Abhorrent, banda de Brasília, toca na Inglaterra em 1997: 1 gayzinho, muitos vikings, gazes fedorentos e muito Trash Metal!!!

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Abhorrent toca na Inglaterra em 1997
e Barbieri vira o empresário por 1 dia!

Em 1997, eu era jornalista correspondente para a Revista Dynamite do Andre “Pomba” Cagni.  Pomba pediu que eu desse uma assessoria logística para um amigo dele que estava vindo pela primeira visita à Londres.  Este rapaz jovem quando visitou-me, magrinho, com um corpo adolescente e com seu visualzinho pop, cheio de maneirismos logo deixou claro que era gay.  Pela conversa, ficou evidente que ele tinha vindo para arrumar emprego e  ficar por um bom tempo. Tratei-o respeitosamente e expliquei-lhe o básico à respeito dos meios de transporte em Londres, problemas com imigração, permissão de trabalho, etc.  Depois do obrigatório cafezinho o rapaz agradeceu-me e se foi, deixando-me com aquela sensação de missão cumprida.

Bom, não passou mais do que uma semana e o rapaz ligou pedindo ajuda. Ele abriu o jogo e revelou que tinha arrumado um namorado inglês pela Internet, que lhe tinha pago a passagem para vir à Londres. Quando o rapaz chegou,  foram morar juntos. Já na casa do inglês ele percebeu que, na verdade, não sentia nada pelo namorado. Como resposta, seu “patrocinador” o tinha colocado no olho da rua.  Bom, o gayzinho precisava de um lugar temporário para ficar pelo menos por uma semana. Como bom samaritano, ofereci o sofá da sala por uma semana com a condição de que ele se mudasse a até a próxima sexta-feira. O rapaz concordou, chegou e ocupou a sala.

Na época eu era casado com uma boliviana. Eu sei que, naquela semana, no comecinho da tarde,  minha  ex  saiu com meu filho pequeno para dar um passeio.  Logo depois, o gayzinho entrou no banheiro para tomar um banho. Neste momento, o interfone tocou. Eram os músicos da banda Abhorrent de Brasília que eu desconhecia totalmente. A visita deles foi, tipo surpresa, totalmente inesperada.

Aqueles que já me conhecem sabem que minha porta está sempre aberta para o rock, especialmente se for brasileiro. Portanto, apertei oi botão e deixei o pessoal entrar.

A moçada da banda, todos juntos, sentaram-se ocupando apertadinhos o sofá da sala. Eu puxei uma cadeira,  coloquei um som para rolar e começamos conversar.

Fiquei sabendo que a banda tinha conseguido meus dados através da revista Dynamite e que eles tinham vindo à Londres  para fazerem um show numa cidadezinha chamada Rugeley localizada no interior da Inglaterra.  A história deles carregava o espírito de aventura e eles não tinham vindo à Inglaterra com ambições impossíveis.  A coisa tinha começado com um email de um visitante inglês ao website da banda. O vistante tinha ouvido a música deles e gostado. Seguiu-se um convite para tocar no teatrinho local da cidade juntamente com duas bandas locais chamadas Pine e Fracture que, fariam  a abertura do show. A renda do show seria dividida meio à meio. Considerando-se os custos com as passagens de avião, evidentemente este show não visava lucro. Um dos membros da banda vendeu seu carro, juntaram o dinheiro e vieram.

Fui então convidado para acompanhar a banda dando o apoio logístico em termos de língua inglesa e também técnico, na mesa de som. Na prática, por um show, passaria a ser o empresário da banda. É lógico que aceitei imediatamente tamanho privilégio.

Eu sei que a conversa estava indo bem, quando a porta do banheiro abriu e saiu o gayzinho com uma toalha, como uma saia longa, enrolada acima dos mamilos, usava uma toca plástica  transparente na cabeça onde percebia-se que o cabelo preto estava todo cheio de óleo. O rapaz passou pela sala em direção à cozinha andando em passos curtos e rápidos como se fosse uma gueixa.

