Jorge Luís Borges: El tigre se muere

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O FIM

Poema de Jorge Luís Borges

O filho velho, o homem sem história,
O órfão que o morto pode ser, por certo,
Esgota em vão o casarão deserto.
(Já foi dos dois e é hoje da memória.
E dos dois). Sob tão dura sorte
Busca perdido o homem doloroso
A voz que foi sua voz. O milagroso
Não seria mais raro do que a morte.
Acossaram-no interminavelmente
As lembranças sagradas e triviais
Que são nosso destino, essas mortais
Memórias vastas como um continente.
Deus ou Talvez ou Ninguém, o que te peço
É sua imagem, não o olvido, se mereço

 

borges

Desejo de Borges é a tendido. Poeta será sepultado

Na morada dos reis

18 jun. / 1986 – Genebra – O escritor argentino Jorge Luís Borges será enterrado, hoje, no cemitério de Plainpalais, também chamado de Panteão de Genebra, porque ali estão sepultadas grande número de personalidades. A viúva do poeta, Maria Kodama, acompanhada por vários amigos, escolheu, na segunda-feira o local onde será construído o túmulo. Vestia um conjunto de linha clássica, tinha a fisionomia tensa, percorreu vários locais possíveis nas diversas alamedas arborizadas do cemitério.

O local finalmente escolhido permitirá abrir uma cova debaixo de uma árvore, numa área localizada muito próximo de onde está enterrado Jean Calvino, o mais ilustre dos sepultados no Plainpalais. Borges formulou o desejo de que sua sepultura fosse erguida nesse cemitério, há vários anos e renovara esse pedido em 1983, ao visitar o túmulo de um de seus amigos, o compositor argentino, Alberto Ginastera.

Conhecido também como a “Morada dos Reis”, nome que recebeu devido à rua que circula quase integralmente, Plainpalais é um oásis de calma e vegetação, em pleno centro de Genebra. No seu interior, em um labirinto de alamedas que se desenvolvem, seguindo os caprichos do relevo do terreno e das árvores, cerca de 150 túmulos disputam o espaço, com bem cuidados e amplos jardins.


Morrer no Japão

Madri – Jorge Luís Borges “estava muito tranqüilo, muito sereno. Começara a aprender o japonês, preparava um roteiro sobre Veneza e trabalhava, além disso, em diversos outros temas”, disse Maria Kodama, a viúva do escritor argentino, em declarações publicadas ontem pelo jornal madrilenho “ABC”. Um dos temas, no qual se concentrava Borges, que morreu no último sábado em Genebra, iria proporcionar-lhe um prêmio do governo da Noruega”, assegurou.
Ele “estava entusiasmado com a ideia porque desejava ver o célebre barco ‘Assa’ dos Vinkings”, acrescentou Kodama, recordando que projetava com o escritor uma viagem ao Japão, para onde já tinha viajado duas vezes. Borges até brincou coma possibilidade de morrer nesse país e iclusive preparou um epitáfio: “Borges, escritor, nascido em Buenos Aires, 1899, falecido em Tóquio, e a data”, explicou.

Pessoalmente, “Borges não se considerava nada apocalíptico: compreendia perfeitamente o estado de desespero, a melancolia que cultivava intimamente esta era uma forma de humorismo. Era, porém, um otimista”, disse Kodama, acrescentando que ele nunca sentiu frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel, “amava a concisão acima de tudo, por isso gostava da língua inglesa, com a qual se pode dizer muitas coisas com bem poucas palavras.

Ele “recordava-se perfeitamente de páginas inteiras de suas primeiras obras: era algo puramente fotográfico. Tanto assim que, ao caminhar pelas ruas de Genebra, era capaz de descrever todos as características que lembrava de sua adolescência, quando ainda enxergava”, disse Kodama. Ela assegurou ainda que  Borges “não sentia paixão por nenhum país – embora tivesse uma enorme admiração pela Espanha – sentindo somente fervor pela literatura”.

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Maria Kodama, que está preparando um livro de narrações de estilo muito borgiano, afirmou, por fim que “necessito agora de concentração, encher com alguma coisa os meus dias, dedicar-me ao intenso estudo, por exemplo, do árabe”.

