Aldous Huxley: no Brasil!

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Admirável Huxley
(Mário Pacheco*)


Trecho "Moksha", de Aldous Huxley

Todos os narcóticos, estimulantes, relaxantes e alucinógenos naturais conhecidos do botânico e do farmacólogo modernos foram descobertos pelo homem primitivo e estão em uso desde os tempos imemoriais. Uma das primeiras coisas que o Homo sapiens fez com sua racionalidade e sua autoconsciência recém desenvolvidas foi utilizá-las para encontrar meios de atalhar o raciocínio analítico e de transcender ou, em casos extremos, obliterar temporariamente a isoladora consciência do eu experimentando todas as coisas que cresciam no campo ou na floresta, eles se apegaram àquelas que, nesse contexto, pareciam boas - isto é, tudo que mudasse a qualidade da consciência e a tornasse diferente, não importava como, dos sentimentos, das percepções e dos pensamentos cotidianos entre os hindus, a respiração ritmada e a concentração mental substituíram até certo ponto as drogas alteradoras da mente usadas em outros lugares. Mesmo na terra da ioga, mesmo entre os religiosos e mesmo visando a objetivos religiosos especiais, a cannabis indica tem sido usada livremente para suplementar os esforços dos exercícios espirituais. O hábito de tirar férias do mundo mais ou menos purgatorial, que nós criamos para nós mesmos, é universal. Moralistas podem denunciá-lo, mas, apesar dos discursos desaprovadores e da legislação repressiva, o hábito persiste, e as drogas alteradoras da mente estão disponíveis em toda a parte. A fórmula marxista ‘A religião é o ópio do povo’ é reversível, e pode-se dizer, ainda mais verdadeiramente, que o O ópio é a religião do povo. .

Duas horas antes de morrer, o escritor inglês Aldous Huxley está agonizante. Estendido sobre uma cama, sem poder falar, pega um pedaço de papel e escreve: “0,1 miligrama de LSD”. Entrega à Laura Archera, a segunda esposa, com quem se casara em 1956, após enviuvar de Maria Nys, que morrera de câncer. Ela injeta e atende ao pedido e satisfaz o último desejo. Huxley recebe a dose e morre pouco depois. Foi no dia 22 de novembro de 1963. “A morte foi uma continuação de seu próprio trabalho”, conta sua Laura, no livro sobre as memórias do marido. Nos 69 anos de vida que passou na Terra, migrou sua criação entre o mundo da poesia, prosa, e o mundo místico. Ficou consagrado com os ensaios e a ficção.

Talvez Huxley estivesse destinado a ser gênio antes de nascer, a julgar pela estirpe de sábios que o antecedeu. O avô, Thomas Henry, foi renomado biólogo que defendeu (corajosamente na época) as teorias evolucionistas de Darwin; seu tio-avô, Matthew Arnold, e a tia-avó, Humphrey Ward, destacaram-se respectivamente como poeta/ensaísta e romancista; o pai, Leonard, tornou-se, além de ensaísta, editor da revista Cornhill. Por outro lado, o irmão, Sir Julian, ganhou respeito como biólogo, filósofo e diretor-geral da Unesco; o meio-irmão, Andrew Fielding, levou para casa o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1963. Vindo dessa generosa genealogia, era natural que recebesse sua parte. E que até pudesse escolher caminhos para praticar seus talentos.

Uma grave doença nas córneas - a queratite - acompanhou Huxley desde 1911, impedindo-o de seguir carreira em Biologia. Em princípio, tinha evidente predileção pelos estudos científicos, mas a quase cegueira empurra-o em direção à Literatura. Onde ele narraria outros tipos de visão. Desde a infância Huxley interessou-se por drogas que mexem com o cérebro.

Em 1916, aos vinte anos (nasceu em Godalming, Surrey, 1894), publicou dois livros de poesia: "The Burning Wheel" e "The Defeat of Youth". Foi o ponto de partida para escrever uma coleção de livros extraordinários, sobretudo polêmicos. Em 1928 apresentou Contraponto, que Sinclair Lewis considerou “admirável” e que liderou por muito tempo a lista dos livros mais vendidos na Inglaterra e Estados Unidos. Em contrapartida, Andrè Gide, que ganharia o Nobel, previu que Huxley acabaria num hospício. Em todo caso, a maioria dos críticos respeitáveis saudou sua originalidade em fundir a ficção com a estrutura dos ensaios, costuradas pela eloqüente sátira à sociedade.

