1987-88: CÁSSIA ELLER DO BOM DEMAIS À SALA FUANARTE

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 Fotos: Sandro Alves (1987 [circa])
 
Agora sim, eu fiquei feliz! As minhas duas imagens preferidas também devem entrar no filme sobre a Cássia Eller. Só delas terem sido escolhidas entre as cinco fotografias possíveis, eu fico muito satisfeito. Pois não haviam elencado as imagens nas quais a minha expressividade como fotógrafo também tem peso. Estas duas são aquelas nas quais há maior afinidade (poesia, diálogo de linguagem, transcriação) entre o furacão cênico Cássia e minha incipiente expressão (poética em construção) fotográfica de fins dos anos 1980." (Sandro Alves)

Cássia Eller do Bom Demais à Sala Funarte

texto e fotos de Sandro Alves Silveira - http://ssalvess.wordpress.com/

"Eu fotografei  Cássia Eller em shows antes do sucesso, aqui em Brasília. Por ocasião de uma homenagem, um ano depois seu falecimento, a Dornellas — amiga dela e organizadora do evento — não encontrou outras fotos da Cássia que fossem desse período e em cena, se apresentando  nos palcos; os fotógrafos faziam imagens tipo foto de moda dela e coisas variadas (em casa com os amigos, em um carrão hippie). Mas nos shows, não iam fotografar, não que eu me lembre. Existem, entretanto, vídeos interessantíssimos!

"Era uma delícia registrar aquela monstruosidade cênica e de voz. Era toda quinta-feira no Bom Demais (bar de Brasília). Quando ouvi o disco dela levei um susto. Eram outros arranjos e eu não estava vendo ao vivo aquele furacão cênico, é claro! Em muitas imagens a fisionomia ficou distorcida por recursos expressivos da linguagem fotográfica. Ela me sacaneava muito, dizia que não era feia daquele jeito. Eu não fui amigo, não era uma relação pessoal, era só contato de fã mesmo, no gargarejo.

"Uma vez disse a ela: “Agora eu entendo porque Deus não me deixou viver a adolescência nos anos 1960, para ver os Beatles, Hendrix, Mutantes etc. É porque ele tinha reservado para mim a Cássia Eller.” Primeiro ela disse que não estava à altura deles. Eu neguei. Então ela emendou dizendo que ninguém sabia quem era ela. Ao que respondi: “Por enquanto!”. Não precisava ser nenhum vidente, aquela mulher em cena era uma coisa muito fora do comum! Me sinto privilegiado. Fiz essas fotos da Cássia, ganhei um prêmio escrevendo sobre fotografia em Machado de Assis e tenho um desenho do Arnaldo Baptista com uma dedicatória! O que mais? Ah! Fui no show do Paul MacCartney! Como já tenho um filho maravilhoso, não sobra quase espaço na minha alma para plantar uma árvore… Mas vou plantar, vou plantar em um esquema ‘Let it bed’!".

 

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Cássia Eller, o percussionista Bani e, ao fundo, Eugênia, em 1987, no bar Bom Demais, fundado por Cristina César e Cristina Borracha
Foto: Sandro Alves

“É graças ao Hitinho, que fez um pedido, que temos fotos não apenas da Cássia, mas também de toda a banda e do público, foi ele que pediu, insistiu, e defendeu essa ideia... Eu não queria...”.


(...) “Graças a ele temos fotos dele e de uma galera enorme, a banda e o público”. (Sandro Alves Silveira).

Início da carreira: em 1987, Cássia Eller canta no bar e restaurante Bom Demais, na 706 Norte, palco onde a cantora se apresentou repetidas vezes e conquistou o público brasiliense, antes de começar sua trajetória nacional. Cássia Eller, o percussionista Bani e, ao fundo, Eugênia, Bom Demais, fundado
por Cristina César e Cristina Borracha 

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Na guitarra, o falecido Hiltinho. Acho que ele está com uma guitarra Vantage, que eu emprestava pra ele tocar nos shows que fazia com a Cássia. Hoje esta guitarra está com o ‘Frango’, do Galinha Preta. RIP Hiltinho! (Felipe Gelbcke Gubert)

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Cássia Eller na Sala Funarte
17 set. 1988 – 21 h, por Mário Pazcheco

“Cássia respira e vive música 24 horas por dia.” (Renato Russo)
“Eu escolhi ‘Música Urbana 2’ para gravar porque é um blues superdiferente.” (Cássia Eller)

Cássia Eller, uma das mais belas vozes da cidade, é mezzo-soprano. Ela nos últimos meses não saiu de nossas páginas, por conta de shows (Ondas Tropicais,
com Renato Matos), apresentações em bares (Entrecôte) e concertos.

