SAMUEL RAWET: TRIO & A ILHA (1976)

Pedro Paulo no centro, o braço esquerdo no ombro de Pedro, o direito no de Paulo, unidos numa gargalhada, os corpos em permanente fusão dinâmica, as seis pernas oscilantes de um demônio tricéfalo, as vozes dissonantes.


Trio
(Samuel Rawet*)

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   Sofro pelo Mundo!

   Pedro esperou a reação dos outros, assustado. No íntimo uma alegria nunca pressentida. Os olhos se dilataram, as luzes esparsas da estação se imobliizaram dinate da ternura doída de sua voz, e ao sentir uma leveza de plenitude na cabeça, abraçou os joelhos e apoiou os pés sobre o banco. Algumas moedas recebidas caíram dos bolsos, e a corda que lhe servia de cinto, desfeito o laço, não conseguiu impedir que o farrapo de calça descesse. Não usava cuecas. A camisa ensebada sem cor, protegeu as nádegas. Apoiou a cabeça sobre os dedos enlaçados e entregou-se ao pranto. Chorou um choro manso, silenciosos, contínuo, morno, um choro de alívio, terno, chorou de alegria por conseguir chorar daquele jeito, e naquele lugar, Chorou porque esperava uma gargalhada e uma imprecação e ouviu apenas o fresco silêncio da madrugada. Cessado o pranto, não limpou os olhos, e pôs-se a mirar os trilhos, os bancos de espera, o telheiro, a penumbra das casas próximas e viu tudo através do espelho de uma lágrima.

   — Quero criar o mundo!

   Paulo, sentado no meio, equilibrou a garrafa de cachaça no chão e abriu os braços como se crescesse de repente. O corpo maior do que o corpo. A pele, uma jaula para o tamanho que ia tomando. Nem o vômito pertubou a amplidão das mãos estendidas. Escorreu pelo peito, ramificou-se pelas coxas, e foi se empoçar entre as pernas. E a roupa era a roupa nova do dinheiro de algumas talhas vendidas na véspera. Uma de iemanjá, uma de nossa senhora da conceição, uma de pescador de jangada, uma de cangaceiro. Nem acreditou. Na calçada defronte à feira o homem se debruçou sobre seus trabalhos. De longe o grito de carne, peixe, frutas, sabão, e cheiro de laranja pisada. O homem olhou, olhou, separou uma, separou duas, separou três, separou quatro. Quanto é? Pagou. Ia comprar umas toras enormes e começar um trabalho do tamanho das portas da igreja do largo de são francisco. Encolheu os braços, eufórico com o azedo da boca e o silêncio dos outros. Ninguém dissera merda. Ia talhar o que vira há pouco, a rua sete escura, a praça quinze no fundo, lâmpadas, estrelas, e eles três no meio. Depois comeria todas as mulheres antes de dormir com a sua em casa.

— Penso o mundo!

Pedro Paulo um pouco afastado do soutros, no extremo do banco, esperou bem uns cinco minutos antes de falar. Afastara-se mais pelo porre de Paulo. Prezava sua roupa branca e bem engomada. Era a limpeza de seu tabuleiro, de suas cocadas brancas e pretas, era a limpeza de seu coração nas encruzilhadas da cidade em que meditava sereno. De preferência à noite. Ficava de pé, equilibrado, os braços cruzados, o turbante branco centrado na cabeça, a respiração ritmada. E o mundo lhe vinha. Os compradores não o pertubavam. Os homens, as mulhers, as crianças, os nascimentos, as mortes, os prédios, os terrenos, os gritos dos vendedores de jornais, os estudantes, os viados, as putas, os tiras, os caminhos que chegam e partem, o mar, os peixes, os céus, as estrelas, os pássaros, o mato, as palmeiras, os morros, os crimes, as esmolas, a ternura, o ódio. Mas nunca ousou dizer o que disse, era pretensão demais. Mas Pedro falou. Paulo falou. E ele? Falou também. E o mundo não desabou.

Subitamente os três se ergueram e o abraço foi tão violento que desistiram de esperar o trem. Pedro Paulo no centro, o braço esquerdo no ombro de Pedro, o direito no de Paulo, unidos numa gargalhada, os corpos em permanente fusão dinâmica, as seis pernas oscilantes de um demônio tricéfalo, as vozes dissonantes, as seis pernas oscilantes, se fundiram no refrão do último samba do carnaval que passou. Foram presos à saída da estação, postos nuam viatura da polícia, e aguardaram a manhã no xadrez do distrito mais próximo. Houve um incidente ao saírem. Pediram que assinassem qualquer coisa antes. Foi impossível.

Eram analfabetos.

 

*Ficção – Histórias para o prazer da Leitura. mar. / 1976 Nº.3

 

 

A linha
(Samuel Rawet*)

A calçada secara. Ajoelhado, ninguém por perto, tirou o giz do bolso e começou a traçar a linha. Quando o braço se recusou a ir mais longe, deu um salto de cócoras e terminou o risco junto à pedra do embasamento. Uma linha do meio-fio à parede. O branco ressaltava nítido no cinza-negro de cimento e noite. Parara de chover antes das nove. Às duas da manhã o chão conserva um vestígio de umidade a reforçar com avidez a matéria branca. Céu sem estrelas. Focos de luz espaçados num fundo de gelo negro e massa vermelho-esverdeada de fachadas. Ele se ergue. Há no gesto e no ar que o acompanha um vestígio de idéia de inverno e de noite em uma praça diante da sinagoga e do cemitério, e enquanto limpa os dedos e se fixa na fachada de vidro do banco o que vê mesmo é a praça depois da neve. Há superposição sem nada adulterar de duas visões nítidas e de dois corpos que se deslocam simultaneamente. Esfrega as solas na aresta de granito e enfia as mãos nos bolsos. O café ainda presente na saliva se junta ao gosto de sopa de beterraba, gosto após transição de sabor evocado a sabor úmido cobrindo a língua.

