Joel Macedo: Verão Ardente

Verão Ardente
(Joel Macedo)


Chegou em casa, tirou a roupa suada e sentiu nojo. Nojo de seu cansaço estúpido adquirido naqueles ensaios inúteis e pornográficos. Nojo de sua impotência crescente. Nojo de seus dias de bebedeira nas ruas. Nojo daquela seringa que repousa no banheiro consciente de seu poder. Nojo de se sentir atraído mais uma vez por ela. Nojo de não conseguir escapar de New York. Nojo de seu apartamento pintado e decorado com motivos psicodélicos idiotas. Nojo de sua mulher que quer vê-lo um grande ator. Nojo da perversão de sua mulher. Nojo do sexo. Nojo do vazio após o gozo. Nojo dos viciados seus amigos. Nojo dos bem sucedidos seus amigos. Nojo da população fétida daquela cidade-máquina. Nojo de todos os seus discos, de Leadbelly a Jethro Tull. Nojo total da vida e principalmente da morte.

Chegou à janela e viu o casal em frente trepando e sentiu nojo. Nojo de se chamar Roger Hunter. Nojo de não ter dinheiro suficiente para pagar o aluguel no fim do mês. Nojo de ter que pedir um adiantamento ao produtor da peça. Nojo de ter que ouvir insinuações de que o dinheiro adiantado é para comprar heroína. Nojo do apartamento todo arrumadinho pela puta da sua mulher. Vontade de quebrar tudo. De destruir peça por peça, objeto por objeto.. Ou então botar fogo e saltar pela janela para se esborrachar no chão.

Foi à cozinha fritar uns ovos e sentiu nojo. Nojo do negro que lhe deu porrada. Nojo do marinheiro que lhe chutou a cara. Nojo do produtor que lhe deu o papel principal pelo tamanho do seu pinto. Nojo dos viados que o param na rua oferecendo dinheiro. Nojo das mulheres que o param na rua para dar o telefone. Nojo de não ter homem na cidade de Nova York. Nojo profundo de Nova York. Nojo de sua necessidade de Nova York. Nojo de ter comido a bunda da atriz no camarim. Nojo de ser uma farsa, um junkie desprezível fantasiado de artista. Nojo dos hippies que o param na rua para pedir um trocado. Nojo de não ter uma posição política. Nojo de não acreditar em nada, absolutamente nada. Nojo de estar encurralado sem poder sair. Nojo do Village. Nojo do teatro off-Broadway. Nojo do Radio City Music Hall. Nojo das latrinas da cidade e suas toneladas de doença venérea. Nojo do subway imundo subindo para o Harlem. Nojo dos neros fedorentos do Harlem. Nojo de Wall Street e dos homens de negócios brochas. Nojo dos homens ricos e ruins de cama. Nojo de estar comendo várias mulheres desses homens ricos. Nojo de ser bom de cama. Nojo de usar isto em sua relação com as mulheres. Nojo de sua mulher e de sua mania estúpida de fidelidade total. Nojo da beleza de sua mulher. Nojo de agüentar sua mulher na cama, apesar de linda. Nojo de trazer outras mulheres para a cama sua e de sua mulher.

Sentou-se à mesa para comer os ovos e sentiu nojo. Nojo dos portorriquenhos humilhados e segregados. Nojo dos italianos gordos e suarentos. Nojo de ser um marginal. Nojo dos que não são marginais. Nojo de ter uma dose de heroína guardada na gaveta. Nojo de ter pago sete dólares por ela. Nojo de saber que daqui a pouco irá usá-la. Nojo de saber que sua mulher irá recriminá-lo por isso. Vontade de entregar sua mulher inteirinha aos abutres. Vontade de ser um abutre. Vontade de ser um corredor de automóvel para se espatifar a 200 km por hora. Nojo do verão. Nojo do suor. Nojo de estar andando nu dentro de casa. Nojo daquele calor torturante.

