Paulo Leminski: A pororoca da utopia

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16 outubro • Paulo Leminski Filho: A pororoca da utopia
Nascimento: 1944 – Local: Curitiba–PR
Óbito: 7 de junho de 1989 – Local: Curitiba

70s, proliferam as revistas literárias. Pólen (1974), Qorpo Santo, Escrita, Ficção (histórias para o prazer da leitura), Código, Navilouca (1975), Corpo Estranho (1976). E na década seguinte Bric-a-Brac, publicações inspiradas pelo “subversivo” Movimento Concreto paulista, ainda desconhecido, mas criado na década de 50, em São Paulo.
1975. O escritor paranaense Leminski, integrante do público de poetas herdeiros do Concretismo, e que tinha seus poemas sintéticos e bem-humorados publicados em várias dessas revistas, finalmente edita o seu livro Catatau, escrito a partir de 1967. Uma coleção de guardanapos e outras iguarias, que reúne uma pororoca iluminada a serviço de um mundo melhor. Treze anos depois, Catatau seria relançado, constatando que, apesar do esforço de seu autor, “a produção cultural de hoje é pobre porque a dimensão utópica está desaparecida”.
Leminski, zen-anarquista, idealizava uma poesia racional e plástica, como queriam os concretistas, mas com a gíria e o humor dos bares e das ruas, utilizando-se da linguagem falada pelas multidões, do português seiscentista, do jornalismo do Pasquim, do discurso joyceano às Galáxias de Haroldo de Campos (†), para buscar na linguagem o curso da história.
Além de poeta, com obra curta, mas significativa, Leminski fez traduções do francês, inglês, russo, japonês e até do latim. Escreveu também romances, vários ensaios sobre filosofia, religião e cultura oriental. Era excelente conferencista, e se não gostasse do rumo das coisas abandonava a mesa. Em Curitiba, era tido como um dos que ajudaram a sacudir a pasmaceira cultural e um dos mais criativos redatores que passaram pela publicidade local. Dos livros seus publicados pela Editora Brasiliense destacam-se suas poesias completas mais o livro Sol e Aço – ensaios sobre o poeta japonês Matsuo Bashō, criador do gênero hai-kai, e os romances Catatau e Caprichos e Relaxos. Em 1985, a Brasiliense publicou sua tradução para os únicos dois livros de John Lennon, reunidos no Atrapalho no Trabalho, e dois anos mais tarde sairia Distraídos Venceremos, que chegou a vender 20 mil exemplares. Os póstumos La Vie em Close, de 1991, e O ex-Estranho, de 1996, portam poemas de despedida e versos dominados pelo sofrimento físico causado pelo álcool.
Em 1999, generosamente o poeta Régis Bonvicino organizou e editou o volume Envie Meu Dicionário, publicado pela Editora 34, com a correspondência trocada por ele com Leminski.
Dois anos mais tarde, o jornalista e amigo Toninho Vaz publicou a aguardada biografia de Leminski, O Bandido Que Sabia Latim.
Cortejado por intelectuais e musicado por A Cor do Som, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Arnaldo Antunes, mesmo assim Leminski se afunda em dry-martini, além de grandes doses de lirismo anticonvencional e mais coisas fundamentais da vida. Morreu de escrever e da cirrose hepática. Vivenciou a falta de interesse por parte do grande público diante da dominação do imediatismo da cultura de massa. Razões psicológicas também contribuíram para a autodestruição: era filho de imigrante polonês com mulata, e, apesar de orgulhoso por sua origem, não teve qualquer amparo e afeto dos pais.

Emérito contador de piadas e falastrão, a sua alegria contagiante não escondia o tom desesperado. Sobre a infância infeliz, deixou este poema:

Soubesse que era assim
não tinha nascido e nunca teria sabido ninguém nasce sabendo até que sou meio esquecido
mas disso eu sempre me lembro

Em 1984, Paulo Leminski visitou Brasília. Almoçaram numa pensão na W3 Sul Ivan "Presença", Nicholas Behr e Alice Ruiz. Paulo Leminski deixou um poema manuscrito com o também poeta Nicholas Behr. Foi originalmente publicado em Tira Prosa, a revista cultural do Feitiço Mineiro, Número 11 out. / nov. / 1998.

claro calar
sobre uma cidade
sem ruínas
Em Brasília admirei
Não a niemeyer lei,
admirei a vida das pessoas
penetrando nos esquemas,
tinta sangue no mata borrão,

vermelho gente
entre pedra e pedra
pela terra adentro
Em Brasília, admirei

Admirei o pequeno restaurante

Oculto,

Criminoso por estar fora
Da quadra permitida
Sim, Brasília
Admirei o tempo
Que já cobre de anos
Tuas impecáveis matemáticas
Sim, Brasília,
O erro sim, não a lei
Muito me admiraste,
Muito te admirei


Outras frases soltas
a noite/ me pinga uma estrela no olho/ e passa
o papel é curto/ viver é cumprido/ oculto ou ambíguo,/ tudo o que digo/ tem ultrasentido/ se rio de mim/ me levem a sério/ Ironia estéril?/ Vai nesse ínterim/ meu inframistério

ameixas
ame-as
ou deixe-as

pariso
novaiorquizo
moscoviteio
sem sair do bar

só não levantou e vou
embora
porque têm países
que eu nem chego a
madagascar

coração
PRA CIMA
escrito em baixo
FRÁGIL

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo
medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois


não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino: p Leminski

o paulo leminski / é um cachorro louco / que deve ser morto/ a pau, a pedra / a fogo, a pique/ senão é bem capaz/ o fdp/ de fazer chover/ em nosso piquenique

Mais leituras
Não fosse tanto e era quase – 1980
Caprichos e Relaxos – 1983
Distraídos venceremos – um livro que “promete mexer com o pensamento, o gosto e a alma poética do Brasil”. Editora Brasiliense, 1987.

Traduções
Pergunte ao pó, de John Fante
Giacomo Joyce, de James Joyce
Sol e Aço, de Yukio Mishima
O Supermacho, de Alfred Jarry
Malone Morre, de Samuel Beckett
Atrapalho no Trabalho/In His Own Words/A Spanish In The Works – fevereiro 1985, Lennon por Leminski, que entremeia o texto com aparições de Joãosinho Trinta (†), Wanderléa e outros, deixando nublada a cabeça dos fãs mais radicais de John Lennon. Editora Brasiliense
Satyricon, Petrônio/Traduzido diretamente do latim por Paulo Leminski. Editora Brasiliense. Março, 1986

Póstumos
La Vie em Close – Abril 1991; Winterverno –1994; O Ex-Estranho – 1996.


(texto: Mário Pazcheco)

 

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