcionar direito, simultaneamente: o mastro de aço tinha de girar em sin­cronia com o movimento do céu, o técnico de controle remoto tinha de fa­zer as asas de Pygar moverem-se da mesma forma, e a projeção na tela cinza tinha de funcionar apropriadamente. Isso levou muitos dias até ser ajustado, enquanto eu e John ficávamos lá, pendurados, com nossas partes íntimas cada vez mais dormentes.

Nunca vou me esquecer do primeiro dia, quando finalmente pudemos ver as primeiras cenas do copião. Todos estavam eufóricos e ansiosos, já que voar sem a ajuda de arames nunca tinha sido feito antes, e muito dependia da credibilidade das cenas de vôo. Houve uma batalha aérea completa, es­sen­cial para a história. As luzes da sala de projeção foram reduzidas, o filme começou a rodar e... Oh, meu Deus... estávamos voando para trás! Foi engraçado demais para não rir: a coisa mais óbvia havia sido negligenciada, a direção do movimento das nuvens e da paisagem. Mas depois que eles nos puseram em sincronia com o visual de fundo, tudo deu certo. Realmente parecia que estávamos voando, como se ele estivesse me carregando, como se não estivéssemos sentindo dor alguma, como se as nuvens e mon­tanhas estivessem passando - só que na direção errada.

Foi uma filmagem difícil, com muitos arranhões e hematomas. Eu era atacada por pequenos bonecos mecânicos. Fiquei fechada numa caixinha plástica, com centenas de pássaros voando, bicando e fazendo cocô nos meus cabelos, braços e rosto. Pediam-me constantemente para escorregar por tubos plásticos ou ficar no meio de nuvens de fumaça. Contudo, quan­do vejo o que os atores de filmes de ação têm de fazer hoje em dia, acho que comigo foi até bem leve.

Pelos padrões de hoje, Barbarella parece devagar (para muitos críticos, naquela época, também pareceu). Mas penso na qualidade inferior do material, mais frágil e barato, dos efeitos, e no humor exagerado e fora do padrão, que lhe dão um charme incomum. Pauline Kael, crítica de cinema da New Yorker, escreveu sobre a minha atuação: “Sua inocência de boa moça americana a torna uma heroína maravilhosamente apta à comédia pornô... Ela tem uma deliciosa e ampla consciência da malvadeza do que está fazendo, e essa percepção inocente de travessura, de ser uma dama ma­culada, é o que a distingue de qualquer outra atriz nua.”

“Qualquer outra atriz nua”, sei! Eu consigo rir disso agora, mas as tensões e inseguranças que me assombraram durante a execução do filme quase acabaram comigo. Lá estava eu, uma jovem que detestava seu corpo, sofria de uma terrível bulimia, sumariamente vestida - às vezes nua -, inter­pretando uma heroína sexual. Todas as manhãs, eu tinha certeza de que Vadim acordaria e perceberia ter cometido um erro terrível - “Oh meu Deus! Ela não é Bardot!”

Sem querer que ninguém soubesse dos meus sentimentos e, ao mesmo tempo, querendo dar o meu melhor (como uma escoteira), eu mandava um Dexedrine para dentro e seguia em frente. A “inocência-de-boa-menina-americana” que Pauline Kael descrevera era, na verdade, o Cavaleiro Solitário “tentando fazer melhor”.

A bebedeira de Vadim estava bem pior. Ele era um bebedor espasmódico: passava semanas e meses sem uma gota (infelizmente, porque isso lhe permitia pensar que tinha a doença sob controle), mas, depois, as coisas pareciam se desintegrar. Com o trabalho em Barbarella em andamento, ele passou a beber no almoço e, depois disso, nós nunca sabíamos o que esperar. Ele não ficava caindo, mas embolava as palavras, e suas decisões quanto à filmagem das cenas freqüentemente pareciam ter uma visão doentia. Agora, quando assisto a certas cenas do filme, me lembro muito bem o quanto me sentia vulnerável naquela época. E cada vez mais zangada!­

Eu também ficava cada vez mais distante, como se estivesse em apuros (ou pendurada num mastro de aço), sozinha, como se ninguém mais se importasse com o que eu me importava - como aparecer para trabalhar sóbrio e no horário, ter uma boa noite de sono para estar preparado e criativo no dia seguinte. Mas ainda me faltava confiança para tomar a frente quando Vadim parecia particularmente fora de controle.

