Apagão, Nômades e Espíritos Zombeteiros... Um choque monstro contra a Lei do silêncio


APAGÃO, NÔMADES E ESPÍRITOS ZOMBETEIROS... UM CHOQUE DE MONSTRO CONTRA A LEI DO SILÊNCIO
 
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"Nós éramos as pessoas que não saíam nos jornais. Vivíamos nos espaços em branco no final da página. Isso nos deu mais liberdade. Vivíamos nas lacunas entre as histórias.” – Margaret Atwood

Michel Aleixo
“Esse apagão tem alguma relação com a Lei do Silêncio?”, perguntei ao técnico da CEB enquanto ele corria, de um lado para o outro, à procura da caixa de força para tentar reestabelecer a energia do Teatro Dulcina. Jurou que não: “É um fusível cara, a gente vai resolver”, disse com um sorriso nervoso enquanto iluminava descompassadamente o corredor escuro do subsolo com seu chapéu-lanterna. “Você precisa entender cara”, completei. “Somos nós contra eles e você precisa assumir um lado. Hoje estão levando os maconheiros com violão, amanhã podem ser seus filhos!”. Ele ficou em silêncio tempo bastante para ficar claro que não entendeu completamente meu recado. Nos despedimos com um tapinha no ombro.

Isso aconteceu em algum momento da noite de domingo, 17 de janeiro, Ano de Nosso Senhor de 2016. No local transcendia, com quatros horas de atraso, o Choque de Monstro, terceiro ou quarto show de lançamento da Lombra Records. A estratégia de se relançar tanto quanto a Gretchen provara mais uma vez ser um sucesso. Especialmente, porque na ocasião, a parceria com a Chezz Records estava oferecendo aos 500 pagantes – lotação da casa – a fina nata do rock: Almirante Shiva, Magodiabo, Valdez, Chapa Jam e os norte-americanos do Radio Moscow.

Desenhado por Oscar Niemeyer, o Dulcina está há 30 anos encrustado no Conic como uma casamata da contracultura brasiliense. Infelizmente, a faculdade de artes cênicas que funciona no local está afundada em dívidas. As portas só continuam abertas porque um grupo de alunos, professores e funcionários trabalham voluntariamente. É claro que a queda de energia foi um reflexo sombrio dessa crise. A Lei do Silêncio se manifesta de muitas maneiras.

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Contudo, não é todo dia que o teatro recebe uma oxigenação extracorpórea de rock valvulado. E felizmente, naquele cenário, o apagão que impediu o show de começar no horário foi um daqueles males que vem para bem. Enquanto geradores garantiam o funcionamento do palco, até que os técnicos da CEB cumprissem a promessa, os camarins do subsolo funcionavam apenas a luz de velas. Caminhar por lá era entrar numa refilmagem de Barry Lydon do Stanley Kubrick, onde bandas, produção e agregados pareciam vultos cabeludos curtindo a vida adoidado. Lá em cima, as vibrações positivas reverberavam. Se alguém batizasse o estoque do bar com o ingrediente certo, todo mundo ia jurar que estava na porra do Woodstock.

“É isso o que a gente entende por rock”, me disse com um olho no copo e outro no beck Anthony, baixista do Radio Moscow. Nativos de Story City, no estado de Iowa, eles são um daqueles raros casos em que a banda preserva um estilo musical e visual há muito visto e revisto – no caso, o blues psicodélico dos anos 60 – e ainda assim soam, aparentam e respiram genuinidade. Um trio de nômades anacrônicos que topam embarcar para qualquer lugar do mundo desde que alguém garanta o cachê, equipamento descente e um sofá para capotar por duas ou três horas. “Ficamos felizes em saber que uma gravadora de vinis está por trás desse show. Esse revival dos discos é a esperança para as novas gerações entenderem do que se trata a música em sua essência”, celebrou.

Enquanto isso, os shows ecoavam. Perdi os dois primeiros, mas assisti o Valdez e senti um tempero extra nas camadas de phaser e delay da guitarra, nos graves do baixo e na ressonância da bateria. Certa vez descrevi a banda como uma manada de elefantes africanos em disparada, e no Choque de Monstro a impressão era a mesma. Ou talvez, a agressividade estivesse relacionada com os acontecimentos que vieram em seguida.

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Sem querer forçar a barra, viaje comigo: estávamos no Conic, uma fortaleza de concreto desbotado no coração do Plano Piloto, tão deslocada do que Brasília deveria representar quanto a Faixa de Gaza no meio de Israel. Só ali, hordas de punks, metaleiros, skatistas e outros movimentos culturais que habitam a área durante o dia; e os cafetões, prostitutas, mendigos e traficantes do turno da noite, harmonizam e têm um lugar para chamar de seu no centro da capital. E naquela noite, todos eles estavam reunidos dentro ou fora do teatro. Por isso mesmo, não duvido que espíritos zombeteiros de candangos degenerados decidiram dar o ar da graça. É aí que eu quero chegar.

