Alguns raros versos de Glauber Rocha

Flor de chumbo
(Glauber Rocha)

A Gênese da flor
Se deu no horto mais pavoroso
De jardins queimados prematuros
Quanto ao chumbo
Entrelaçado está a flor
Pois bem pesado
Faz a coroa pressionar
O caixão no momento
De baixar a cova
Em sete palmos de oração

 

Das cabras
(Glauber Rocha)

Cabra copos da seca/Pare nos espelhos do
sertão
Trespassada pra não trespassar/Cruz
calma
Bebe chão. Dialética miséria.
Funda subsistência.
Solitária ou cabroeira.
Morre difícil. Berro canalha.
Cavanhaque de bode da Besta aristocrata.
Couro de feira. Carne de feira
Feiticeira. Fedorenta sem anarquia.
Metida na mandinga, inquisitorial.
Peito de chumbo. Inflamada sensual.
Cabra desabalada, bode viciado,
Infância sexual.
O pastor precisa da cabra.
A cabra não precisa de nada.
É marginal/Passiva metafísica
Secular guerrilheira.
Leite duro. Não cheira leite materno.
Leite técnico. Lava o corpo lubrifica
Dá queijo lacunar.
Da mulher quando é cabra irregular
Cabra da peste/Cabra safado
Cabra macho/Napoleão Lampião.

 

Phrometeu
(Glauber Rocha)

VII
O bárbaro planta seu morto ou o queima ou
o come
Energias desintegradas nada
Cada morto é uma estrela
Estrelas anjos do sol
O sol transforma nossos mortos
Em anjos masculinos e femininos
O sol devora
Aqueles que compreendem sua glória
Alma minha gentil que partiste
Desta vida ao sol amante
Fique eu na Terra condenado
A chorar tua saudade ternamente

 

Fim do século
(Glauber Rocha)

Hoje é o dia do banquete/Com a falsa coroa
No falso rei/Na Idade Média.
Hoje é o dia do falsete/Com a gula na cama
O sexo na mesa/No grotesco palacete
No fim do século/Ali na beira da rua
Cercado/Cimento/Armado/Poluído

 

Poema de amor
(Glauber Rocha, jun./1981)

Tudo talvez se defina
na conspiração
da poesya e da infecção
estou no começo da vida
mas não sei se a saúde resiste
o mundo profetiza guerra global
e corta o mistério da existência
nos projetando nos braços vitais
revolucionando o prazer, essência.

 

Manifesto do catarro
(Glauber Rocha)


Kareta, Liberação, Cahiers du Cinemá e etc
acabaram o velho
Jornalismo o foto
Jornalismo novela jornalística
tudo que começou em 1900 e desaparece
em 1981.
Aí vai, caro Tarzo,
uma reportagem nova sobre minha
pneumonia,
tuberkuloze e Kanzer.
Mas Kanzer não mata!
Kareta, com Raul Cortez na
Capa é genial, e devemos
Seguir por aí... Publique
Meu diagnóstico, Feliz!


 

Absoluto absurdo
(Glauber Rocha )


Manuel Bandeira foi pra Pasárgada,
Caymmi pra Marakangalha, eu pra Ilha da
Madeira!
Não suporto a Terra.
Kafka e Camus tinham razão e por isto
vivem na consciência - que Absurdo!
Não se desesperem, grande fyloshopho é o
Carlinhos de Oliveyra - por aqui ninguém
especula
O vácuo existencial - nem por aí, ou no
Terceiro Mundo
Assassino.
Matar está na ordem de cada segundo e
Ninguém liga pra vida... daí o tédio do
absurdo absoluto
Paris desperta socialista, prepara-se
um espetáculo humanista no fim do século...
mas não somos franceses

 

Ubaldo substitui meu psicanalista: cada semana vou a Lisboa encher-lhe o saco com os problemas brasileiros, consulta de duas ou três horas. O mestre de Sergipe me faz uma limpeza de cuca e volto pras montanhas feliz com Luiz Buñuel porque (ou por que?) o Mago deu uma entrevista:
— Briguei com Salvador Dalí mas não admito que se fale mal dele nem de sua mulher Gala... Salvador é um gênio, é meu antípoda, mas detesto aquele psiquiatra espanhol (?) que declarou ter encontrado Dalí sozinho numa sala com os olhos brilhando de loucura... Bendita loucura!
Buñuel não considera loucura pecado e a propalada conversão de Salvador Dalí ao franquismo nunca passou de uma provocação surrealista do feiticeiro de Cadaquês.
— Como pode um vulcão ser fascista? O pecado de S. D. é ser o maior pintor do século!

 


 

 

 

 


 

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