Um abraço nos tornozelos de Glauco Mattoso

Um abraço nos tornozelos de Glauco Mattoso 
(Mário Pacheco)


O libertino marginal poeta-ensaista-produtor, Glauco Mattoso caiu nas minhas mãos num verdadeiro opúsculo - ‘O que é poesia marginal’. (Coleção 1ºs Passos – Ed. Brasiliense).

1981, estava começando e a nova língua poética da vã guarda paulista aflorava nas bocas de Glauco Mattoso, Arrigo Barnabé e o recém-saudoso Itamar Assumpção.

Em 86, Glauco Mattoso teve o texto "Massagem Linguopedal", publicado na revista bric a brac e em setembro de 1988, eu recebi dele a revista ‘Rockabillyrics’ com uma dedicatória digna de um tarado, “abraços marcianos do também kinkmaníaco Glauco” e passei a seguir suas pegadas com a lente de contato de Cherloque Holmes.

Após uma releitura de "Massagem Linguopedal" abandonei a vetusta necrofilia inóspita da página e os preconceitos e entrei em contato com Glauco que está cego e ativo. Solicitei sua colaboração que para a felicidade do ‘viajante’ prontamente foi atendida.

Depois daquele texto houve muitas massagens. Glauco Mattoso publicou uma dezena de novos trabalhos, talvez mais aproveitáveis. Nos livros mais atuais "Centopeía", "Paulisséia Ilhada" e "Panacéia" seus temas permanecem os mesmos, umedecidos pela língua lambedora de crueldades, qualidade insuspeita típica de “quem não enxerga”.

Momentaneamente, experimento 50 versos ao quadrado de Glauco Mattoso. Além dos textos e sonetos e dos seus três ‘sítios pessoais’ – listamos alguns endereços e  experiências de Glauco Mattoso na rede. Em julho, teremos outros textos e poemas seus destacados ao lado do CD "Melopéia" do selo independente Rotten Records que traz os sonetos de Glauco Mattoso musicados por gente do quilate do "Nego Dito".

    

Massagem Linguopedal 
(Glauco Mattoso)

Você já foi massageado nos pés por uma língua humana? Uma língua masculina? Provavelmente não, pois trata-se duma inovação na arte de explorar a sensibilidade do corpo, numa de suas regiões mais menosprezadas: o PÉ.

Este convite não é um daqueles pretextos para uma prestação de serviço erótico remunerado. É realmente uma massagem, embora possa ter suas funções eróticas. Tão científica quando o DO-IN ou o SHIATSU, a massagem linguopedal produz efeitos relaxantes, terapêuticos ou afrodisíacos, conforme a necessidade e a predisposição do “paciente”.

Além do aspecto fisiológico, a massagem linguopedal acrescenta algumas compensações psicológicas. Por exemplo:

Se você é um NEGRO, poderá desforrar do preconceito vendo um branco másculo humilhado a seus pés, mais vergonhosamente que um cachorro;

Se você é um MILITAR, poderá ter seu próprio revanchismo vendo um civil másculo rebaixado a seus pés, mais submisso que um recruta em posição de rastejo;

Se você é um ATLETA, poderá comemorar o gostinho da superioridade vendo um intelectual másculo se sujeitando com a boca à parte do corpo que você mais usa para se apoiar no chão;

Se você é um JOVEM INIBIDO, poderá se sentir mais seguro de si vendo um adulto másculo perder o pudor e o nojo na sua frente e abaixo de você.

E assim por diante.

Para desfrutar dessa aliviadora carícia bucal, você não precisa fazer altas despesas em casas de massagem, nem se expor à insalubridade ou à indiscrição dos ambientes promíscuos, como saunas ou boates. Basta me escrever, e fornecerei um telefone para contato, através do qual combinaremos reservadamente a ocasião e o local mais convenientes para a primeira sessão de massagem.

É importante frisar que me dedico a esta especialidade por puro prazer, e não por dinheiro. Em face disso, desenvolvi a capacidade de apreciar aquilo que para outras pessoas seria motivo de nojo ou vergonha

SONETO 35 LINGUOPEDAL
(Glauco Mattoso)

     Massificada está toda massagem
     holística que, como a acupuntura,
     em pontos energéticos procura
     curar com científica roupagem.

