Albatroz resgata encruzilhada da geração paz e amor

LITERATURA » Livro resgata a encruzilhada dos jovens americanos da geração "paz e amor" vista por um jornalista brasileiro

Nahima Maciel

Publicação: 09/01/2010 07:00

Já se vão quatro décadas desde que o jornalista carioca Joel Macedo, 62 anos, embarcou no avião da Varig para fugir do AI5 e despirocou nos Estados Unidos ao conhecer o movimento hippie e a cultura do LSD. O sonho de mudar o mundo com paz, coletividade e muito rock’n’roll parece hoje conto infantil, um Alice no país das maravilhas, como diz o próprio Macedo. Esse sonho morreu sim, mas isso não é motivo para virar a página. O jornalista juntou as memórias e o mosaico de pessoas nas quais esbarrou durante os anos passados na Califónria e decidiu escrever Albatroz - O encontro das tribos na Califórnia dos anos 60.

Macedo:  
Macedo: "As gerações que vieram depois não tiveram a mesma pegada, no sentido de confrontar o capitalismo"
Um road book ao estilo da literatura beat que embalava a geração hippie e escrito com um olhar distante no tempo e no espaço. É para autografar o romance pontuado por situações autobiográficas que o autor estará hoje no Genaro Jazz Burger Café. Na verdade, um lançamento justificado pela curiosidade em conhecer o café inaugurado recentemente pelo filho Genaro.

Albatroz é a versão leve de Macedo para o que aconteceu na Califórnia dos anos 1960: um jornalista brasileiro exilado conhece um motoqueiro americano em Altamont, o último da série de festivais de rock que marcaram o movimento hippie. E também o único com desfecho catastrófico. Polícia não era bem-vinda nesses encontros regados a ácido e erva e os Rolling Stones contrataram os motoqueiros do Hell’s Angels para fazer a segurança do show. Descontrolados pelas drogas, os anjos do inferno provocaram o caos e mataram um jovem a facadas. Jou Jou Rainbow, o motoqueiro do bem idealizado por Macedo, percebe então que o sonho acabou, as drogas saíram do controle e é hora de tocar a vida de outra forma.

"Ele chega à Califórnia em 1966, cheio de esperança e, depois de alguns anos, a droga avança com tal força que as pessoas precisam se segurar. O Festival de Altamont é um divisor de águas, quando o sonho começa a se desintegrar e Rainbown toma uma atitude para não cair na mesma armadilha, essa onde as trevas se instalaram de repente, de uma hora para outra. Ele quer viver, não quer morrer", conta o autor, que nos anos 1970 publicou Tatuagem, livro de contos inspirados nas viagens realizadas nos últimos anos de movimento hippie. "Tatuagem foi de uma pessoa que estava vivendo aquilo. Está esgotado e nem quero reeditar, é muito pesado. Albatroz é um livro de historiador, procuro registrar a época 40 anos depois."

Há quatro décadas, Joel Macedo era repórter do jornal Última hora. Escrevia sobre as manifestações estudantis e desagradava ao Dops (braço forte da ditadura). Foi Samuel Wainer, editor-chefe e fundador do jornal, quem aconselhou o jovem a deixar o Brasil. Macedo ganhou o cargo de correspondente em Nova York, mas logo descobriria a Califórnia e os hippies e abandonaria o jornal.

Nos anos seguintes, participou da experiência da Rolling Stone brasileira, publicação semanal que tomava emprestado o nome do então jornal de música mais conhecido dos EUA. Para o pasquim nacional, comandado por Luiz Carlos Maciel e Ezequeiel Neves, Macedo escrevia a coluna Estrada. A revista circulou entre 1972 e 1973 antes de ser extinta. O jornalista só voltou para o Brasil em 1974. Ao lado, Macedo conta com encara hoje as experiências vividas nos anos 1960.

» ALBATROZ — O ENCONTRO DAS TRIBOS NA CALIFÓRNIA DOS ANOS 60
De Joel Macedo. Edição independente, 192 páginas. R$ 25. Lançamento hoje, às 18h, no Genaro Jazz Burger Café (SCLN 114, Bloco A, Loja 60).


» Entrevista - Joel Macedo

Por que escrever Albatroz?
Porque havia uma lacuna na história que precisava ser contada sobre o início do movimento hippie, a época dos festivais de rock. Tudo que chega é muito importado, via internet, as pessoas precisam de uma versão de primeira mão, de alguém que tenha vivido aquilo.

