O demoniozinho de cada um

 

O demoniozinho de cada um 

por:  Leonardo Almeida Filho This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.  

Minha tia Maria do Carmo foi-se dessa pro desconhecido há mais de dez anos. Enterramo-la, ou o que restou dela depois de um câncer devastador, no cemitério do Gama, numa tarde nublada e fria. Um sepultamento-clichê para uma vida comezinha. Era uma figura simples, de vida simples, de hábitos simples, de olhos voltados para a mesmice de tudo, deixando transparecer uma simplicidade vazia, sem sonhos, sem ambição alguma além de respirar, comer e excretar. Essa foi a trágica imagem que ela sempre nos desenhou: um mamífero sem planos, sem norte ou sul, absolutamente centrado num viver sem arestas ou rompantes. Lembro-me bem das tardes de sexta-feira, quando preparava com esmero as roupas que enviaria para o meu tio no trabalho. Ele tinha o sagrado costume de emendar a tarde e a noite nos bordéis da cidade, nos braços das putas, e para isso, Maria do Carmo, uma mulher de Atenas, escolhia camisa, meia, calça e até o perfume que ele deveria usar. Nunca fumou, nem bebeu, e creio que fez sexo apenas para procriar.  Essa criatura de aparência zen, sem desejos ou humores, escondia na verdade um pequeno monstro. Descobri-o em fins de 1970, quando passei férias em sua casa. Meus tios, nessa época, abrigaram uma menina, uns doze anos de pura ferrugem e vermes. Essa criança, malhada pela vida levada nas ruas e nos abrigos de toda espécie, era muito esperta e ajudava nas tarefas da casa, varrer, lavar, buscar água no poço, matar uma galinha, coletar ovos e, principalmente, servir de depósito das maldades reprimidas por Maria do Carmo. Seu trabalho diário era pesado e sem descanso.

 Reproduzia-se na casa dos meus tios, com essa pequena, uma relação de semi-escravidão. Era essa a mais absoluta verdade. A qualquer momento, sem explicação, diante de um pequeno mal feito, minha tia era capaz de desferir chicotadas, cascudos, beliscões, saboreando sadicamente o castigo infligido a pequena que, parecendo acostumada aos maus tratos, chorava pelo canto, baixinho, sem se queixar, como se pedisse desculpas por existir. Eu tinha dez anos, talvez menos, e a lembrança desses castigos me arrepia até hoje. Quando o caixão contendo os restos de minha tia baixou a sepultura, pensei em Célia, aquela menina enferrujada que, depois de tantos castigos, fugiu de casa, sumiu no mundo. Minha tia, essa mulher sem grandes desejos, sem sonhos, sem paixões, sofreu terrivelmente sua doença até não ser mais. Alguns diriam que foi castigo merecido, diante do que fez a Célia. Eu, que não creio em culpa ou castigo, ainda a vejo sorrir simplesmente porque contraía o músculo da face, e nada mais. Aprendi, observando Maria do Carmo, que ninguém é o que se mostra, nem o que se crê, e que no cosmo há sempre um cadinho de caos; na santidade, um demoniozinho bem guardado e na simplicidade, toda a complexidade da alma humana ardendo como um vulcão adormecido.

 

 

 

 

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