Largou a comida no meio, pegou um livro de fotografias e sentiu nojo. Nojo do conhecido e do desconhecido. Nojo de seus amigos bruxos. Nojo de seus amigos atores. Nojo de seus amigos massagistas. Nojo de seus amigos prostitutos. Nojo de seus amigos viados. Nojo das pessoas puras e sozinhas. Nojo dos que lutam pela fama. Nojo dos que se matam por dinheiro. Nojo do que não tem nem pro café. Nojo da rua 42 e de todas as outras. Nojo da prisão invisível que é Nova York. Nojo de estar condenado a essa prisão. Nojo de não poder ver o sol. Nojo do tenente Calley*. Nojo de Eric Clapton e seu carro de 30 mil dólares. Nojo dos que estão chegando. Nojo dos que estão partindo. Nojo do cheiro de merda da bunda da atriz. Nojo das latas de lixo superlotadas. Nojo da poluição. Nojo da ecologia. Nojo das lágrimas que ameaçam vir. Nojo de ainda ter lágrimas. Nojo da destruição da humanidade sobre a Terra. Nojo dos budistas e dos hinduistas. Nojo da careca dos monges hare krishna. Nojo das pessoas que buscam a perfeição. Nojo das pessoas que buscam a destruição. Nojo da mescalina e do LSD. Nojo da marijuana e da cocaína. Nojo do arroto que sucede a Coca Cola. Nojo de qualquer tipo de dependência. Nojo profundo de si mesmo. Nojo dos salvadores de almas. Nojo da nota de 100 dólares. Nojo do 'In god we trust' escrito no dinheiro. Nojo do cinismo. Nojo da passividade. Nojo da cumplicidade por omissão.

Voltou à janela, viu um edifício pegando fogo em frente e sentiu nojo. Nojo do ar heróico dos bombeiros. Nojo do ar humilde dos lixeiros. Nojo do ar distante dos motoristas de ônibus. Nojo do Gay Power, do Black Power, do Jet Power e de todos os outros Power existentes. Nojo do Tamburlaine, do Hippopotamus e de todas as discotecas da cidade. Nojo das mulheres de michê de 200 dólares. Nojo de quem paga 200 dólares por uma trepada. Nojo da Factory do Andy Warhol. Nojo de Candy Darling e de todos os travestis. Nojo do Screw e de todas as publicações underground. Nojo da Washington Square, da Union Square e da Madison Square. Nojo dos crioulos cafetões da Sexta Avenida. Nojo de estar pensando em ir morrer no Nepal. Nojo dos corpos devorados pelos vermes. Nojo das agências de publicidade da Madison. Nojo da guerra do Vietnã. Nojo da gatunagem do Bauri. Nojo da pobreza do gueto espanhol. Nojo da sordidez de China Town. Nojo das orgias no East Village. Nojo das orgias no East River. Nojo de ter que limpar as unhas a todo instante. Nojo de ter que limpar o nariz a cada minuto. Nojo de seus livros de filosofia e meditação. Nojo de seus livros ilustrados de sacanagem. Nojo de já ter sido modelo desses mesmos livros. Nojo da fumaça. Nojo dos caminhões descarregando. Nojo dos turistas olhando a Estátua da Liberdade. Nojo dos que vêm a Nova York mas não vêem a miséria. Nojo dos que consideram Nova York o maior dos centros de diversões. Nojo dos que dizem conhecer Nova York sem nunca terem entrado num subway. Nojo da fome. Nojo da doença. Nojo da conquista esportiva da Lua. Nojo de ter medo. Nojo de perceber que ama a maioria das pessoas de quem tem nojo. Nojo de estar se aproximando daquela gaveta. Nojo de saber o que vai acontecer e não tomar nenhuma providência. Nojo de saber que está procurando aquele vidrinho com o pó branco. Nojo de saber que está compactuando com sua própria morte. Nojo de estar levando o vidrinho de pó para o banheiro. Nojo de estar colocando a agulha na seringa hipodérmica, Nojo de estar destilando o pó branco na água. Nojo de estar enchendo a seringa com o líquido branco. Nojo de estar atando uma tira de couro no seu braço esquerdo. Nojo de estar injetando o líquido em sua veia. Nojo da sensação de euforia que invade seu corpo. Nojo da sensação de paz que invade sua alma. Nojo de não estar sentindo mais nojo.


*Joel Macedo, setembro de 1971.
** "Mario, antes da gente prosseguir sobre forma de envio etc. li o seu texto sobre 1972 e descobri que em relação a este ano no verbete Literatura você tá comendo a maior mosca: o meu livro Tatuagem - histórias de uma geração na estrada, uma edição independente que esgotou seus três mil exemplares em dois anos e que nunca foi reeditado, foi publicado em 1972 !!!!!!      O livro foi lançado em janeiro de 1972 na loja freak "Veste Sagrada", em Ipanema, com um concerto de "Ivan e suas vassouras", um cover de hard rock com as vassouras encenando as guitarras. Tudo louquésimo. Em tempo: gostei bastante da tua tradução de Hot Summer: Verão Ardente. Pode mandar bala com o título em português mesmo, ficou bem legal !!".

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