El tigre se muere

Celso Araújo
Da Editoria de Cultura - Correio Braziliense

18 jun. / 1986 – Agora não és mais Jorge Luís Borges, apenas o morto que mergulha na profunda noite universal, e nada, em penumbras de um ausente oceano. As tempestades, as sinfonias, os pássaros e todos os idiomas e crepúsculos, os gritos de guerra os escândalos do gozo confundem-se numa operação de números e datas.

Nem mesmo presentes a calma naturalidade dos vivos, dos nomes e dos espaços habitados, de Genebra a Cartago, nem mesmo aquele bálsamo (ou era apenas uma sílaba?) para desafiar os espelhos: misteriosamente feliz, poderias confessar que o último instante nada acrescentou às sombras que colecionaste. Reparas como a mais querida melancolia que todos os sonhos não foram mais que um grande ensaio para este vagar, este perder-se no infinito em cinzas, este início de enigmas. Não podes mais fugir, nem mesmo o teu rosto de alguém e também ninguém mais te ouvirá. Em vão, caminharás pelo insone deserto de uma biblioteca e os livros estarão mortos, cúmplices de tua desesperança, fatigados de tuas mãos e de teus olhos.

Entre aquele que foi Borges e este que mira o seu derradeiro ocaso, tentas lançar um grito e alcançar o livro do quase futuro. Mas entre ti e as páginas que te seduzem a decifrá-las, nada além de letras desfocadas, que te roubam o interesse e fixam as areias do tempo. Pensas em um tigre. Por espanto, notas que este tigre te acompanha, e tens a impressão de nunca ter visto ou sonhado um tigre de fogo. Aqui, não precisas de atenção, pois ele avança em mesma sintonia que teus passos, e um leve incêndio assalta-lhe o dorso, os membros de ouro, a respiração de uma solidão divina. Por tua mente, apenas um frenesi que se extingue, e a sensação de que estás a pisar as margens de um rio, enquanto o corpo de Borges, aquele que existiu em ti, é levado por um barco abandonado ao seu próprio curso na história de raças ancestrais.

Tentas engatilhar os parágrafos, as letras agonizam, desvanecem. Vozes familiares não são mais que sonidos de pedra, de águas flutuando, de formas cambiantes. Agarras o teu cérebro, e apenas uma verdade te ilumina de um golpe: em su mundo no hay hombres, ni pasado, ni porvenir, solo um instante cierto. Podes, e arriscas, ainda, jogar os remorsos sobre o dorso em chamas deste tigre, mas as suas patas desandam velozes. A sua marcha, a sua irrefreável elegância, é como que o próprio compasso do teu compromisso com o fim. Nenhuma recordação mais te pertence, e mesmo se olhasses para trás, não veria mais que imagens insensatas, entregues à sorte do desgosto, ao abandono. Alheio ao passado, ao amor, aos destinos compartilhados, à memória e aos milagres que ficaram em Buenos Aires, sentes a vertigem de um outro mundo que te circunda, te magnetiza em suas aparências.

A única certeza que te oferecem os deuses é esta sombra de fogo, envolvendo a ti e ao tigre numa dúvida magnífica. Nem mesmo a consulta se podes transportar tua bagagem de solidões, de espadas brilhantes contra o sol, de escamas de prata, de temperaturas sanguíneas. Todos os poemas que se perderam têm agora o esplendor que heroicamente furtaste das moedas, das mãos, das montanhas. Enfim, as luzes secretas de todos os labirintos compõem para ti uma música de assombros. Sabes que não estás morto e não podes voltar. Sabes que estarei calado para sempre e esquecido de tuas aparições nos cafés das juventudes.

Pertences à história de uma eternidade que em nós é plágio e herança insuportável. A margem do rio, sabendo que não estamos mortos, seguimos os passos que se apagam a cada manhã. Somos tigres que se dobram à margem das sombras e tanto murmúrio nos faz vomitar. Estamos imersos no deserto dos teus mares, guelras abertas, circulação na iminência de desatar-se em derrames. Um terceiro tigre nos persegue, não o que divisamos à margem dos sonhos, mas o que buscamos no rastro dos mitos. La aventura indefinida: ver o que não está em tuas mortes, mas no silêncio dos tigres, nos espelhos abomináveis que conosco seguem compartilhando as coisas insondáveis.

