Bukowski: lembranças do velho safado

 

 
Lembranças do Velho Safado
Por Luiz Rebinski Junior 
(Revista Cultura)

Morto há 15 anos, Charles Bukowski conquista gerações com sua narrativa dinâmica e provocativa, mas a obra poética que encantou Sartre não é muito conhecida no Brasil.

Charles Bukowski nunca foi um autor precoce. Apesar de escrever desde muito cedo e ser um escritor prolífico, só foi se dedicar plenamente à literatura aos 49 anos, depois que seu agente, John Martin, lhe ofereceu um cheque mensal de 100 dólares para que largasse o emprego que tinha nos Correios. No Brasil, a trajetória do Velho Safado, como era conhecido, também foi tardia. "Cartas na rua", um de seus romances mais célebres, chegou por aqui apenas nos idos dos anos 1980, quando a escrita rápida e singular do autor foi apresentada aos leitores brasileiros.

O que não impediu que Bukowski, morto em 1994, virasse um dos escritores mais cultuados no Brasil e servisse como espelho para diversos autores tupiniquins, que se encantaram com sua prosa recheada de personagens outsiders. As desventuras do beberrão Henry Chinaski fisgaram toda uma geração de leitores, que se viram hipnotizados pela narrativa sarcástica e bem-humorada do norte-americano.

O dramaturgo Mário Bortolotto foi um desses leitores atraídos pela narrativa “sem frescura” do autor de "Notas de um velho safado" (esgotado). “O meu primeiro contato foi com um texto de Reinaldo Moraes no Primeiro Toque, que era um informativo da editora Brasiliense. Ele estava traduzindo o livro 'Mulheres' e escreveu sobre. Gostei de imediato. Eu não tinha dinheiro para comprar livros naquela época. Mas achei um exemplar de 'Cartas' na rua na biblioteca e fiquei lendo lá mesmo. Fiquei chapado”, lembra Bortolotto.

Alter ego do escritor, Chinaski aparece nos melhores momentos da obra de Bukowski, tornando mais verossímil aquilo que o estilo único do autor trata de deixar acessível, rápido e divertido. Foi assim que Chinaski se tornou um personagem ao mesmo tempo caricato e muito real. O que o faz parecer “um amigo muito próximo”, na defi nição de Bortolotto.

Segundo o tradutor Pedro Gonzaga, da editora gaúcha L&PM, a objetividade parece ser um dos grandes atrativos de Charles Bukowski. Para ele, trata-se de um autor que, para além dos aspectos mais folclóricos de sua obra – como o sexo e a bebedeira –, conta histórias de modo direto, sem rodeios, o que causa um impacto tremendo, principalmente quando se é jovem. “Há algo de direto no estilo do Bukowski, de uma secura que não é a de Hemingway ou a de outros americanos, como Raymond Carver. É uma secura que impressiona por sua aparência de honestidade, de desapego, algo que fala para a solidão dos que vivem na cidade”, afi rma Gonzaga, que foi responsável por verter para o português várias obras do Velho Safado.

Ernest Hemingway e John Fante, além dos poetas Walt Whitman e Robinson Jeff ers foram os seus grandes heróis literários. De Hemingway, Bukowski claramente tratou de surrupiar a concisão; de Fante, os capítulos curtos, com muitos diálogos. Eram leituras de primeira linha para alguém que criou um alter ego fanfarrão e, em alguns momentos, bastante rude, o que contribuiu para a opção pelo texto autobiográfi co. O estilo casou perfeitamente com a vida desregrada, cheia de desilusão, porres homéricos e falta de dinheiro que o autor teve em grande parte de sua existência. A esses elementos, que se tornaram sua marca, Bukowski acrescentou boa dose de imaginação (o que, para ele, era apenas uma maneira de “melhorar” o que acontecia no seu cotidiano).

Mas, ao contrário do Henry Chinaski dos contos e romances, Bukowski era uma pessoa culta, que além de Ezra Pound e Whitman, gostava muito de música clássica. Facetas que sua predileção pela anarquia tratava de camuflar. Aliás, o mito boêmio e maldito que acompanha sua figura trouxe não só fama, mas também incompreensão. Associações equivocadas com os poetas beatniks – grupo do qual nunca fez parte – e leituras enviesadas de seu trabalho, que celebram mais o outsider do que o escritor, são consequências diretas do mito que Bukowski fez questão de alimentar ao longo da vida.

