Sérgio Sampaio: uma quase inédita ode a Brasília

Uma quase inédita ode a Brasília 
(Moacyr Oliveira Filho*)

 

Zeca Baleiro, no show que fez há duas semanas, no Teatro Nacional, deu um grande presente para Brasília: a divulgação de um CD, quase clandestino, produzido por ele, com músicas inéditas de Sérgio Sampaio.
 
Sérgio Sampaio foi um dos grandes nomes da Música Popular Brasileira, que integrou uma mágica legião de músicos vanguardistas, rotulados pela mídia de malditos, que fez muito sucesso no final dos anos 70. Faziam parte dessa legião, além de Sampaio, Jorge Mautner, Jards Macalé e, no início de sua carreira, Luis Melodia. Mautner e Macalé sobreviveram sem alcançar grande êxito de público, Melodia rompeu os limites da maldição e está aí até hoje fazendo sucesso aqui e ali, mas Sérgio Sampaio mergulhou no ostracismo até sua morte em 1994.
 
Embora tenha explodido em 1973 com seu grande sucesso Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, que chegou a virar um hit da resistência à ditadura, e gravado três LPs, Sampaio nunca se firmou comercialmente no cenário da MPB. Assumindo com intensidade o rótulo de maldito, ficou perambulando de cidade em cidade, sempre cantando sorrateiramente em bares, botequins e pequenos palcos. No final da década de 70 até meados da de 80, Sampaio vinha com freqüência a Brasília, onde tinha vários amigos, e sempre que lhe davam oportunidade, dedilhava seu violão e desfiava seu talento irriquieto nos bares da cidade.
 
O que pouca gente sabia é que a vasta obra de Sérgio Sampaio, a maior parte inédita, incluía uma homenagem a Brasília. 
 
Esta cidade já recebeu várias homenagens musicais, do samba enredo Aquarela Brasileira, de Silas de Oliveira, quando o Império Serrano elogiou a beleza de nossa arquitetura, à famosa Flor do Cerrado, de Caetano Veloso, grande sucesso na voz de Gal Costa, passando pelos rocks da Plebe Rude, pelo frevo de Alceu Valença e pelas chorumelas de Oswaldo Montenegro. Mas nenhuma delas tem a força criativa e a ironia fina da Brasília de Sérgio Sampaio.
 
“Quase que me sinto em casa, em meio às suas asas, e dablius e eles e eixos e ilhas, Brasília, cidade que um dia eu falei, que era fria sem alma nem era Brasil, que não se tomava café numa esquina, num papo com quem nunca viu”, diz uma das suas estrofes.
 
“Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer Brasília, ver o que há Paranoá, lago de sol noite luar, e olho do amor desconhece armadilha, assim viver Brasília”, emenda a estrofe final.
 
     Essa obra-prima, quase inédita, rompe as barreiras do ostracismo a que foi condenado seu autor, pela mãos de Zeca Baleiro, que numa importante iniciativa, produziu um CD póstumo com treze inéditas de Sérgio Sampaio, garimpadas aqui e ali em velhas e mastigadas fitas cassete, com gravações que seriam a base do primeiro CD do maldito compositor capixaba.
 
     Apesar de gravado em maio de 2005, inaugurando o selo independente Saravá Discos, de Baleiro, o CD Cruel é como o seu autor: quase inédito. Não se encontra nas discotecas, não toca nas rádios, não sai nas páginas dos jornalões. Quem viu o show de Zeca Baleiro no Teatro Nacional, há duas semanas, pode saber de sua existência e até comprá-lo na saída do espetáculo. Para quem não foi e ficou curioso, uma chance. Comprá-lo diretamente no site da gravadora independente: www.saravadiscos.com.br por módicos R$ 30.
 
É uma preciosidade e vale a pena. Ainda mais para quem mora e ama Brasília.

 

     *Fonte : Tribuna do Brasil
     Data : 20 mar. / 2006.

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