1986: Renato Russo um tumultuado poeta do rock

  Um tumultuado poeta do rock

(Maria Silvia Camargo*)

 

foto: Rogério Reis

Renato Russo: a cabeça pensante do rock em novo disco

Ele sempre foi considerado figura de ponta no núcleo das cabeças pensantes do jovem rock'n'roll. Mas nunca apareceu muito para falar sobre isto. Seu comportamento no palco e sua pouca paciência para com a tietagem também já lhe valeram os mais variados títulos: "maluco", "ermitão", "estrela". Mas Renato Russo, vocalista e líder da Legião Urbana, não liga. Mesmo sem atuar com a sensualidade de um Paulo Ricardo, do RPM, a sexualidade de um Cazuza ou as gracinhas de um Roger, do Ultraje, Renato é ídolo que no primeiro LP já vendeu 96 mil cópias e agora espera muito mais para o lançamento do disco Dois. Com fama de genioso no showbiz, ele é bem diferente de perto. Cheio de energia e animação italianas, contidas no seu lado Manfredini - sobrenome de nascimento - que o transformam rapidamente no doce "Júnior" ou "Juninho", como é conhecido na família e nos vizinhos da Ilha do Governador, Rio, onde nasceu.

De "Juninho" a "Russo" foi um duro caminho. Mas Renato, apesar de seus 23 anos - há quem jure que ele tem 26 -, começou cedo. Aos quatro já mostrava fortes tendências musicais, chorando toda vez que lhe tiravam o rádio de perto. "Quando meus pais saíam, minha tia Socorro ficava comigo, namorando na janela e ouvindo Neil Sedaka e Paul Anka aos berros", diverte-se. Aos sete anos, Renato e a família (o pai, economista; a mãe, professora de inglês, e uma irmã mais nova) foram morar nos Estados Unidos. Lá Renato comprou todos os discos dos Beatles e tornou-se fã compulsivo do LP do Festival de Woodstock. "Meu tio Cláudio adorava som e engenharia de áudio. Eu queria fazer como ele, ter modelos Revel e flâmulas na parede do quarto", explica o adolescente precoce. A esta altura Renato já mexia em todos os discos clássicos do pai e nos livros da mãe, formando coleções até hoje invejadas pelos amigos. Se ele era introspectivo? Não. "Eu aproveitava os dias de chuva", explica. Na verdade, uma das lembranças mais fortes da vida de Renato foi a infância passada entre carrinhos de rolimã e farras em sua casa no sossegado bairro de Bananal, na Ilha, na mesma casa onde Renato vive hoje ao lado dos avós e dos primos, a quase duas horas de distância da Zona Sul do Rio.

LÍDER EM LOUCURAS - Dois anos em Curitiba e a mudança para Brasília aos 11 anos marcaram seu gosto pelo excesso de espaço e tranquilidade. "A cidade me faz mal", diz ele reclamando do Rio e de São Paulo. Mas foi em Brasília que Renato encontrou o agito. Lá tocou piano e violão - sem nunca ter aprendido - até descobrir as maravilhas de uma banda punk. "Sempre quis ser igual aos Beatles, ter uma banda, mas achava impossível porque não sabia tocar nada. Daí surgiu o punk, que eu ouvi quando todos começaram a gostar de disco music, e pensei: "Ah, pra fazer quatro acordes, até eu".

Renato formou a primeira banda de Brasília, o Aborto Elétrico, se tornando líder de uma série de iniciantes no mesmo caminho. "O pessoal da Plebe Rude, do Capital Inicial e da Legião Urbana, todos éramos da mesma turma", conta Philippe, guitarrista da Plebe Rude. "E como Renato foi sempre o Renato, eu sempre o admirei", completa. "Ele era meio nosso irmão mais velho", conta Dinho, vocalista do Capital Inicial. Desta época de roupas rasgadas e música agressiva, os garotos guardam diversos e célebres encontros com a polícia e brigas com os pais. "Meus pais me achavam muito infeliz, mas nós nos divertíamos bastante", conta Renato enfatizando o caráter ingênuo e experimental do movimento.

NOITES DE DESCOBERTA - Entre os amigos, Renato também se destacava por ser um dos poucos a financiar as próprias loucuras. Professor de inglês desde os 17 anos, funcionário do Ministério da Agricultura ou estudante de Comunicação Social do Ceub, ele nunca abriu mão de inventar experiências e descobertas. "Depois que o Aborto acabou, ele abria os shows onde a gente tocava, sozinho com seu violão. Tocava suas composições que eram bem românticas e sensíveis", conta Philippe. "Era comum na turma patrulharmos uns aos outros com a coisa de ser punk", conta Dinho, do Capital. Mas o Renato já era diferente e respeitado. Hipersensível, cheio de reações fortes de amor e ódio, ele sempre foi meio ermitão, meio excêntrico. Ele ficava um tempão quieto", acrescenta Dinho. Aqui já nascia o apelido Russo, "minha homenagem a Jean Jacques Rosseau, Henry Rosseau e Bertrand Rusell", explica o próprio Renato.