Borges e Ele

Cristovam Buarque - Especial para o Correio Braziliense

Mais do que qualquer outro, Borges conseguiu realizar o sonho de muitos escritores: derrubar a tênue fronteira entre o real e a ficção, misturando em um único mundo literário a mais assombrosa realidade com a mais absurda fantasia. Como se não bastasse, conseguiu derrubar a própria separação entre o Borges criador de fantasias, e o Borges personagem da realidade. A notícia de sua morte, pelo noticiário de televisão, entre um anúncio de desodorante e um outro de banco estatal, é um plágio de sua literatura, como na primeira frase do conto El Aleph, publicado em 1949: “Na candente manhã de fevereiro, em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não se rebaixou um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, notei que os cartazes da Praça da Constituição tinham renovado não sei qual propaganda de cigarros: o fato não me doeu, pois compreendi que o incessante vasto universo já se distanciava dela e que esta mudança era o primeiro de uma série infinita”.

A notícia parecia saída de uma das fantasias de Borges, a fantasia de sua própria morte, copiando a maneira como ele diz ter tomado conhecimento da morte de Beatriz Viterbo e provocando também em todos nós o sentimento do incessante vasto universo que se distanciará dele a partir de agora.

Com a sua obra e a sua morte, a grande contribuição de Borges é ter nos feito perceber que ele, como cada um de nós, seus leitores, somos todos personagens de contos. E que nestes contos, cada um de nós, em cada instante, tem um número infinito de alternativas a percorrer, cada uma com um enorme poder de transformar nossas vidas e todo o mundo futuro, a partir do mais corriqueiro gesto cotidiano. Como ele próprio o disse descrevendo sua viagem ao deserto: “A cerca de trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide, me inclinei, tomei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco  mais longe e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara”.

Borges e sua obra têm sido analisados sob o prisma do eruditismo, do reacionarismo, do cosmopolitismo, do esnobismo, mas certamente sua primeira grande marca é de ter sido o maior entre todos aqueles que fizeram da fantasia o desafio da criatividade. Aqueles que, como os mestres da ficção-científica e da literatura fantástica, derrubaram a fronteira entre o real e o imaginário. Sua segunda grande marca foi o uso desta fantasia para demonstrar as possibilidades da aventura do ser humano viver cada uma das múltiplas alternativas que o mundo real e imaginário oferece, mudando a cada instante nossos destinos.

Daí talvez o medo que no ano passado ele confessou ao jornalista Roberto D’Avila: o medo de não morrer. Provavelmente temia que ao não morrer, apesar das múltiplas escolhas que se colocariam para ele e sua vida, uma alternativa deixaria de existir: a de morrer. E Borges via toda a potencialidade de um fato tão trivial, como a morte de um homem.

A partir de um minuto do último sábado, o corriqueiro fato da morte de um homem em Genebra muda todo o futuro do mundo. De um lado, desfaz-se o medo deste homem, de outro lado deixa de poder existir uma imensa parte do mundo que este homem não teve o tempo de descobrir. Para Borges,na ausência de toda certeza que a morte permitiu, desaparece a incerteza de carregar o peso de viver em um mundo menor onde a imaginação da humanidade ficará para sempre privada de uma das suas maiores fontes. Com sua morte o mundo jamais conhecerá uma imensa parte do mundo que Borges não teve tempo de criar, muitas outras, porém, serão escritas por outros escritores a partir da árvore de alternativas que cada uma de suas estórias provoca na mente e na imaginação dos que as leem.

O mundo real que um dia inventou um escritor chamado Borges, se ampliará através de outros com estórias imaginadas a partir deste escritor que foi além do real, e descortinou outros mundos nas fantasias de sua imaginação que se confundiu com sua vida, unindo os dois Borges que ele descreve no seu pequeno “poema” “Borges y yo”: um que é ele, outro que é o escritor; um que é o personagem, outro que é ele.

Um dos Borges conseguiu realizar o sonho de descansar, o outro não descansará porque é parte de nosso sonho.

Cristovam Buarque é professor do Departamento de Economia e reitor da UnB

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