OLHO POR OLHO (2020)

 

olhor por olho

Drama ou dharma?

Passaram-se anos até eu entender que devemos fazer o bem sem esperar recompensa. E entendi melhor quando conversei com um budista que me contou esta história:

Um homem tentava ascender ao Ego Espiritual através do desprendimento de tudo, porém frustrava-lhe ser incompleto. Se alguém o abordasse e pedindo-lhe os seus sapatos, ele os tirava e dava. Durante anos de purificação ele esteve quase por conseguir tornar-se um santo. Quase

Daí que um dia ele foi parado na rua por um desconhecido, que o encarou e, sem esgares, do nada, proferiu:

Quero seu olho direito.

O Quase Santo reagiu:

Você tem certeza?

O mendigo confirmou o pedido:

Sim! Eu quero este seu olho direito! – estendendo, num gesto impulsivo, a palma da mão esquerda para recebê-lo.

O pretensioso Desconhecido quis saber, ainda com a mão estendida:

Como você vive? Como paga suas contas?

Dolorosamente o Quase Santo enfiou o dedo pelo canto do olho até arrancar a uma prótese ocular, puxou suavemente pelo braço do Desconhecido, abriu-lhe os dedos, e depositou o globo na palma da mão suja do insolente pedinchão, o qual perscrutou o objeto, fechou e abriu a mão para bem percebê-lo, bem tateá-lo; cheirou-o, girou-o na ponta dos dedos, fez careta de azedume. Após alguns segundos, jogou a peça no chão e pisoteou-a com gosto. Aflito por esmagá-la, enterrou a bola de silicone na areia.

Daí partiu, incontinenti.

O Quase Santo não ficou chocado, nem nervoso, tampouco irado. Manteve todas as virtudes que havia acumulado ao longo de anos e percebeu, mais uma vez, que não alcançara a evolução almejada. “Evoluir não é chegar, é caminhar”, persignou-se, abrindo um bocejo involuntário e embaciado, nietzscheano.

Olhei próximo a sua face morena, à do Quase Santo, com sua longa barba branca de Odin, e para suas cãs esvoaçantes, qual uma teia de aranha há muito tecida. Ele, agora trêmulo, com medo de que eu pedisse desta vez o olho esquerdo, ri e comentei baixinho.

Zeferino, foi assim que você passou a usar o tapa-olho?

A moral da história é que a generosidade é uma virtude que temos praticado pouco e menos ainda, ensinado. Valorizamos muito o “ter”, mas o “compartilhar”, o “dividir”, acaba ficando em segundo plano.

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