Com muito fumo na cuca

Com muito fumo na cuca

Prosa de Sábado

20 de novembro de 2010 | 0h 00

Sergio Augusto - O Estado de S.Paulo

"Vício Inerente", sétimo romance de Thomas Pynchon, ontem lançado pela Companhia das Letras, pode ser lido de duas maneiras. A primeira é como uma ficção noir tradicional, por assim dizer, cheia de curvas e desvios, modelo Raymond Chandler, mas cuidando de anotar quem é quem na trama, para não se perder, não se sentir como Philip e Vivian à beira do abismo. O caminho é longo (21 capítulos, 459 páginas; console-se: "O Arco-Íris da Gravidade", o calhamaço de Pynchon anteriormente traduzido, tinha 785 páginas), mas vale o percurso se você apreciar o gênero e, sobretudo, se interessar pela contracultura californiana de 40 anos atrás. E, mais ainda, se tiver lido "O Leilão do Lote 49" e "Vineland". Sim, "Vício Inerente" arremata uma trilogia.

 

Imagine um mix de Chinatown com O Grande Lebowski num contexto similar ao daquelas rapsódias psicodélicas de Tom Wolfe, com sexo, drogas, rock"n"roll, surfistas, mais a Guerra do Vietnã. No centro do helter skelter, o cinéfilo detetive particular Larry "Doc" Sportello: branco, 29 anos, cabelo afro, baixo (seu mote: "O que me falta em al-titude me sobra em a-titude"), o cérebro defumado pela cannabis, os pés enfiados num par de sandálias mexicanas, o avatar hippie de Marlowe, Hammer, Archer e demais private eyes de Los Angeles.

O LSD gravado na porta de seu escritório (em Gordita Beach, nome fantasia de Manhattan Beach, onde Pynchon escreveu O Arco-Íris da Gravidade, no início dos anos 1970) quer dizer apenas "Localizamos, Seguimos e Detectamos", mas que todos se sintam à vontade para pensar em outra coisa.

Abrindo o desfile de clientes, Shasta Fay Hepworth, ex-amante de Doc com pretensões a atriz, agora de caso com um figurão da indústria imobiliária, Mickey Wolfmann, "tecnicamente judeu mas com veleidades nazistas", que antes de sumir misteriosamente vivia protegido por uma dúzia de motoqueiros da Irmandade Ariana. Shasta quer que Doc faça por ele o que Sam Spade fez pelo Falcão Maltês.

Com uma fauna de tiras e marginais tão insólita quanto os nomes e apelidos de seus integrantes (Pé-Grande Bjornsen, Sledge Poteet, Sauncho Smilax, Zigzag Twong, Ensenada Slim, Puck Beaverton, este dotado de uma suástica tatuada na cabeça), a intriga se estende por quase 50 dias (de 23 de março a 8 ou 9 de maio de 1970), em plena Amerika presidida por Richard Nixon, quando Ronald Reagan governava a Califórnia e Charles Manson aguardava julgamento.

A segunda maneira de se ler o romance é a ideal: curtindo todas as referências e alusões cometidas pelo autor e seus personagens. Tanto melhor se o leitor tiver vivido, visto, lido e ouvido a década de 1960. Intensamente, como Pynchon. Erudição e Google ajudam, mas não bastam. Alguém definiu Vício Inerente como "um palimpsesto com alusões semiobscuras", escrito por um cérebro enciclopédico, que tudo sabe sobre os carros, filmes, telesséries, grupos de rock e tipos de maconha daquela época, cujo ethos nos é sempre filtrado pela televisão, pelo cinema e pela música pop.

Pynchon, o mais recluso escritor americano à esquerda de Salinger e o mais conspiratório à direita de Don DeLillo, sempre me pareceu um autor que apenas uma seletíssima camada de leitores lograria fruir plenamente. Sua ficção não é para a hermenêutica de um Carpeaux ou de um George Steiner, por exemplo, mas para a erudição pop de um John Leonard, de um Ivan Lessa, e de quem mais tenha acesso ao chaveiro de suas paródias e de seus pastichos. E os possa ler no verdadeiro mccoy, ou seja, no original.

A despeito do empenho e do capricho do tradutor Caetano W. Galindo, aqui e ali traído pela falta de rigor ("Massa", sinônimo de joia, chuchu beleza, é paulistês dos anos 1980, "Aff Maria!" é exclamação que associamos ao Chico Anísio, "atirar da virilha" não é a tradução mais adequada para "shoot from the hip", "lenço exibido" não possui a mesma expressividade de um "lenço espalhafatoso"), melhor serventia teria uma tradução que, além de impecável, viesse acompanhada de notas explicativas, no rodapé ou sob a forma de apêndice.

De que outro modo traçar os paralelos entre o triângulo amoroso do romance e o da telessérie A Ilha dos Birutas? Como identificar a figura de Art Fleming? (Era o apresentador da gincana televisiva Jeopardy.) E Fatso Judson, autor da expressão "carcamano safado", citada por Pé-Grande no segundo capítulo? (Era o sádico sargento interpretado por Ernest Borgnine em A Um Passo da Eternidade.)

Há uma piada sobre estacas que só faz sentido para quem souber quem foi o doutor Van Helsing (o arqui-inimigo de Drácula) e uma referência ao Leviathan de Thomas Hobbes sibilinamente diluída nos cinco sócios (Salitieri, Poore, Nash, De Brutus e Short) de um escritório de advocacia.

Neste curto espaço não caberia nem um terço das referências que identifiquei e relacionei nos três primeiros capítulos, prazeroso e profícuo desafio que levei a capricho até quase o final do livro, sob o nostálgico afago aural de alguns hits dos Beach Boys, de Dion, Del Shannon, Marty Robbins, e outras relíquias do rock de que só o Barry da loja Championship Vinyl talvez ainda se lembre.

Se não tenho como divulgar todas as minhas achegas, ao menos uma alusão preciso esclarecer: o Philip e a Vivian a que me refiro na segunda frase são os protagonistas, Philip Marlowe e Vivian Rutledge, de The Big Sleep, o romance de Chandler adaptado ao cinema por Howard Hawks e no Brasil traduzido como À Beira do Abismo.

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