Foi justamente por sempre fazer só o que quis e com forte paixão que Renato ganhou fama de maluco: "Eu sei que tem gente que projeta suas fantasias mórbidas em cima de mim e diz que já tentei suicídio muitas vezes. Mas é que elas não entendem que às vezes eu vejo o que quase ninguém vê", diz ele, citando a si mesmo na música Quase sem querer, do LP Dois, lançado semana passada.

Suas experiências - sempre relacionadas com a mais recente leitura do compositor - variavam bastante. Às vezes Renato ficava quatro dias sem comer para ver como iria se sentir, ou procurava ficar um mês sem mentir. Enquanto isso aprofundava-se em leituras sobre alguns de seus ídolos prediletos: Rimbaud, Renoir, Debussy ou Ravel. Nestas fases, ele experimentava a pintura. Consumia dias de trabalho com telas debaixo da chuva ou misturando tinta à urina. Pesquisava magia, tarot e astrologia e experimentando várias correntes místicas. Isto, junto a muita bebida.

"Nunca bebi pelo gosto, mas para ficar louco. Bebia Cointreau em copo de requeijão", revela. Foram algumas destas experiências que levaram Renato ao hospital. "Mas isto foi o passado", diz ele. "Parei com tudo. Era um movimento muito egoísta da minha parte, enquanto todos se preocupavam comigo", explica ele.

A ALMA NO DISCO - Hoje Renato passa a maior parte do seu tempo trabalhando, lendo, escrevendo e compondo no silêncio da Ilha. "O Renato Russo é o que dá entrevistas e batalha. O Manfredini fica dormindo o tempo todo", diz ele, enfatizando os estímulos de Dado Villa Lobos, Renato Rocha e Marcelo Bonfá, seus companheiros na Legião Urbana nos trabalhos que faz. "Aliás", diz ele "não queria dar esta entrevista sem a banda de jeito nenhum, a gravadora é que insistiu", afirma, exaltando seu amor e afinidade aos amigos. Sua fidelidade explica a falta de interesse por badalações: "A coisa que eu mais odeio no mundo é falsidade, tipo ficar rindo para quem eu não gosto ou dando explicações para pessoas. Elas que se danem", diz. Seu tipo apegado e romântico explica a convivência mais estreita com uns cinco ou seis amigos de quem não se separa.

Mas no momento Renato não tem disposição nem para os amigos. Sente-se exausto pelo trabalho de lançamento de Dois, que o consumiu por mais de um ano de trabalho. Durante todo este tempo, Renato compôs, ensaiou, sugeriu e mudou capas, em ritmo frenético. Dizem que o trabalho da banda sempre oscila entre a simplicidade - contratando pouca gente para a produção e cuidando pessoalmente de tudo - e a onipotência de cuidar de cada detalhe. "Mas o meu disco é que exprime tudo", explica mostrando as letras das músicas. Em Dois, as letras românticas e líricas que falam de desencontros amorosos (como em “Andrea Doria” ou “Acrilic on Canvas”) sugerem uma recente decepção amoroso, mas Renato é radical quanto ao assunto: "Não penso em amor. Acho que ainda sou muito egoísta para ter um relacionamento honesto com alguém", explica. Seus truques, quando se sente sozinho ou triste, são ouvir Quase sem querer, faixa do último disco, ou dormir. "Todos os meus amigos dizem que devo fazer análise porque sou exagerado demais", sorri.

A seu respeito, os mesmos amigos que se preocupam, revelam uma paixão sem medidas. O escritor Marcelo Rubens Paiva, amigo de Renato há dois anos - quando ele formava a Legião Urbana - explica nunca ter visto alguém " tão perfeito em tudo". "O Renato inventou um jeito de dançar que hoje todo mundo copia, mas só quem o viu ao vivo, dançando com o tripé do microfone daquele jeito meio 'sexualidade reprimida', sabe a força que ele tem. Depois tem a originalidade de sua voz e uma composição infinita, que não esgota nunca. Agora, como amigo ele é um doce. Grande contador de histórias, supercarinhoso. Sei que ele parece agressivo, mas esta é sua sensibilidade", diz. Renato recusa os elogios. Diz achar que sua maior importância é estar fazendo algo. "E mostrando que todo mundo que quiser, pode fazer igual".

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