O que a visão brasileira complementa?
O jornalista brasileiro estava o tempo todo em contato com o Brasil, sabendo o que acontece na ditadura, a posse do Médici, a tortura nos quartéis. Ele tinha sempre uma ansiedade de voltar ao Brasil para fazer alguma coisa na resistência. O jornalista brasileiro viveu aquilo tudo, mas estava sempre com uma tensão, uma preocupação com o que acontecia no Brasil, havia um paralelo entre os jovens americanos com o Vietnã e a ditadura que estava acontecendo no Brasil.

Qual era a mensagem daquela época?
Queríamos mudar o mundo com uma mensagem de fraternidade, paz e amor. As drogas não eram vendidas por traficantes, era um contexto romântico. Um dia, o sistema capitalista botou o olho em cima disso e de uma hora para outra a droga caiu nas mãos dos bandidos. O império capitalista tomou conta do movimento hippie. Tudo ficou muito contaminado. O sonho ficou bastante impactado, abalado. Aqueles que foram mais fundo morreram, uns conseguiram sair através de comunidades rurais e outros foram em uma busca espiritual, que foi meu caso.

O sonho morreu?
Acredito que sim. Não vejo em lugar nenhum nada semelhante. As gerações que vieram depois não tiveram a mesma pegada, no sentido de confrontar o capitalismo, que está vivendo um momento de franca vitória. Não há mais o coletivismo, é o individualismo nu e cru, cada um por si e sabe-se lá quem por todos. Acho que não ficou nada. Existe alguns nichos de pessoas mais espiritualizadas, fala-se muito de ecologia. Mas, de maneira geral, acho que a humanidade é uma espécie em extinção e não por causa do aquecimento global, mas pela frieza de ter se deixado vencer pela cobiça capitalista, pela vaidade, posse, poder. Nosso esforço foi muito vão.

Você é saudosista?
Não sou saudosista porque estou muito bem resolvido espiritualmente, sou um cristão protestante, me converti há 25 anos ao protestantismo. Tenho uma utopia minha pessoal com a Bíblia e procuro viver segundo alguns princípios que me dão certa dignidade nesse mundo de trevas.

Você ouve o rock de hoje?
Não ouço. Não me diz nada. Não é soberba, mas uma pessoa que viu Jimi Hendrix tocar o último concerto no palco não tem mais muita coisa para ver. Simplesmente o rock de hoje não me diz nada. É estranho, porque acaba passando imagem de uma pessoas saudosista, mas não tenho saudade de nada.

» Trecho do livro Albatroz — O encontro das tribos na Califórnia dos anos 60

"Cores vivas e novas vestes inundavam as ruas de Haight-Ashbury, anunciando uma estrondosa revoulção de costumes. Em cada esquina, a cultura hippie dava sinais de vida. Na Thelin´sShop — a primeira loja psicodélica da história, inaugurada em janeiro daquele ano pelos irmãos Thelin, ex-investidores da Bolsa "convertidos" ao psicodelismo —, Jou veio conhecer as camisas com estampa tie-die, cujas manchas e bolhas multicoloridas lembravam visuais lisérgicos; mas pôde ver os grossos anéis de prata que estariam nos dedos dos guitarristas famosos adornados com elegantes pedras de âmbar, turquesa e jaspe; conheceu os aromas do incenso indiano, os coletes de couro ao estilo indígena, pequenos cachimbos metálicos de hash, papéis de sedo com desenhos e sabores variados, essências exóticas e afrodisíacas, colares de contas e de cobre, e os crazy posters do Family Dog que anunciavam uma revolução visual em andamento.

Allen que tinha estado em Frisco no ano anterior, lembrou que ali funcionava a Free Store — ponto de encontro onde os primogênitos da cena hippie se reuniam para se abastecer de LSD e trocar informações. Depois, os irmãos Ron e Jay transformaram o ponto em comércio de preciosidades hippies, inaugurando a Thelin´s. Logo outras lojas da contracultura surgiram no local, como a Joint Venture, dando início à avalanche.

Na parede da Thelin´s, junto ao mural de recados e avisos, um destes crazy posters anunciava algo muito interessante para o apetite de prazer daqueles forasteiros: Avalon Ballroom, The Gateful Dead, 10 de junho de 1966."
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