Jorge Mautner, a nova tragédia (1972)

Mautner, a nova tragédia
(Paulo Guimarães Ferreira*)

 


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Jorge Mautner, escritor , letrista, diretor de cinema. No Brasil, entre 1962 e 1966, publicou quatro livros: “Deus da chuva e da morte”, “Kaos”, “Narciso em tarde cinza” e “Vigarista Jorge”. Viveu cinco anos em Nova York, viajando algumas vezes para a Europa. Em Londres, escreveu letras para músicas de Gilberto Gil, e realizou o filme “O Demiurgo”, com a participação de Gil e Caetano Veloso. Paulo Guimarães Ferreira fez a entrevista, no Rio.

P – O que determinou o seu envolvimento com o cinema e a música e qual sua proposição nestas formas de expressão artística?
R – Fundamentalmente, a mesma dos meus livros. Mostrar uma visão pagã do mundo, fomentar a imaginação e o delírio, proclamar o reinado da fantasia, do jogo, acabar com o drama, a dramaticidade, e inaugurar a tragédia. Meus livros, canções, filmes, palestras são as diferentes formas de um mesmo conteúdo, que é a visão beat-hip-pagã-trágica-delirante do mundo. Meus irmãos são Artaud, Nietzsche, Marquês de Sade, Andy Warhol, Willliam Burroughs. Eu continuo a mensagem de Zaratustra com candomblé e rock, África e New York. Sou brasileiro e por isso nasci cercado de magia, o Brasil é o Oriente. A minha filosofia é o Caos, onde o acaso e a incerteza são predominantes. Tudo tem que ser reinventado.

P – Partindo da proposição da reinvenção, encontramos hoje, na América do Norte, o nascimento de uma nova linguagem e de novos valores sociais nas relações de comunas hipis. Qual foi a sua experiência com esses grupos sociais e a seu ver o que há de importante nessa nova relação?
R – O mundo hip (hipster) – não confundir com hippie – congrega milhões. Já é um país dentro do país, subdividido como todo país em tribos distintas e específicas. Já vivem o século XXI. Todas as mutações, todos os amores e ódios reinventados, todas as incríveis revoluções culturais que o mundo descentralizado e tecnológico oferece ao homem. É o abismo e a fronteira. Os mais sensíveis, profundos e conscientes elementos da sociedade dos Estados Unidos vivem neste limiar, onde a vida se confunde com a morte em experiências que lembram o transe profundo do homem grego na época da tragédia. A salvação como arquétipo judaico-cristão é dissolvida e em seu lugar surge o Oriente hindu, onde tudo são faíscas, desintegração, vivência cósmica, despedaçamento. É a profunda vivência do niilismo, e, segundo Heidegger, só superaremos o niilismo se o vivenciarmos em toda sua plenitude. De Janis Joplin a Jimi Hendrix, das unhas pintadas de negro, de mil habitantes do underground, até os festivais e as comunidades que congregam estas diferentes e estranhas tribos, ecoou a canção de um Oriente, de um paganismo selvagem que, como na tragédia de Ésquilo, conquista a vida porque ousa mergulhar radicalmente na morte. Romantismo extremado, agudo, novas populações com novos gestos e hábitos, collages, misturas de culturas desintegradas num suco alucinante no liquidificador da pop cultura, primeira cultura verdadeiramente democrática e socializada. Se a um pagão se perguntasse como seria o mundo cristão, acho que ele teria menos dificuldade em responder do que eu, que estou no limiar de uma cultura tão nova que me faltam as palavras certas. Só o delírio da imaginação libertada de seus entraves e repressões é que pode nos dar um relato aproximado destas novas formulações e vivências. Só a visão mágica da arte é que pode fotografar os elétrons em doida trajetória desta nova cultura. Como retransmitir a infinita velocidade com que estes processos de novas relações humanas e conflitos se dão? Só vivo da guitarra de Jimi Hendrix. Só a voz do abismo de Janis Joplin, só o meu filme e minhas despedaçadas poesias. Escrevendo linearmente é impossível para mim transmitir a quarta dimensão.