A nossa conversa, imediatamente foi substituída por um silêncio desconfortável. Os músicos da banda parece que tiveram um ataque de alergia simultâneo, tentando se afastar uns dos outros num sofá pequeno e sem espaço. Um deles começou mostrar sinais de que era hora para ir embora.  De repente “a ficha caiu” e percebi que aos olhos deles, eu e o gayzinho, parecíamos um casal.

Imediatamente e, com dificuldade, acalmei o pessoal explicando toda a situação, que a presença do rapaz na casa era temporária e que eu era casado e tinha um filho pequeno.

Depois dos esclarecimentos fiquei sabendo que dois dos músicos já tinham lugar para ficar mas,  os outros dois não.  Eles tiveram que, à contra gosto dividir a sala com o gayzinho.

Durante a estada dos músicos, um deles colocou um pierce num dos mamilos. Foi muito engraçado ver ele mostrando o mamilo para o gayzinho que fazia recomendações anticépticas. Naquele momento parece que todo o machismo foi jogado pela janela.

O Show

A banda alugou uma perua. Eu viajei na parte da frente junto com um músico mais o motorista. O resto da banda viajou atrás dentro do camburão junto com o equipamento. Não havia janelas e a luz entrava pelo lado da frente da perua. Para ver a paisagem eles tinham que observar por traz de nós. Os músicos espalhados pelo chão da perua foram fazendo festa e aprontado até chegarem no local. Um deles tinha comido algo forte e não parava de soltar gazes fedorentos terríveis. Tivemos até que parar, pelo menos uma vez a perua na estrada para abrir as portas de trás e ventilar um pouco :-)

Quando chegamos na cidade pudemos ver pequenos cartazes colados por todo lado. Diziam não percam a banda Abhorrent, conforme anunciado na MTV. Grande mentirosos!

Chegamos muito cedo na cidade. O teatro ainda estava fechado. Demos uma voltinha pela cidade até que o zelador do teatro chegasse. O teatro era muito ajeitadinho com um camarim de primeira, grande, muito limpo e com lâmpadas em volta dos espelhos.

Duas peruas velhas, bem coloridas, todas pintadas com spray chegaram. O povo que chegou tinha um visual animal. Os caras pareciam uns vikings, grandes, cabeludos e cheios de tatoos.

Um deles, um gigante veio na minha direção e perguntou se eu era um dos músicos da banda Abhorrent. Apresentei-me como empresário e chamei a moçada da banda para as apresentações. Aparentemente, comparativamente, o pessoal do Abhorrent era formado por uns músicos baixinhos e raquíticos, muito jovens para este tipo de música.

Já no camarim o pessoal do Abhorrent mostrou toda a insegurança do mundo. Eles achavam que no palco seriam massacrados.  Eu falei que eles não deveriam ter medo nenhum e que o negócio era subir no palco e dar o melhor de si e pronto.

Fui conversar com o pessoal do som. Estava fazendo uma média com o técnico de som para garantir que a “minha banda” tivesse a melhor mixagem possível enquanto observava as bandas de abertura passarem o som. Apesar do visual pesado, o som das bandas era razoável mas, não era tudo aquilo. Existia muita banda brasileira melhor.

Chegou a hora do Abhorrent passar o som. O baterista, Fabrício, sentou-se no banquinho da bateria e ficou lá movendo o traseiro,  procurando uma posição adequada. As outras bandas só olhando. Fabrício, insatisfeito, tirou o banquinho de lado, trouxe uma cadeira e colocou-a meia em diagonal e  novamente ficou com o traseiro buscando uma posição. Um músico de uma banda deu uma pequena cotovelada no companheiro, tipo “olha só o que ele está fazendo”.

Fabrício depois de deixar o povo na expectativa por um tempão, parece que achou a sua posição e, para espanto de todos tirou do bolso uma “borboletinha” metálica e começou afinar a bateria. Além de ser um ato incomum, o fato de a bateria não ser dele e sim de uma das bandas poderia passar a idéia de que o “gigante” dono da mesma nem sabia afinar seu instrumento.

O técnico de som olhou para mim com cara de impaciência e eu tive que devolver um sorriso amarelo. Depois de perder mais um tempão acertando o posicionamento da bateria e dos pratos, Fabrício, um garoto jovem e magricela começou tocar. E como tocava! Quebrou tudo! Ele era fã do baterista de uma banda sueca chamada Meshuggah e, tocava com muita técnica e maestria.