     Em tudo vejo logo a sacanagem:
     A planta do pé fiz numa gravura
     e em vez da mão a língua, menos dura,
     propus como sistema de lavagem.

     Criei assim um vivo tipo novo:
     o podofelador profissional.
     Meu nome andou na má língua do povo.

     Já cego estou, mas não me saio mal:
     Frieiras mentalmente inda removo
     do pé de quem me xinga de anormal.

 

CÍRCULOS VICIOSOS E CIRCUITOS VIRTUAIS
(Glauco Mattoso)

     [1] Ainda não se sabe se a internet contribui mais para aproximar e entrosar as pessoas ou para isolá-las e viciá-las, pois, ao mesmo tempo que agiliza e amplia o intercâmbio, prende o indivíduo ao estressante ambiente do computador e ao frustrante universo da fantasia virtual. Não vou entrar no mérito dessa questão. De minha parte, o computador me libertou da clausura da cegueira e, em troca, me escravizou ao domínio duma voz robótica atrás da qual se escondem pessoas reais que (exceto pequeno círculo de amigos e outro, menos restrito, de literatos) me são estranhas e representam, por amostragem, toda a sociedade hostil à diferença e à deficiência -- sociedade com a qual tenho de conviver da porta para fora. 

     [2] Refiro-me àquela parcela dos 70 visitantes diários que, tendo navegado pelos meus dois sítios pessoais ou pelas colunas que assino em outros sítios, decidem comunicar-se comigo por "emeio". Tirando a habitual meia dúzia de interessados na minha obra, que querem me entrevistar ou obter livros e CDs, pingam daqui e dali os curiosos das situações humanas, os observadores da desgraça alheia, uns solidários e solícitos, outros hedonistas e tiradores de casquinha. 

     [3] É destes últimos que quero falar, não para fazer (como os politicamente corretos fariam) objeções à sua atitude, mas para dar-lhes razão quando, intrigados (ou instigados) com minha reação masoquista à inferioridade da cegueira, me testam como cobaia de potenciais abusos, em provocadores "emeios" masturbatórios. Recebo-os raramente, mas a tais mensagens devo incontáveis noites de punheta que, junto com os demônios da poesia, preenchem minha insônia quase cotidiana. Há cerca de dois anos, quando inaugurei meu sítio, um desses abençoados sarristas me contatou e tripudiou sobre minha cegueira durante semanas a fio, ou a cio. Recentemente, outro jovial desfrutador extravasou pelo correio eletrônico o que faria comigo ao vivo. A ambos (cada um num soneto), bem como a todos os bem-aventurados e bem-humorados anônimos, suficientemente desreprimidos e descontraídos para gozar sem pudor a degradação do próximo, dedico os dois exemplos abaixo, nos quais adaptei as próprias palavras informais dos remetentes ao rígido molde poético que cultivo:

 

 SONETO 542 INDELETADO
(Glauco Mattoso)

 

     Oi, cego trouxa! Vi você na net!
     Até me imaginei na sua frente,
     você se ajoelhando, obediente,
     a boca adivinhando o que se mete...

     Não tem pudor "correto" que me afete!
     Problema seu se está cego e se sente
     por baixo! Agora chupe, engula e agüente!
     Na sola sinta o gosto do chiclete!

     Primeiro, eu vou mijar. Você no chão
     se agacha, molha a cara e bebe o resto.
     Depois, usando a língua em vez da mão,
     balança a chapeleta. Acha isso honesto?
     Se não achar, maior o meu tesão!
     Você se presta a isso? Então me presto!

SONETO 543 REENVIADO
(Glauco Mattoso)

     Alô, ceguinho otário! Já acessei
     seu sítio e dei risada de você!
     Achei bem feito, sendo seu buquê
     chulé de macho, mesmo sem ser gay...

     Piada ou sério, até me imaginei
     folgado, comandando: "Abaixa aê!";
     você, de quatro, apalpa e diz: "Cadê?",
     seguindo meu pisante e minha lei!

     Quem manda estar sem vista? Agora tira
     meu tênis com a boca e sente o drama!
     Da meia você chupa o que transpira!

     Nos dedos você lambe o vão e mama;
     na sola esfrega a língua até que fira!
     E é só começo! O resto a gente trama!

     [texto publicado na revista virtual www.fraude.org, na coluna "Pô do Mano Podômano", 2002]

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