Ao longo de 30 anos, pesquisou o universo psicodélico. Suas descobertas viraram sua literatura. No romance Admirável Mundo Novo (1931), certamente sua obra mais conhecida, apresenta o soma, droga védica que era citada em escrituras hindus e produzia os mesmos efeitos espaço-temporais de multidirecionalidade também previu a destruição apocalíptica do Humanismo pela Tecnologia que exarcebou os ódios e paixões em torno dele. Foi proibido na Austrália como obsceno; H. G. Wells, acusou-o de “trair a ciência”.

Migrando para a Califórnia em 1935, Huxley dedicou o resto de sua vida a escrever e a estudar filosofia transcendental, futurismo e a evolução da inteligência.

O ano de 1937 chegou com profundas mudanças; com "Fins e Meios", Huxley anunciava o abandono do racionalismo que o caracterizara, para entrar numa fase mística. Na verdade, empreendia a inimaginável tarefa de tentar decifrar os recortes mais secretos da mente humana. Não foi por acaso que se entregou às experiências alucinógenas, particularmente com a mescalina substância alucinógena extraída do peiote, o cacto sagrado do México. Como fruto dessa experiência, ele descreveu o seu contato com a mescalina e afirmou ter “percebido” Deus. Chegando à “visão sacramental da realidade”, cujo desfecho foi "As Portas da Percepção", de 1954.

Duas frases famosas do poeta inglês William Blake: There are things that are known and things that are unknown; in between are door. “Há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas; entre elas há portas” ou esta If the doors of perception were cleansed, everything will appear to man as it is, infinite - “Se as portas da percepção estivessem abertas, todas as coisas apareceriam ao homem tais como são infinitas”, inspirou "The Doors of Perception", a obra de Aldous Huxley, que trouxe-lhe prestígio científico e validade literária ao debate das drogas.

A literatura das viagens começa com Aldous Huxley que foi o primeiro intelectual de nosso século a elogiar os efeitos dos alucinógenos. Suas experiências com a mescalina levaram-no a proclamá-la como a forma mais perfeita e eficiente de evasão e alargamento da percepção humana para o homem do nosso século. Como ele, outros artistas e intelectuais ficaram convencidos da utilidade das drogas, capazes de ampliar a área da realidade sensível à abordagem da consciência e de aguçar a sensibilidade.

Aldous Huxley foi homenageado pela geração do acid-rock - as frases famosas do poeta inglês William Blake, também deram gênese ao epíteto do grupo californiano The Doors, cujo vocalista Jim Morrison lera "The Doors of Perception", na adolescência e voltava a lê-lo quando da gravação do primeiro disco da banda californiana. Huxley também aparece na capa de Sgt Pepper’s.

A maior parte destes modificadores de consciência não podem agora ser tomados exceto sob prescrição médica, ou então ilegalmente e com um risco considerável. Com uso ilimitado, o Ocidente tem apenas permitido álcool e tabaco. Todas as outras ‘portas’ químicas na ‘parede’ são classificadas como droga, e os seus compradores ilícitos como viciados. "As Portas da Percepção" - Aldous Huxley.

Em "Céu e Inferno" (1956) sequência de "As Portas da Percepção", Aldous Huxley constata que as drogas podem alçar o homem a uma esfera mística inalcançável pelo pensamento racional - ou deixá-lo às margens da autoaniquilação, o efeito ambivalente das drogas é céu e inferno.

E o romance utópico A Ilha tornaram-no o mais influente defensor das drogas psicodélicas.

Durante uma conferência em 1961, Aldous Huxley disse que há vários acessos para esse mundo visionário: ele pode ser espontâneo, provocado (como a hipnose), químico ou pelo cogumelo. A mescalina e o LSD abriram a porta da percepção para o escritor.

 

 


Conforme Gilberto Freyre, era possível desembarcar, então, no novo aeroporto do Recife (antes, os visitantes ilustres e os presos políticos transitavam pela "Base Aérea") e dar a lacônica ordem aos motoristas de táxis recifenses: "Leve-me à casa do Professor Freyre...".