O baterista de uma das bandas que assistia a passagem de som, de repente levou um tapa na cabeça do amigo que estava atrás, acompanhado da frase: “Olha lá e veja se aprende a tocar”.

Eu cá entre nós, estava um pouco preocupado com Robson, o vocalista, pelo fato de ele ser negro. Na Inglaterra, em certas cidades pequenas,  existe muito racismo e no mundo do rock pesado quase não existe músicos negros. Portanto, nunca se sabe o que poderia acontecer...

Minha preocupação mostrou-se totalmente infundada e, na verdade, o show foi muito bom e sem incidentes.  As bandas foram muito amigas e seus músicos até invadiram o palco para fazer mosh.

Foi um show fantástico! A emoção foi tão grande que nem pensava em dinheiro quando alguém chegou e colou umas libras nas minhas mãos. As outras bandas  ficaram até o fim para despedirem-se de nós quando partimos para Londres.

Entreguei o dinheiro para a banda mas, para minha surpresa, paramos num restaurante de estrada e gastamos toda arrecadação da bilheteria em hamburgers e bebida.

Acreditem-me quando digo que esta foi um aventura maravilhosa e inesquecível que ficará para sempre aqui na minha memória...

Nota: Quanto ao gayzinho, ele se foi, como prometido, naquela sexta-feira e, nunca mais ouvi falar dele. Algum tempo depois, num Natal, recebi um email de felicitações da banda Abhorrent que dizia alguma coisa assim:

“Feliz Natal Barbieri. Olha, fique tranqüilo que aquela história do gayzinho ficou só entre nós (e toda Brasília)” :-)

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Banda de Brasília faz show na Inglaterra
Matéria publicada por Barbieri na revista Dynamite Magazine Número 29 em 1997

"A banda Abhorrent que faz um thrash metal pesadíssimo e competente ficou parte hospedada aqui em casa. Eles tocaram, como banda principal, no Red Rose Theatre que fica numa cidadezinha chamada Rugeley no norte da Inglaterra. O show, que teve o suporte das bandas inglesas Pine e Fracture foi muito bom, com a moçada detonando uma pauleira monstruosa. O público não foi dos melhores por ter sido um show numa cidade pequena, mas aqueles que ali estiveram pularam do começo ao fim e saíram suados e satisfeitos.

Eu fiquei surpreso com a qualidade do som desta banda brasileira que, desconhecia até então. No show, destacou-se o baterista Fabrício que bateu rapidíssimo, mas com uma criatividade que deixou o povo de boca aberta. Robson, o vocalista cativou os presentes com um vocal perfeito enquanto o Leandro no baixo energeticamente contaminou o público com sua movimentação de palco incessante.

O repertório consistiu na sua maioria em músicas do seu último álbum chamado Rage acrescida de material extraído do seu live demo recém gravado. Eu confesso que fazia muitos anos que eu não me divertia tanto, viajando on the road com a banda na perua alugada, sendo apresentado para todo mundo como o empresário da banda e desempenhando o papel de stage manager, certificando-me de que a moçada teria a melhor mixagem de palco possível.

Eu só espero que aí no Brasil o público descubra e prestigie o Abhorrent que definitivamente merece seu lugar ao sol no cenário do rock brasileiro e, porque não dizer, mundial."

Biografia

A banda brasileira de death/trash metal Abhorrent foi formada em Brasília em 1988 mas, foi somente em 19996 que seu primeiro álbum chamado simplesmente Rage viu luz do dia e, nesta época o vocalista Robson Aldeoli era o único músico fundador ainda atuando na banda. Em 1999, a banda contribui com um cover da música "She Wolf" para o álbum A Tribute to Megadeth. Passariam mais dois anos antes que, uma nova formação incluindo Marcus Vireoli (guitarra), Hudson Andre (guitarra), Leandro Soares (baixo), and Carlos Fibrian (bateria) fosse criada para a gravação em 2001 do Long Play entitulado Caution! Strong Irritant.

Antonio Celso Barbieri

 

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A banda Abhorrent na época do álbum Rage

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