Atualmente, o custo da produção de Barbarella pareceria irrisório, mas, para a época, foi uma quantia considerável. O elenco e a equipe técnica for­mavam um grupo grande e multilíngüe, os desafios técnicos eram imensos, e muitas coisas, incluindo o roteiro, deveriam ter sido resolvidas com bastante antecedência. Precisei me fingir de doente com freqüência para que o seguro do filme cobrisse o custo de um ou dois dias de paralisação, en­quanto Vadim, Terry Southern e outros resolviam problemas de roteiro. Uma coisa é certa, eu jamais poderia pensar que o filme fosse se transformar num clássico cult, e, em alguns círculos, aquele pelo qual eu e Vadim ficaríamos mais conhecidos. Demorei algumas décadas para entender o motivo disso e finalmente compartilhar o prazer dos encantos exclusivos do filme.

Havia outro sentimento que começou a me cutucar. Era apenas uma sinalização de algo que eu ainda não conseguia identificar - a velha sensação de estar no lugar errado. Mas, dessa vez, não era a sensação de que havia uma festa da qual eu havia sido deixada de fora. Não. Agora a minha vida era a festa - uma festa longa, interminável, onde eu não queria estar, particularmente. Era uma sensação de que algo realmente importante estava acontecendo lá fora, e minha vida estava sendo dissipada por “issos e aquilos”. Havia as dificuldades dos negros, nos Estados Unidos, de que eu apenas começava a ter ciência. Havia um crescente movimento contra a Guerra do Vietnã. Mas eu não acompanhara as notícias da guerra de perto, e quando os amigos franceses de Vadim criticavam o envolvimento americano, minha reação era geralmente defensiva. Eu simplesmente não podia acreditar que os Estados Unidos pudessem estar envolvidos numa causa errada, e detestava que estrangeiros nos criticassem. Eu nem fazia idéia do nascimento do movimento feminista e me sentiria muito ameaçada por ele, se fosse exposta ao feminismo.

Não era um tipo específico de vida alternativa que eu almejava, era ape­nas um crescente mal-estar. Eu era uma maria-vai-com-as-outras, uma participante passiva, vivendo “como se”, como se eu tivesse um bom casamento, como se eu fosse feliz e plenamente presente. Eu também tentava não ser muito séria em relação a nada, porque se levasse as coisas muito a sério, isso significava ser burguês e não ter senso de humor. Havia uma certa tirania quanto ao mandato de Vadim “não leve as coisas muito a sério”, principalmente no que dizia respeito a mulheres.

Quando as filmagens de "Barbarella" terminaram, no outono de 1967, me ocorreu que talvez eu pudesse melhorar o mal-estar e preencher o vazio que parecia crescer tendo um bebê. Faça melhor.

Uma das coisas de que eu mais gostava em Vadim era sua maneira de ser pai. Talvez, pelo fato de ele próprio nunca ter crescido totalmente, isso o tornava capaz de habitar um mundo infantil. Sua falta de preocupação com pontualidade e cumprimento de deveres lhe foi útil quando se tratava de seus filhinhos. Toda noite, depois de eu caçar Nathalie para escovar os dentes e ir para a cama, Vadim retomava o fio da meada de alguma fábula fantasmagórica que havia tramado para ela. Às vezes, a história prosseguia por semanas. Geralmente havia um elemento de ficção científica, sempre extravagante, com gente pequenina passando a ter grandes poderes. Além de suas histórias, havia suas pinturas: Vadim tinha um estilo único de pintar - primitivo, colorido, sensual, de muitas formas, como os desenhos de uma criança. E tinha paciência e generosidade com seu tempo - dois elementos essenciais para ser um bom pai: Vadim podia passar horas discutindo com seus filhos, sobre as origens do universo, a vida após a morte, o significado da gravidade, os porquês da vida, tudo com encanto e atenção que me comoviam profundamente. Ele era inteiramente presente para as meninas, ao menos quando eram pequenas. Pensando bem, isso sempre foi verdade para a nossa Vanessa também.

Como tanta gente que sente seu casamento definhando, pensei que ter um filho nos aproximaria. Mas o desejo de ter um bebê não era apenas para salvar nosso casamento problemático, era uma forma de salvar a mim. Achei que a experiência do nascimento de uma criança, de alguma forma, me corrigiria, que a dor do parto natural faria com que eu nascesse para mim. Eu ainda me via muito cheia de falhas, incapaz de abrir meu coração e amar o suficiente para ser verdadeiramente feliz.