Tudo aconteceu pouco antes do Valdez subir ao palco. Já adianto, se você não esteve lá e não sentiu as vibrações celestiais no ar, duvido muito que vá acreditar na minha interpretação. Porém, aí vai. As bandas que fechariam o show eram na ordem: Almirante Shiva, Valdez e Radio Moscow. No entanto, na hora do Almirante entrar, eles mandaram avisar que o baixista estava passando muito mal, não conseguiria tocar. Para evitar um pandemônio a níveis “Axl Rose pulando em cima do fotógrafo e acabando o show em cinco minutos”, o Valdez assumiu a antepenúltima posição e fez o que sabe. E foi aí que o próprio Shiva – a divindade – intercedeu. Mal o Valdez terminou a última música, no lado esquerdo do palco, como Lázaro saindo da sepultura com tiras de linho penduradas pelo corpo após ouvir Jesus dizer: “Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá”, o baixista do Almirante Shiva não só estava recuperado, como pronto para tocar. Pessoas de pouca fé poderão dizer que eles só queriam inverter a ordem e se apresentar depois do Valdez, mas ali não era um lugar para ateus e seus vinhos aguados. Foi mágico.

Chegara a hora do gran finale e já aviso, pensei muito, e decidi que tentar transmutar o show do Radio Moscow em palavras seria um exercício de futilidade. Ou melhor, não fiz com o show de nenhuma banda, jamais me atreveria. Quem esteve lá sabe o que viu e ouviu e absorveu à sua maneira. Foi um exemplo raro da sintonia entre audiência e artista, quando ambos os lados estão de coração aberto, sinceros em seus papéis. Sair do Dulcina depois da meia noite valeu o esforço. O Choque de Monstro ressoou em ritmo alfa por horas a fio no dia seguinte, fazendo da ressaca durante o expediente um jardim elétrico onde chefes raivosos não tiraram o humor de ninguém.

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Sim, a Lombra Records acertou em cheio, chutando a Lei do Silêncio onde dói. E entenda, “silêncio” aqui tem sentido muito mais amplo do que a onda de queixas contra barulho que está forçando a cidade a se calar. Nessa odisseia também precisam ser enfrentados outros ciclopes: as estrelas desmortas do Rock Brasília anos 80; os coxinhas com guitarras e suas panelinhas; quem deixar definhar o que é público; e especialmente, todos os parasitas que se sustentam do Fundo de Apoio à Cultura, como rêmoras comendo os restos da boca do tubarão. Quem acredita que o governo é o único responsável pela cultura deveria ser expurgado do convívio social, sem julgamento. Não havia patrocínio ou selo de qualquer entidade de apoio no encarte do Choque de Monstro e assim que deve ser. Era uma festa independente, bancada pelo público que esperou pacientemente a hora de entrar no teatro, aguentou a fila da cerveja, se espremeu nas cadeiras e ainda saiu feliz da vida.

E é em vinil artesanal que a Lombra Records vai embalar esses lampejos de rock em Brasília, custe o que custar. Apostando naqueles que precisam de apenas uma tomada para tocar, e compartilhando a ideia de que para acontecer basta fazer, mesmo que a Secretaria de Cultura “tenha cortado a verba”. “Uma vez eu estava num elevador em Utah, e um brutamontes com boné de beisebol começou a provocar falando alto: ‘vou te dizer, cabeludo é tudo viado’”, me contou Parker, guitarrista do Radio Moscow com seu jeito tão desengonçado quanto seu xará dos quadrinhos do Homem-Aranha, para explicar porque seu colete hippie tinha um rasgo enorme embaixo do suvaco. “Não pensei duas vezes, dei um tapa no boné dele e caímos na porrada ali mesmo”, completou. “Uau cara! Acabou com ele?”, perguntei empolgado. “Nada, tomei uma surra homérica. Mas ninguém vai me rebaixar a troco de nada”, respondeu com um sorriso encabulado.

Entende o que eu digo? São os que dão a cara pra bater que vão fechar esse bonde. Antenados que, diferente da imprensa, comemoraram o fato do rock estar há muito fora das paradas de sucesso. Ser marginal é a essência desse estilo desde seu nascimento. E cada vez mais gente entende o quanto pode ser prazeroso ficar e acontecer no underground. Coincidência ou não, na mesma semana do Choque de Monstro, os sites de noticia especializados replicaram a manchete: “Venda de vinis gera mais receita que serviços de música em streaming”. Segundo um relatório da Recording Industry Association of America (RIAA), o lucro de publicidade dos serviços online de música no primeiro semestre de 2015 fechou em 163 milhões de dólares, enquanto a venda de vinis rendeu 222 milhões. Um aumento de 52% na participação de mercado para os discos. Seja em Brasília ou no mundo, o recado é claro. Como bem disse, certa vez, o maestro anarquista John Cage: “nenhum som teme o silêncio que o extingue”.

fotos: Artur Dias

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