P - Qual a diferença essencial entre um “hip” e um “hippie”?
R –
William Burroughs é hip, não tem cabelos compridos, é trágico e não fala em peace. Hip e hipster são pessoas que já tem novo sistema nervoso, seu código moral, sua ética, sua maneira de aprender o significado da existência é diametralmente oposto À visão das pessoas da cultura ocidental judaico-cristã. Eles são, na realidade, os elementos mais radicalizados desta cultura. Estão na fronteira que separa estatisticamente a loucura da serenidade, o mundo da imaginação do mundo ordenado e lógico da chamada “realidade” . Hippie são crianças deslumbradas e ingênuas, por exemplo são hippies os “Jesus freaks”, que são a eterna recorrência do “revival” tão típico na cultura protestante dos Estados Unidos. Hip e hipster são músicos e outros elementos que fizeram de seu corpo e de sua alma o laboratório de todas as experiências e se colocam sempre como inquietante e permanente interrogação. O hippie é mais objeto do que sujeito, o hip ou hipster é sujeito, dançarino, Zaratustra, acima do bem e do mal. O hip é trágico, o hippie é o apolíneo. O hippie, na verdade, está em vias de desaparecimento. A sociedade, no entanto, fabricará outra forma par abrigar a necessidade da predominância do apolíneo. Mas o hip, o hipster, é o pagão do futuro, é o ser que já não mais se angustia dramaticamente com o terrível. Ele já misturou há muito tempo o terrível e o maravilhoso dentro de si, por isto ele é sempre o estrangeiro, aquele que sempre instaura a estranheza.

P – O que a cultura “pop” trouxe de mais importante para a arte?
R –
Uma relação democrática-socializada, instantaneidade e simultaneidade de comunicação. Interpretou artisticamente a civilização tecnológica dando expressão poética ao automóvel, ao ruído do automóvel, prédios, aviões, a vida nas grandes cidades, matéria plástica, indústria, arte que ao interpretar todas estas coisas, fez inaugurando um mundo e uma linguagem arquetipal, mitológica, desintegradora, anunciando a fantasia, o delírio, a imaginação. A música pop elevou a instâncias de alta vibração o mundo das aventuras de Mandrake, Shazan e Batman, o mundo dos hamburguers e das altas centrais elétricas. A música pop é a anunciadora do paganismo e do internacionalismo, da nova ética de um homem desintegrado e existindo num mundo em que a velha linearidade e reduções pragmáticas foram substituídas pelo mistério, pelo mito e pelo ritual. Ao mesmo tempo a música pop fomentando a imaginação em termos não mais dramáticos, mas mitológicos e totalizantes, aumenta a consciência e fundamenta a liberdade, meta profunda do homem através dos tempos.

P – O que quer você dizer quando diz que o Brasil é Oriente?
R -
O Brasil = Oriente, porque o Brasil é o lugar mais mágico, delirante e fantástico que há. No underground europeu e dos Estados Unidos o Brasil goza de uma posição de altíssima importância no que se refere a lugares fantásticos onde o maná da energia, do ritmo, das imagens despedaçadas e situadas para além da lógica aristotélica existem em plenitude. Admiração igual por este Brasil mágico só encontrei em relação à Índia. Mais de um hip me perguntou sequioso sobre coisas do Brasil e eu os maravilhei continuamente falando do candomblé, macumba, carnaval, influência africana tribal em nossa cultura, emanações e eflúvios do Amazonas, sensualidade erótica de paisagem irradiando sempre vibrações fortíssimas. Nós brasileiros nascemos cercados e bombardeados por uma cultura riquíssima em imaginação, delírio, fantástico, misterioso continente desconhecido, batuques, Cosme e Damião, Obas e Ogês, Exus e pombas giras, carnavais que percorrem todo ano, Portugal medieval introduzindo lendas fantásticas, Alcacer Kibir, Portugal medieval longe do protestantismo industrial inglês-americano repressor, navegadores e exploradores, Macunaíma, maracatus, tropicalismo, antropofagia, Arigó, profetas místicos como em Jerusalém, sacrificando crianças em rituais terríveis (Pedra Bonita, José Lins do Rego, Os Sertões, Euclides da Cunha), a presença constante da fantasia, a grande festa orgiástica do futebol, muito além de uma simples partida esportiva. O Brasil é tão denso em matéria prima inconsciente e formulações de vida antiprotestante e repressiva, como a Índia. Brasil e Índia estão conectados com formidável underground-hip europeu e dos Estados Unidos por elos profundos, antiqüíssimos, importantes. São as pontes de cristal e magia que interligam os mundos e planetas do inconsciente.

     *Minas Gerais (Suplemento Literário) 8 jan. / 1972.

 

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