Hélio Ricardo Vidal: Para que haja um começo...

Para Bárbara

Para que haja um começo...

 

Eu tinha naquela época. uma mulher de olhos claros e cabelos pretos. Foi uma época muito boa. Eu não trabalhava. Não precisava. Ela fazia isso por mim.

Passava os dias acordando tarde. Via filmes na TV, bebia, lia, e fazia a coisa com ela na rede. Mania de paraense. No come­ço foi um bocado complicado. Caía da rede. Quando ela vinha por cima, eu saía de lá meio torto. Foi daí, creio, que peguei esse problema de coluna. Não teve nada a ver com o meu acidente. E agora o médico aqui da Fa­zenda vem e me diz que preciso fazer uma pe­quena operação. Talvez o problema fosse mais antigo do que as trepadas na rede.

Ela era analista. Trabalhava na Secre­taria de Comunicação Social do governo do estado, em um órgão do qual não quero lem­brar o nome. Ela pode ainda estar trabalhan­do no mesmo lugar. Sei que casou. Fico aqui imaginando como deve estar a coluna do cara.

Têm certos tipos de  mulheres cujo instinto maternal é perigosamente elevado. Ela era uma dessas.  Me tratava como um filho. Fazia até, questão de me dar de comer na boca. No começo eu até gostava. Achava engraçado. Ficava escrachado na cama, em frente. à TV, e aquela mulherona ali a meu lado me dando de comer na boca. Só rindo. Mas depois a coisa foi ficando esquisita. Em qualquer lugar que fôssemos ela queria me dar de comer na boca. Qualquer lugar. Não que eu desgostasse da ideia, mas em lugar público ficava meio constrangedor. Para mim. Para ela não tinha importância alguma. Ela era louca. Não se importava com ninguém. As pessoas em volta não contavam. Eram extras.

Todos os dias quando voltava do trabalho trazia chocolates e balas. Às vezes doces de padaria. Pela manhã, antes de sair, deixava uma nota sobre a mesinha de cabeceira: - É para você passar o dia, meu bem ¬ dizia. — Não quero ver meu neném passando necessidades - E saía toda feliz.

Era ciumenta. Queria saber o que eu fa¬zia durante o dia. Eu contava tudo como um garoto bem comportado. Não tínhamos telefone. Ela tratou logo de comprar um. De hora em hora o telefone tocava. Era ela. Foi o jeito que descobriu de me/ter por perto, mesmo à pouca distância. Quando saíamos para umas voltas, ou íamos a alguma festa, a qualquer lugar, era um tormento pra mim. Eu não podia olhar para os lados que. lá vinha ela com perguntas. Queria saber para quem eu estava olhando. Me beliscava. Fazia cara feia.

 —  Pra ninguém - eu dizia, complacente.

— Só tenho olhos pra você, morena. - mentia. Ela dava um gritinho de felicidade, sorria, e apertava meu pau. Fosse onde fosse.

Assim levava a vida naquele tempo. Nada nos perturbava. Nada a perturbava, melhor dizendo. Excetuando o ciúme que ela sentia por mim e que às vezes me irritava, os dias iam passando normalmente. Eu não tinha ambi¬ções naquela época. E nem hoje, creio. Lia, escrevia, e gostava quando caía a chuva. Me encolhia no sofá da sala, com cigarros, uma coberta se fazia frio, e livros. Quando me cansava dos livros via TV ou algum filme no cinema. Às vezes saía para dar umas voltas, respirar o ar das ruas. Descia pela Av. Fernando Dias, entrava pela rua dos Aflitos, desembocava na Praça das Flores e ali ficava, sentado em um banco, olhando para os pombos e para as bundas que subiam e desciam pelo outro lado, pela rua das Mercês. Havia por ali muitos mendingos e putas. Algumas delas com cara de adolescentes de dez anos. Mas só a cara. Essas eram as mais cobiçadas. Certo dia pensei em foder uma delas. Ia mesmo foder uma quando me vi apenas com trocados nos bolsos. Eu não tinha dinheiro quase nunca. A minha boceta paraense não era boba.

Quando a conheci, naquele bar, vendia os últimos exemplares de meu livro, "O Alfinete", um livro de contos, não muito bom, mas que me sustentou durante muito tempo. Só me restavam dez exemplares, eram os últimos. Ela comprou todos eles. Mais tarde, já confortavelmente instalado em seu apê, ela me disse que me vira diversas vezes em bares como aquele, ali mesmo no centro, trabalhando. E que eu nunca havia oferecido um livro a ela. E que desde que me viu, sentiu vontade de comprar não só o exemplar, mas também o dono dele. E comprou.