É o que corre; pelo menos quanto à certeza de Aldous Huxley de ser assim imediatamente levado à mansão de Apipucos, onde o autor de "Casa Grande & Senzala" não esperava, de modo algum, a visita do autor de "O Macaco e a Essência". Este não sabia o endereço do mestre e, essencialmente, esperava que o endereço de Gilberto fosse do amplo conhecimento da macacadas do aeroporto onde Roman Polansky traçou uma jaca inteira (dispensando palito para colher os bagos; depois, limpou os dedos no paletó e anotou o nome da fruta sumarenta: "Djaka").

É evidente que ficamos sabendo da história do desembarque (e da esperança) de Huxley por intermédio do próprio Freyre.

As muita visões do paraíso - Texto: Fernando Monteiro in, Revista República - fev. / 1999

 

Aldous Huxley no Brasil
(Mário Pacheco)

 

O programa "Grandes Nomes: Aldous Huxley" exibido em dezembro de 1996, pela GNT, mergulhou na vida e obra do genial e polêmico escritor, cuja inquietude o levou até os índios do Xingu em busca das complexas respostas que procurava.


Naquela manhã quente de 1958, um bimotor da Força Aérea Brasileira iria quebrar a rotina dos irmãos Villas-Boas no Parque Nacional do Xingu. Não que a presença de aviões fosse novidade lá no Brasil Central, pois a região fazia parte de uma das rotas mais movimentadas da Fab no seu programa de assistência e interligação do interior do país. Mas aquele vôo trazia um passageiro singular: o célebre escritor inglês Aldous Huxley. A aeronave fez as evoluções de praxe para pedir a limpeza do campo e preparar o pouso. Poucos minutos depois, seus pneus levantavam um rolo de poeira no campo de terra. Huxley desceu do avião em companhia de Laura Archera, Adrian Cowell e do escritor Antonio Callado que empenhou-se para que a insistência de Huxley em conhecer o Xingu fosse atendida uma vez que do programa só constava a visita a Brasília em convite feito por Juscelino Kubitschek.


O que Aldous Huxley fazia ali entre índios e sertanistas?
Claudio Villa-Boas, responde: “Ele queria ansiosamente conhecer a cultura não-material dos índios, os nichos do seu mundo religioso, mágico e mítico. Conversamos muito sobre a visão de futuro dos índios, que vivem tremendamente o presente. Era um homem concentrado em si mesmo, que falava muito baixo, não tinha vivacidade”.


De fato, no pouco tempo em que passou horas conversando com Claudio, através de Adrian Cowell, um estudante de Oxford, que fazia parte da comitiva e que serviu de intérprete. “Ele fazia muitas perguntas”, recorda Claudio, “principalmente sobre os pajés e o seu poder de curar espiritualmente. Valorizava muito a cultura dos índios e queria saber com profundidade sobre os espíritos que gravitam em torno deles. Prestava atenção em tudo. Era um místico, acreditava em muitas coisas sobrenaturais”.


Pela profundidade e extensão das conversas, nota-se que Claudio e Huxley se deram bem e isso não foi por acaso. É que Claudio, além de ser estudioso de Filosofia mesmo nos confins do Brasil Central, o conquistou logo no primeiro contato, ao dizer que apreciara o livro "Contraponto". “Creio que foi a visita mais importante que tivemos no Xingu”, avalia Claudio. “Ele e o rei Leopoldo II, da Bélgica. É interessante lembrar que quando ele se despediu do Brasil, disse que o que mais o havia impressionado foram os índios”.


Fora o assunto índios, Huxley reclamou do desconforto da rede, onde dormiu na única noite, e pediu um churrasco. Era uma tarefa da responsabilidade de Orlando Villas-Boas. “Enquanto Huxley e Claudio ficavam lá na rede conversando sem parar, eu ia para a cozinha”, rememora Orlando, exilado na capital paulista após décadas de trabalho com os índios (os irmãos Villas-Boas foram para o Brasil Central com a legendária expedição Roncador-Xingu nos anos 30 e lá permaneceram até tempos recentes).


Na condição de cozinheiro, Orlando foi surpreendido com o pedido de Huxley para fazer um churrasco. E onde eu ia arranjar carne? Matamos uma anta e eu fiz um churrasco de anta. Ele comeu, acho que gostou, mas custava a mastigar a carne”.

*PUBLICADO NA REVISTA PSICODÉLICA ‘DE QUANDO O ROCK ERA CONTRACULTURA’ VOLUME I.

 

 

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