Bardo esquecido
Tanto que a face menos conhecida de Bukowski no Brasil é justamente a de poeta. Desde que se tornou conhecido por aqui, as editoras deram sempre ênfase à produção em prosa do escritor, negligenciando sua poesia. Nos Estados Unidos, por exemplo, seus poemas são tão apreciados quanto os contos e romances. Seu sucesso como poeta era tamanho que, diz a lenda, o filósofo Jean-Paul Sartre teria dito, nos anos 1970, que Bukowski era “o maior poeta vivo da atualidade”. Como tudo o que envolve Bukowski é controverso, nem mesmo um de seus biógrafos, Howard Sounes, sabe precisar se a declaração realmente existiu.

E foi justamente por conta dessa lacuna nas traduções de Bukowski que alguns fãs do bardo americano resolveram criar a Spectro, uma editora catarinense, com sede em Florianópolis, que já lançou quatro livros com poemas dele. Formados em Letras, Fábio Soares, Gerciana de Espíndola e Sigval Schaitel trabalharam juntos na difícil tarefa de traduzir os poemas cheios de gírias de Bukowski.

“Já éramos fãs do velho Buk e tínhamos lido tudo o que havia saído por aqui. Aí fomos atrás dos poemas, comprando livros pela internet. Foi uma segunda descoberta de Bukowski, porque vimos que os poemas eram ainda muito melhores que a prosa. Daí a necessidade de começar a publicar os poemas aqui no Brasil”, explica Fábio Soares, para quem a poesia de Bukowski é o aprimoramento daquilo que o escritor aprendeu com Walt Whitman no verso e com John Fante na prosa. “Ele consegue pegar qualquer fato cotidiano, por mais banal ou mundano que seja, e transformar em literatura, boa literatura.”

Ironicamente, foram os traços mais marcantes da obra de Bukowski que fizeram dele um autor pouco requisitado pela crítica. O texto enxuto e autobiográfico, que associa vida e literatura, é visto, por parte dos críticos, como prova das limitações de Bukowski como escritor. O que para o fã Bortolotto não passa de crítica vazia, já que o Velho Safado, 15 anos depois de sua morte, continua sendo lido e influenciando novos escritores.

“Tentem então escrever como ele. Não conseguem. Alguns escritores enrolam, porque não têm nada a dizer. É só uma cortina de névoa na cara dos leitores. E alguns, que tentam escrever como ele porque acham que é fácil, acabam ficando chatos e superficiais.” ©

 

  

     Centenário de nascimento de John Fante

Ídolo de Bukowski, o escritor John Fante faria 100 anos em 2009. O Velho Safado conheceu-o ainda na juventude, ao vagabundear pelos corredores da Biblioteca Pública de Los Angeles, tirando livros e mais livros em busca dealgo que lhe aliviasse a alma, quando encontrou “ouro no lixo”. Era uma edição carcomida de Pergunte ao pó (esgotado), obra que salvaria sua vida e lhe daria as bases para a literatura solta, rápida e irônica que desenvolveu.

Nascido em 1909 em Denver (EUA), Fante era fi lho de imigrantes pobres vindos da Itália. E sua literatura está totalmente calcada na origem precária que teve. Seu personagem principal, Arturo Bandini, é um aspirante a escritor sem recursos, mas que não deixa a má sorte e as difi - culdades lhe tirarem a pompa de grande escritor. Sem reconhecimento algum, Bandini vive muitas desventuras na cidade grande: mora em hotéis baratos, passa fome e se embebeda sempre que pode.

Daí o fascínio de Bukowski pelo italia- ninho de Fante, já que Henry Chinaski é uma espécie de Bandini escrachado, mais bêbado e com menos escrúpulo. Assim como seu personagem, Fante teve pouco reconhecimento literário em vida.
Durante 40 anos, foi roteirista de Hollywood ao lado de nomes como Francis Scott Fitzgerald. Sua trajetória literária só começaria a mudar a partir dos anos 1980, quando a Black Sparrow Press, que editava os livros de Bukowski, resgatou Pergunte ao pó (Ask the Dust) do limbo.
Foi a vez de Bukowski salvar Fante.

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