Ela evidentemente chora ouvindo Sérgio Sampaio

 
A volta dos livros malditos da subliteratura do Centro-Oeste
 
 
 
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Ela evidentemente chora ouvindo Sérgio Sampaio
 

Na madrugada fria de julho, o vento assovia na vidraça uma névoa de rancor. Odete insone e distante, procura ouvir os sons que vem da rua para disfarçar a ansiedade. Um resto de conversa no apartamento ao lado, o motor rompante de um carro, os miados dos gatos em algazarra, possivelmente o bocejo dos derradeiros notívagos. Preâmbulo entediante como ato de roer as unhas até o sabugo. A cumplicidade das horas somada a corrosiva solidão, sopra alguma coisa em seu ouvido. "A vida passa, eu fico louco / Fico rouco, fico pouco me importando / com o que vai acontecer...", dizia a canção que tinha o seu nome. Lembrar dos amigos da universidade em um momento frágil como aquele não tinha nada a ver.

Quase que mecanicamente procura por roupas de inverno: luvas marrons, cachecol cinza, uma boina amarelo-claro de feltro, a jaqueta cáqui de couro, as botas de camurça, a calça verde de veludo. A chave do carro no criado-mudo. A porta do elevador e pernas pra que te quero madrugada. "Eu daria tudo / para não ver você chumbada / para não ver você baleada / para não ver você arriada / a mulher abandonada / mas não posso fazer nada / eu sou apenas um compositor popular". A música latejando corpo inteiro como se a levasse ao insofismável e indefectível destino. Precisava de algo inusitado para amedrontar a mesmice de si mesma.

O Ivo desaparceu do pedaço já tem um certo tempo. Dione, a antílope, foi tirar uma de hippie em Jeriquaquara. Glauco piorou da cirrose. Telma dilatava as pupilas sobre os livros para fazer o mestrado em antropologia. Daniel e Jô invernados no dilema da coqueine. Percival com o perfeccionismo de tocar o John Coltrane no sax, não visitava mais ninguém. Até a simplória da Rita estava se iniciando nos segredos do santo daime. O pessoal nunca mais se encontrava para tomar cerveja e jogar um pouco de conversa fora. A cidade tem dessa coisa da efígie, da deglutição e do entranhamento. As pessoas mais diletas sumiram dos agitos da city. Na maioria das vezes temos que caminhar com as nossas próprias pernas para não ficar na dependência da solidariedade alheia. Nem assim. "Você pode ir chorar no colo da mamãe / dizer pros seus irãos o quanto eu fui ruim, / chamar toda a polícia para me prender,  /  chegar com advogado e ordem do juiz, / você pode dizer o que quiser de mim... / nem assim". Agora o que não dava para suportar era a mentira do Luigi. O cafajeste vivia aprontando e no outro dia aparecia com a cara mais lavada como se tudo estivesse bem. Ele que fosse à merda!

As ruas vazias da madrugada levavam ao único bar que estava aberto naquela hora, aliás, um lugar surpreendente, onde estranha fauna de corações noctâmbulos bebia ostensivamente segredos e acasos: Travessia Bar. Estacionou o carro e ficou observando o panorama, pensando o quanto é agradável ver pessoas. Sentou-se em uma mesa esquecida a sua esquerda, tentando entender o burburinho em sua volta. Acendeu um cigarro e fez um acno ao garçom, um sujeito simpático com sorriso entre dentes:

—  Um martine bianco com cereja.

—  Agorinha mesmo.

O garçom traz o martine conservando o sorrison anterior. Um blues amargo toma de assalto o ambiente quando inesperadamente uma figura de óculos escuros e um casaco longo, tipo hussardo, começa uma coreografia agônica, seguida de uma espécie de emissão radiofônica artaudiana:

— Tive uma visão hoje à tarde. Vi aqueles que me seguirão e queles que ainda não tem um corpo, porque os porcos comos aqueles do restaurante de ontem à noite comem demais. Existe quem coma demais e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar em vocês.

A figura performática deixa todo mundo estarrecido, em m silêncio inquietador. Um rapaz barbudo da mesa vizinha, começa a bater palmas, ensaiando uma risada de hiena histriônica, a seu lado, uma garota de vestido escarlate, sorri meio incomodada. Apesar dos desenlances em nossa volta, as pessoas cultivam uma aura maravilhosa, pensava Odete. O Luigi deveria ligar no outro dia inventando mais uma de suas mentiras mas desta vez não haveria perdão. O baitola chegou ao extremo de virar gigolô de uma viúva, mas dizia para quem quisesse ouvir que tinha conseguido um trampo de responsa. Paspalho, mentira tem pernas curtas. "Antigamente quando eu não tinha nada / saia sempre na aptura do que fazer, / e procurava, como todo mundo, / encontrar você". Mais palamas para dar Ibope à  figura que falou Artaud. Um poeta começa um petardo de Allen Ginsberg para finalizar com o clima sombrio de Augusto dos Anjos. Que coisa sublime.

— Quem gosta de poesia, não pode ficar sozinha. Fica com a gente, diz o barbudo da mesa vizinha, sentado ao lado da garota de vestido escarlate.

— Tá legal. Vou avisar o garçom.

— Meu nome é Mansur, o dela é Letícia e você?

— Odete.

— aparece sempre aqui?

— Já tinha um tempão que não vinha.

— O poeta que falou é nosso amigo. Iremos depois para sua casa fazer um rango esperto, diz Letícia.

— Se você quiser pode vir com a gente, antecipa Mansur.

— Precisa levar agluma coisa?

—  Não, lá tem bastante vinho.

— Então vamos esperar o Fred para começarmos uma noitada excelente.

Engraçado como a gente conhece as pessoas. Mansur, Fred e Letícia passariam a fazer parte da agenda. Caminhando até onde o carro está estacionado, uma chuva fina começa a cair, misturando-se com as lágrimas de Odete. "Tola você que não soube ser a dimensão de um poeta do riso e da dor, da tristeza e alegria do amor". Por onde andaria o calhorda do Luigi? Besteira ficar lembrando dele com as músicas do Sérgio Sampaio latejando na cabeça. Quando a barra pesa, a corda arrebenta para o lado do mais fraco. O choro simples misturado com a chuva evidentemente denuncia que amor de pica quando bate fica. Filosofar sobre a solidão não tem nada a ver com a fragilidade das coisas humanas, quem sabe os amigos mais diletos apareçam na próxima semana trazendo novidades. Nada de efígies, couraças e entranhamentos. Colocar o bloco na rua para não ficar de touca. Não é vivendo que se aprende Odete, batuca uma voz no sbuconsciente. Pobre blues da purgação interior. Por esta você paga, Luigi. Pode esperar pelo que vai lhe acontecer. Tem que acontecer, senão as coisas permanecem como são. Seu crápula!

José Edson dos Santos

Nota do editor: Grande! Zé Edson! Seu último livro, Ampulheta de Aedo ainda não chegou às nossas mãos. O que valia naqueles tempos deste conto era beber para embelezar o mundo e encontrar Letícia!

 

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