Canto de Natal

 

Canto de Natal

por Leonardo Almeida Filho

Não é porque o dia amanheceu nublado ou porque o céu de chumbo abriga uma garganta divina pigarreando lá-bem-longe que eu me sinto enlutado. A sensação de vida em preto em branco, descolorida e sem graça, me vem rodeando faz algum tempo. Ela esteve presente quando presenciei o velório e o sepultamento de um primo, um homem ainda jovem, nos seus quarenta e cinco anos, levado pela suspensão do ar nos pulmões, pela parada inexorável do coração. Foram-se seus sonhos e afetos. Incrível como o luto, que já rendeu ensaios e mais ensaios, poemas e romances, esculturas e TajMahais, tem a força de um tudo que é, no fim das contas, o nada absoluto. Perde-se o toque, o afago, a voz, o cheiro, o gosto, todas as sensações e sentidos da pessoa que se vai. Morrer é tolher sentidos e inundar as almas de saudade. Sim, morrer é nascer para a saudade. Mas também não é só por isso que ando gris, pastel, desbotado. Creio que talvez seja a proximidade das festas de fim de ano. Parece um clichê emocional: Natal é festa depressiva pra muita gente, creio que sou uma gente dessa que preferiria dormir em 20 de dezembro e acordar por volta do dia 10 de janeiro. E isso não se deve ao aniversariante, um homem bom que sucumbiu à maldade dos seus semelhantes, sangrando na cruz, mas ao simples fato de que a alegria do Natal encobre muitos sonhos e frustrações. O sentir-me preto e branco vem, então, da morte e do nascimento. Aquela, de um primo; este, de um menino-deus. Quem nasce, morre para o nada. Quem morre, nasce para o tudo. Pensa nisso! Pra não trincar, vou chover por aí. Aproveito para encaminhar uma canção que fiz para esta ocasião, intitulei-a "Cantiga de Natal". Espero que gostem. Segue  a letra logo abaixo:


Cantiga de Natal
(Léo)
 
Aconteceu num domingo
Numa cidade qualquer
Fez o café, pôs a mesa e o silêncio
 
Rangendo os dentes e o espírito
Olhar colado no céu
Em cada copo de leite o suplício
 
No quarto, o sono dos filhos
E a foto do homem amado que a deixou
Logo serão corpos frios
Como o coração vazio que os matou
 
Aconteceu num domingo.

FELIZ NATAL
Leonardo Almeida Filho

EDVAR
Ilustração:   Edvar Ribeiro, 9 dez. / 2010
 

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