Na adolescência, dividia os estudos com aulas de canto operístico – era ela quem cuidava dos três irmãos mais novos, mas também tocava surdo num grupo de
samba e cantava no Massa Real, um trio elétrico. Isso tudo em Brasília.

Afinada, versátil cantora, ia do blues ao samba e do rock ao soul. Cássia é o que a cidade guarda de melhor, em termos de intérprete. Carioca criada em Brasília,
e com pretensões de tornar-se atriz, ela se tornou a cantora, depois de um bem-sucedido teste para o show Veja Você Brasília, de Oswaldo Montenegro. Mas
se mostrou tão versátil que ganhou mais espaço no palco, de onde finalmente não pretendeu mais sair.

No escurinho da Funarte

Repertório: “Lullaby” e “Labirinto”, parceria com Márcio Faraco, mais canções de João Bosco e Aldir Blanc, Arrigo Barnabé, Ermelindo Neder (“Pô! Amar é Importante”), Paulinho da Viola, Beatles, Nina Simone, The Police, Belchior, Itamar Assumpção, Boccato, Márcio Manga, e algumas surpresas recicladas, sempre novidades no repertório, mais também novos recursos cênicos, acompanhada por Dunga, contrabaixo; Tom Capone, guitarra; Mac William, bateria. Assim Cássia Eller botou o pé no palco da Funarte, para três apresentações, com vontade de botar o pé na estrada.
Para essas três apresentações, ela apoiou o repertório no compositor brasiliense Márcio Faraco, de quem canta quatro canções.

Curto fragmento amnésico

Eu não era um estranho no ninho, já tinha visto algumas apresentações de Itamar Assumpção, conhecia o rock feito pela vanguarda paulista, cujo repertório estava nos botecos, só que eu não deglutia o humor do Grupo Rumo, ou do Premeditando o Breque. Acho que a Cássia Eller gostava deles mais pela malandragem, brasilidade, humor, e temas como o da música “Rubens”.

Então, eu odiei a sua apresentação na Funarte. O lugar era exíguo e escuro, e não havia ameça de “apagão”. No palco, os integrantes se esbarravam uns nos
outros, e se desculpavam, na maior educação, aos sorrisos. Enfim, desajeitados, desajustados e apertados, sem nenhum impacto cênico. Pode ser que era pelo
Domingo, pode ser que pelo cansaço.

Mac Williams talvez estivesse à frente de seu tempo, pois tirava um timbre mecânico-tecnológico sussurrante, mas meio sem vida, coisa meio industrial.

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Talvez os instrumentos estivessem altos. O garoto da guitarra era alto e bem-vestido.

Sua guitarra era daquelas de pintura metálica. Talvez Tom Capone tenha recomposto tudo!

Odiei a versão de “Oh! Darling”. O show foi incrivelmente heavy! A apoteose do sinistro ocorreu na lullaby de Lennon & McCartney – simplesmente um solo
metaleiro rápido em “Oh! Darling”! Fui nocauteado pela minha insatisfação: a versão em português, “Namorada”, pelo Akneton, era mais solar. Mais o tipo de
som que eu ouço, até agora.

Minha crítica ao telefone com o editor do JOSÉ deve tê-lo agradado. “Se soubesse que haveria outro show de Cássia Eller nesse fim de semana, teria publicado a
sua crítica!”

Mas, para esvaziar a bola, Irlam Rocha Lima, no Correio Braziliense, Retrospectiva 88, o listou como um dos melhores shows da temporada daquele ano: O Brilho
da Cássia, O Fiasco da Legião.

Artigo consultado, Pérolas da vanguarda – Márcia Lins, JOSÉ – Jornal da Semana Inteira 17 a 23 set. / 1988
 
Na capital do país, Tom Capone começou a tocar nas bandas que acompanhavam cantoras como Renata Arruda e Cássia Eller

Pseudônimo de Luís Antônio Ferreira Gonçalves (†) , Tom Capone surgiu no Canecão, quando, vestido de terno e chapéu para um espetáculo, parecia um
mafioso. Tom, na ocasião, empunhava uma guitarra, instrumento que começou a dedilhar ainda adolescente, em Brasília, assistindo aos ensaios da banda Peter
Perfeito, na qual seu irmão era músico.

