1980-81: “NO CRUZEIRO, MEU PRIMEIRO CONTATO COM O SOM PESADO”

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   “No Cruzeiro, meu primeiro contato com o som pesado”

   1978. De Taguatinga para o Guará, no Distrito Federal, entre os amigos, eu divulgava os discos do Kiss.

   1979. A eletricidade do Aborto Elétrico abre caminho e inspiração para várias bandas, que surgem nos colégios. Até então, grupo de rock com guitarra, só em revista e clipe de televisão.
1980. O rock estava morto. A ordem das gravadoras era tocar banjo, gaita e rabeca.
   A Patrulha do Espaço (SP) e Tellah (DF) foram os primeiros grupos a lançar um LP independente de rock. Isto quer dizer que os discos não foram muito longe...
   Em matéria de rock, remanescentes do meio musical dos anos 70, em atividade: Ligação Direta, Marciano Sodomita, Mel da Terra. Da música brasiliense popular: Rênio Quintas, Renato Matos, Toninho Maia, Beirão, Tonicesa Badu, Liga Tripa. Tudo, entre outros, claro.
   Porque poderia ser injusto: as banda dos 70s – A Brisa, A Margem, A Nata, Biscoito Celeste, Carênciafetiva, Grupo Saga (onde participou o falecido e glorioso ator Aloísio Batata), O Bueiro, O Portal, Sol Noturno – não conseguiram passar para a década de 80!
   Entre as poucas pessoas deste cenário, Serginho Pinheiro, vocalista do Mel da Terra, foi quem me trouxe informação importante sobre o rock dos anos 70, na cidade.
   Da década de 70, somente o excelente progressivo Tellah e o jovial folk Mel da Terra conseguiram lançar discos, no início dos anos 80, em apresentações esporádicas, à frente.
   Em 1980–81, eu tinha 16 anos. Estava no 2º Grau Escolar. Nessa época, no Guará, a única tentativa de banda de rock que eu conheci foi o Rocha do Planalto. Era um grupo que ensaiava na garagem da casa do Zezé, na QE 36. O engraçado é que o vendedor de algodão doce, um carioca, às vezes sentava no banquinho da bateria e tocava com eles. Na guitarra verde estava o Zezé; no contrabaixo, o Zenas de Oliveira (†); e de vez em quando, na guitarra solo, ou o Amarildo, ou o "Soneca". Eles tinham algumas canções próprias, como Muros de sal e Formiguinha – este um rock clássico, cuja autoria até hoje é disputada. – De repente, surgiu a grande chance de o Rocha do Planalto mostrar o rock´n'roll guaraense. Na quadra da Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro, a popular e conhecidíssima escola de samba da cidade vizinha.
   Na minha cabeça, o Rocha do Planalto era um grupo de roqueiros da pesada, em todos os sentidos: eles me mostraram a capa do disco Meddle, apontaram os braços do Roger Waters, e me disseram: Ele se aplica! – Eu menino cresci com medo da capa do disco.
O trio Zenas, Zézé e Betinho ia tocando com quem pintasse, quem tivesse aparelhagem. Nessa época, tentaram ficar com a guitarra Giannini Stratocaster novinha do Sidney. A encrenca estourou lá em casa.
 
   Ainda no Guará, vizinho do Rocha do Planalto, existia um grupamento roqueiro-ecológico chamado UVA, criado no início dos anos 1970. Uma variante das mais conhecidas do significado do acróstico UVA foi "União dos Vagabundos Alcoólatras", enquanto os seus integrantes preferiam "Única Visão do Amor".
As tardes de domingos eram um tédio no Guará. Praticamente tudo na cidade era distante, e carro próprio era artigo de luxo, para poucos. Foi quando testemunhei um fenômeno de sinestesia: além do Rocha do Planalto ir tocar na Aruc, o coletivo da UVA ia na cola!
Não sei como chegamos ao Cruzeiro, se de ônibus ou de carro. Mas o “Billy” pilotou sua Yamaha Tt 125 branca zerada.
   Na quadra da Aruc, a apresentação do Rocha do Planalto foi de mal a pior. A corda da guitarra do Zezé arrebentou. O Zenas, que não era baterista, atravessou, e ninguém se entendeu. Cada um tocava para si. – De repente, o zumbido da Tt do “Billy”, que insistia em atrapalhar o som, ainda mais, silenciou: o motociclista não viu um poste de concreto tombado no solo, coberto pelo mato. Espetacularmente, capotou, e foi atirado da moto! Seu irmão Pedro “Balla”, que assistia à apresentação do Rocha, gritou desesperado: Meu irmão!! – Corremos e pulamos o alambrado de tela verde em socorro ao nosso amigo. “Billy”, com o orgulho ferido, levantou-se, cheio de dores. Desempenou o guidom da moto, e foi embora para o Guará. Mais tarde, ele nos disse: Duro, duro mesmo, foi ficar debaixo do chuveiro. Todo esfolado.
 
Quando voltamos à quadra da Aruc, encontramos o Sepultura, que apresentava a música Paranoia. Fiquei impressionado com a performance da plateia, e com Izamar, o vocalista. Ele usava uma blusa de crochê preta, com uma cruz branca, na altura do peito. Ele se impulsionava, saltava para o alto e caía ajoelhado, enquanto gritava ao microfone. – Um bêbado dançava, deixou a garrafa cair. Izamar cortou-se, enquanto recolhiam os cacos. – O desempenho do baterista era impressionante. Ivo, conhecido como “Vôvô”. Ele agitava e tocava rapidamente, e pesado. Usava um boné e se parecia com o vocalista do AC/DC. – No contrabaixo estava Robson, de longas botas. – Na guitarra com pedal, Eduardo. – Essa foi a única vez que vi o Sepultura ao vivo, apesar de anos depois conhecer melhor os integrantes. Esta apresentação me marcou para sempre, pois foi o meu primeiro encontro com o rock pesado, além dos discos. – Fomos para casa nos sentindo meio tristes, humilhados por causa da performance furiosa dos caras. Mas muito em breve o rock pesado de Brasília conheceria sua trinca de ouro: Fusão, Extremo e Nirvana. Desta feita, voltaríamos à quadra da Aruc em melhores condições de apresentar um rock made in Guará!


 

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