Vadim achou que ter um bebê era uma idéia esplêndida, então tive meu DIU removido e, um mês depois, durante as férias de Natal em Megève, uma estação de esqui nos Alpes franceses - uma semana após meu aniversário de trinta anos, para ser mais exata, em 28 de dezembro de 1967 -, eu concebi. Eu soube o momento em que aconteceu e disse a ele - houve uma ressonância diferente ao fazermos amor.

Eu tinha um ano inteiro pela frente, sem compromissos, exceto concluir o trabalho em nosso sítio, que incluía plantar um jardim e uma floresta. Apesar de não ter uma lembrança consciente de meu pai transplantando grandes pinheiros e árvores frutíferas que trouxera para a nossa propriedade de Tigertail, no anos 1940, me contaram que ele o fez. Eu aposto que foi nessa época que fui mordida pelo bicho transplantador de árvores, uma marca registrada minha. Não sou fanática por jóias ou roupas, mas grandes árvores - aí sim, isso é algo em que gasto meu dinheiro. Hoje em dia justifico isso explicando que estou velha demais para pequenas mudas.

Resolvi que queria árvores bem grandes na frente de nosso terreno, aceráceas, álamos, bétulas etc. Então, dirigi por toda a França, até os maiores viveiros de mudas, com as árvores mais altas que eu podia comprar, que tinham de ser transportadas à noite, e as linhas telefônicas tinham de ser removidas para que pudessem passar. Uma amiga havia nos dado seu carro, um Panhard Levasseur 1937, uma verdadeira peça de colecionador - mas, como ele já não andava, mandei um soldador cortá-lo ao meio, depois sol­dá-lo ao redor de uma bananeira, para que a árvore crescesse bem no meio dele - uma escultura de quintal.

Foi num desses viveiros, procurando árvores, que senti minha primeira onda de náusea. Ela me deteve no caminho. Eu sabia exatamente o que signi­ficava. Não precisei de um teste de gravidez para me dizer. Comecei a suar frio, voltei para o carro e me sentei - e fui tomada por uma sensação de terror! Senti que tinha de juntar todas as minhas forças contra a sen­sação de pavor que parecia ter me invadido. Por quê? Eu quero isso! Então, as lágrimas vieram, depois, os soluços. O que está havendo? Não é assim que eu deveria me sentir!

E eu soube: a gravidez era uma prova incontestável de que eu era real­mente uma mulher - o que significava “vítima”, o que significava que eu seria destruída, como minha mãe. Foi um daqueles momentos estranhos, em que eu sentia o que sentia ao mesmo tempo em que estava fora de mim mesma, analisando o sentimento - e ficando assustada com seu significado.­

Já com um mês, ou mais, de gravidez, comecei a sangrar e fui aconselhada a não sair da cama por pelo menos trinta dias, se quisesse evitar um aborto; me deram DES (dietilstilbestrol) para prevenir o aborto, uma dro­ga que mais tarde foi associada ao câncer uterino em filhas de mulheres que a haviam tomado. Depois eu tive caxumba.

Eu via esses problemas como um sinal poderoso de que não estava des­tinada a ser mãe, e eles me deram justificativas suficientes para que eu voltasse atrás quanto a tudo. No entanto, quando meu ginecologista francês recomendou que eu fizesse um aborto, pelos riscos em que a caxumba colo­cava o feto, nem por um instante considerei aquilo como uma opção (apesar de ser grata por ter a escolha). Não era que eu e Vadim não nos preocupássemos. Mas meu apego à maternidade era tão tênue que eu sentia que, se abortasse o feto, eu jamais ia querer ter outro bebê. Foi uma época triste em minha vida, vou lhe dizer: eu acabara de fazer trinta anos, estava grávida, acamada, correndo risco de abortar; a caxumba havia inchado meu rosto, deixando-o do tamanho de uma bola de boliche; e, para completar minha penúria, do outro lado do oceano, Faye Dunaway acabara de causar sensação em Bonnie e Clyde. Não que eu fosse páreo, ou algo assim.

Eu havia apenas entrado no meu segundo ato e, pelo que eu podia ver, a minha vida chegara ao auge e começava a declinar.

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