Eu olhava. as vitrines das lojas quando descia a Av. Gaspar Simões com destino ao Bar ZIG ZAG. Sempre gostei de olhar vitrines, mesmo sem saber como comprar o que elas sugeriam. Mas sabia que teria um calça ou uma camisa ou um tênis ou um sapato no outro dia, caso quisesse. Então sabia como comprar, mas como o dinheiro DELA. No Bar ZIG ZAG eu conhecia os garçons e o gerente. Começava, na época dos livros, a vendê-los por lá. De vez em quando aparecia para umas cervejas e uma conversa mole com eles. Eram uns caras de que me lembro até hoje. Foi um tempo de que gosto de lembrar.

"Ouerida paraense: Já faz alguns anos que a. gente não se vê e nem se toca. Mas há alquns dias você me veio à memória de um jeito muito forte. Num pequeno caderno, que ainda restam algumas folhas, eu anotei alguma coisa sobre você. Você foi a primeira lembrança, quero dizer, a primeira lembrança que resolvi anotar depois de tanto tempo, e que talvez continue anotando. Sei que outras poderão vir. Tudo dependerá de mim, da pa¬ciência de cavar a memória. Não escrevo há muito tempo. Desde o acidente que vivo ... "

Naquela época eu acreditava em Deus. Ia a missa aos domingos. Comungava. Fazia orações antes de dormir. Agradecia a Deus pelas manhãs, assim que acordava. E pela sorte que de 'um jeito ou de outro sempre tive. Mas as coisas mudam. Antes dos vinte e um anos todo homem é um crente, precisa crer em alguma coisa. Mas depois vem o tempo e com o passar do tempo ele muda. É onde ele cresce e vira um assassino.

Eu falava sobre a Paraense. Vou descrevê-la. Era alta, morena, o rosto redondo, os olhos claros, os cabelos negros, curtos e lisos. E louca. E sexy. E divertida. Ria à toa. Chorava, idem. Uma Deusa. Era mais velha que eu uns quatro anos. Quê mais? Vou me lembrando à medida que escrevo •..
Gostava de tê-Ia sempre que a tocava.

Não na rede. Era ela que gostava de lá. Eu preferia o chão, no tapete azul, com almofa-das em volta. Ela era quente e apertada. Sabia travar meu pau lá dentro. Gemia alto e falava tanta besteira enquanto gozava, que uma vez eu perguntei a ela de onde tirava tudo aquilo. Disse que não sabia. Disse que era espontâneo. Me perguntou se eu queria que ela ficasse muda. Ela tentaria. Cristo!, como uma mulher pode falar isso? Eu disse que gostava e muito das imundícies que ela dizia. Que me deixava louco. Que me estimulava ainda mais. Foi a melhor mulher que já tive. Quando penso que nesse momento alguém a está tocando - nesse exato momento - sinto uma ponta de inveja... Inveja? Não, nem sei o que é isso. Mas gostaria de tê-la aqui e agora. Gostaria de que ela estivesse deitada na minha ,cama, de bruços, com aquele rabo empinado pro céu do quarto , folheando alguma revista, me esperando. Eu sentaria na cama, a seu lado. Passaria os dedos suavemente pelas suas costas, porque sei que ela gosta, e porque veria os pelinhos arrepiarem e ela sorrir. Ficaria assim. Fazendo isso. Em pouco tempo ela estaria excitada. Balançaria as pernas, pediria, toda melindrosa, que' eu parasse com aquilo... Eu me inclinaria sobre ela. Minha caceta dura como o país. Beijaria de leve uma de suas orelhas. Ela soltaria um gemido baixinho. Montaria nela. Ela diria um "Ah!", Alucinado, procuraria a sua racha como o rato procura o queijo. Ela levantada um pouco a bunda. Por baixo de si mesma, por entre as coxas, ela pegaria minha caceta e poria lá dentro. Molhadinha, estaria. Eu forçaria. Ela começaria a gemer. Enfiaria bem lentamente todo o resto, até o saco. Aí começaria o exercício. No começo devagar. Mas depois, ah!,  depois a coisa seria frenética, alucinante. Então ela começaria a dizer aquelas coisas nojentas e eu entraria em órbita...

Ela realmente gostava de fazer a coisa. É para você, paraense, que dedico essas linhas cheias de saudades. É pela sua lembrança, a lembrança das noites em que passamos juntos naquele chão azul, na rede, das comidinhas dadas na boca, do ciúme pai d’égua que você me dedicava. É para você, morena, que dedico alguns pensamentos safados, que sujo o chão deste quarto pequeno. É por você que neste instante as luzes do mundo se apagam e eu vou morrendo aos poucos...

 

 Texto Retirado do Livro "Carne de Pescoço" de Hélio Ricardo Vidal

Outono de 1989
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