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Os integrantes do Vagabundo Sagrado querem seduzir o público carioca fundindo rock com forró No centro, Hilton Costa, carinhosamente chamado por Cássia de “Formiga”, adorava a dupla beat do Guará, seus amigos Fernando e Firmino. Foto: Júlio Fernandes

9 de maio de 1993 – “(...) A banda surgiu em 1990, com três integrantes, que ensaiavam oito horas diárias, no Edifício Rádio Center. Após um ano experimentando arranjos que misturavam música brega, erudita, sertaneja, rock, e até jazz, o grupo fez o primeiro show no Bom Demais, já com seis integrantes. ‘Não somos um grupo convencional de rock, tocamos até bolero’, explica o tecladista Daniel Baker. A boa receptividade do público se estendeu a outras apresentações. Depois das noitadas em bares, foi a vez de a banda se apresentar nas principais salas de teatro da cidade, como a Martins Pena, do Teatro Nacional. ‘Tocamos para 40 pessoas num boteco, e para 25 mil na rampa do Congresso’, conta Ivan Sérgio, compositor e cantor.
O grupo tem 20 música ensaiadas. Os maiores sucessos, badalados nas rádios da cidade, são ‘Mulheres’ e ‘A Lenda do Vagabundo Sagrado’, ambas de autoria
de Ivan. No grupo, a letra das músicas é o carro-chefe da harmonia, que determina o ritmo de cada composição.”

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Cássia Eller na Casa dos Artistas
Gilson Caroni Filho*

Quatro linhas e um funeral

29 dez. / 2001 - Às 19h05, morria Cássia Eller. Dez minutos depois, corpo ainda quente, a maioria das edições on-line dos grandes jornais e a página de um grande portal ofereciam a seus leitores-usuários discografia, vídeos e biografia da cantora e compositora. Trinta e nove anos e uma trajetória musical eram redutíveis a um número ligeiramente superior de linhas.

Mais uma lição sobre a lógica da sociedade contemporânea e a dinâmica de suas mídias. A vida quando transformada em notícia nada mais é que um mosaico sem sentido. Fragmentada, diluída numa sucessão simplória de factualidades, a informação, se não desborda em análise dos seus elementos constitutivos, é tão indesejada quanto a ausência dela.

Há muito, observamos a banalização da vida na sociedade espetacular: política, sexo, economia, arte e história se tornaram os apêndices de uma grande revista semanal de entretenimento. Devem ser assimilados, metabolizados e secretados pela consciência desmemoriada. Só assim retornam como show.

Nada constitui novidade. Desde Debord e dos teóricos de Frankfurt, tais temas têm sido repisados. O dado novo é o fim da morte. Não como constatação óbvia de que começamos a morrer quando nascemos, ou, numa apreensão dialética de que a vida traz em si o embrião da sua negação. O que o circo midiático nos oferece é a morte como fato diverso. Com a possibilidade de reapresentá-la múltiplas vezes e celebrá-la como águas passadas numa retrospectiva de final de ano.

Nesse marco, gostaríamos de propor uma inflexão. No esvaziamento vital imposto pelas necessidades de mercado, perdeu sentido falar em biografias. Essas requerem pesquisa meticulosa, um certo cuidado com o tempo narrado, e o diapasão entre vida e obra do biografado.

Atrapalhando os fogos


O que assistimos é algo muito mais assustador do que imagina o observador de aparências. A necessidade de renovação não obedece a um ciclo biológico e/ou histórico. Início, meio e fim são ditados pelo valor de troca. O mercado detesta os longevos, que teimam em contrariar a obsolescência programada. É como se dissessem aos que brilham na ribalta: “Por favor, façam seus shows e morram em seguida. Morram, morram.”

O político bem-sucedido e sua primeira eleição. O cantor e seu primeiro sucesso. O artista e seu primeiro papel. O que esses, entre muitos, têm em comum? Assim que ascendem, escrevem a primeira linha do obituário que a mídia freneticamente solicita. Deixarão para a posteridade não uma obra, mas um suplemento especial ou uma nota de pé de página. Nunca a transcendência esteve em patamar assim tão rasteiro. Esse é o preço do picadeiro. A sua velocidade oculta o grande vazio da imediatez. Estar “em tempo real” é se equilibrar em algum ponto de fuga da história concreta.

O homem comum, lendo essas linhas, deve se sentir a salvo da cultura que a nada poupa? Poderá dizer que, à ausência de projeção, restou-lhe uma sobrevida tranquila? Talvez, caro leitor, mas não se anime! Sem a legitimação espetacular, quem a não ser a sua mãe, essa fonte muito pouco confiável, pode lhe assegurar que você nasceu?

Se os fãs mais ardorosos da roqueira acham que a mídia lhe foi parcimoniosa no “réquiem dos especiais”, lembremos que o acaso ignorou a grade de programação. Ao ter uma parada cardíaca a dois dias do réveillon, Cássia Eller morreu na contramão atrapalhando os fogos. Que, convenhamos, eram a próxima atração.

(*) Professor de Sociologia da Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso, Rio de Janeiro

 

 

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