Recua de costas, ergue a gola do blusão, constata a falta do botão por cima do cinto, e inicia os passos em direção ao risco. Um acúmulo de lembranças envolveu íris e pupila com um halo que antecede a lágrima. O halo se desfez com a constatação de que não só o acúmulo de lembranças produzira o fato, mas o acúmulo de reações de seu corpo a lhe ditarem que em tais e tais circunstâncias deveria chorar. Não chorou. E principiou a caminhada em direção ao risco de giz. Havia no corpo antecipações de ímpetos e transfigurações. Um medo congelado ainda não verbalizado nem mesmo presente, a não ser em forma de gênese rarefeita, um vislumbre feito de olhar, memória, passo, noite, som visualizado, incrustração de consoantes em amálgama de vogais. Quantas noites na noite sob a sola que se achata e arqueia. Quantas trilhas na trilha de agora, trilha imaginária e real, sempre trilha. A mesma trilha. Ao tentar erguer a cabeça teve que baixá-la. E enquanto o globo do poste não o absorvia um risco de giz se efetuou na retina. Não mais aquele que de cócoras riscara; um outro, recriado, de neurônios e enzimas, decepções e ódios, charco e súplica. Insuportável a luz do poste. Deslocamento para claro-escuro de janela, varanda, cortina, grade. Sola esquerda. Sola direita. Sucessão de quase arcos de um couro moldável. Angulosidades de joelho em recuos-avanços e avanços-recuos. Atrito de cueca deslocada na virilha. Cantilena no chiado do cimento e no ar da narina ávida. Melodia despojada de som real. Virtual entre hemisfério esquerdo e dirreito, descendo pelo orifício nasal até a língua encharcada. Em função de quem se deixa de fazer, ou se faz, alguma coisa? Este passo, por exemplo. Ou o risco de giz na retina há instantes que é já memória de risco de giz na retina, e de novo risco de giz na retina, à posição ideal dos cílios e pálpebras. A aventura de uma calçada com fraturas de argamassa e luz, um risco de giz na frente e vários atrás, invisíveis num espaço que é memória de espaço e se ignora. Que acúmulo de denoss castigos impostos por ninguém em nenhures, no corpo de aqui? O queixo se alteia, a fronte oscila, o peito acomoda torsões. O corpo de aqui? Que aqui? O de antes do corpo ou depois do corpo? O de aqui caminha. O de antes caminhou? E depois, caminhou também? Há o risco de giz. Que risco de giz? A sombra de uma rua na sombra da rua. A infinita paciência da impaciência. O lento recuo que é avanço lento de um corpo de agora para um corpo de antes, de um corpo depois para um corpo de agora. A plenitude de uma aspiração, ou a minitude? A irrupção de uma folha com sua promessa de verde na penumbra, de um vínculo de árvore desfeito e lançado à revelia, ou havia no vínculo o lançado, a presença de uma ausência? O risco de giz por trás dos olhos, exatamente por detrás. E os pés se aproximam de uma promessa de um ir além de, entre riscos desencontrados, não de giz, fraturas paralelas normais ao meio-fio. De uma janela iluminada o lusco-fusco de uma televisão defeituosa. Um casal colado a uma reentrância do portão. A nostalgia de um afeto futuro, a esperança de um passado que se modifique. Os olhos iluminam volutas, cachos de uva, festões caiados. O arco se completa. Mas não lhe é possível ultrapassar o risco de giz. Apenas não sabe qual deles.

* Homenagem ao contista Samuel Rawet que calculou Brasília nas linhas da palma da sua mão.

Samuel Rawet nasceu em Klimotow, pequena cidade da Polônia, em 1929, emigrando para o Brasil em 1936. Aqui se naturalizou, criando-se uma nova pátria. Formou-se em engenharia; dedica-se à literatura. Sua arte conserva traços de sua origem, num entrechoque de culturas e raças. Um clima denso nos transporta para um mundo amargo e fascinante. Mantendo uma admirável coesão interior e estilística desde seus primerios, trabalhos, Samuel Rawet nos introduz num ambiente onde a constante é a solidão e um violento sentimento de angústia. Rawet começou pelo teatro, com a peça Amantes. Mas é no conto onde melhor se realiza.

outros livros

Contos do Imigrante, seu primeiro livro, 1956, é da Livraria José Olympio Editora.
Diálogo, 1963, GRD;
Abama, 1964, GRD;
Os sete sonhos, 1967;
O terreno de uma polegada quadrada,
Orfeu, 1969;
Viagem de Ahasverus, Olivé, 1970.
Alienação e realidade
Consciência e valor
Homossexualismo - Sexualidade e valor

Samuel Rawet O solitário caminhante do Planalto

 

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