Artur Allen, um guitarrista do espaço

Artur Allen, um guitarrista do espaço
por Tony Bellotto 
Outra dia, depois de um show com os Titãs em Goiânia, levei um susto. Ao voltar para o hotel, quem eu vejo tocando uma Gibson semi-acústica no bar da recepção? Tocando, não. Arrepiando seria a palavra exata. Artur Allen! Não sei se algum de vocês já ouviu falar em Artur Allen. Apesar do nome, é brasileiro. O homem chegou a fazer algum sucesso na virada dos anos 60 para os 70. Gravou um ou dois discos independentes e participou de discos e shows de outros artistas. No começo da carreira, ele tocava em boates e bailes. E então descobriu o rock.
Artur Allen foi um dos precursores de uma linguagem verdadeiramente brasileira no rock que se faz por aqui. Misturou estilos, criou linguagens, uniu MPB, blues, jazz e rock. Tocou com o Raul Seixas, Rita Lee e outras feras. Formou uma banda mítica e efêmera, a Snow. Tive o privilégio de assistir a um show da Snow ainda nos anos 70, na Tenda do Calvário, uma casa de rock que ficava no porão da Igreja do Calvário, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Mas depois o Artur caiu no ostracismo. Foi para os Estados Unidos tentar a sorte como músico e lá acabou se perdendo. Drogas, bebida.
A velha via-crúcis de tantos músicos. Mesmo assim ainda conseguiu trabalhar por algum tempo em Los Angeles e Nova York. Gravou algumas sessions com bandas obscuras, participou de concertos underground. Depois, sumiu. Mas aqui no Brasil alguns colecionadores ainda curtem até hoje os raríssimos discos do Artur. São clássicos, discos cult vendidos a peso de ouro nos sebos e lojinhas descoladas nas galerias do rock, no centro de São Paulo.
Nascido em Americana, filho de pai americano e mãe baiana, Artur mudou-se bem jovem para a capital paulista. Entre nós, do meio musical, Artur Allen é uma lenda. Quando vi o homem na recepção do hotel em Goiânia, não o reconheci. Vi apenas um velho muito magro e enrugado - de cabelo comprido grisalho preso num enorme rabo-de-cavalo -, sentado num banquinho, curvado sobre a guitarra, alheio à movimentação do bar, totalmente imerso no ato de tocar. E como tocava! Foi pela maneira de tocar que reconheci o Artur. Aquele estilo é inconfundível. As frases rápidas, melódicas e precisas, mas cheias de feeling e algum desespero.
Sentei numa mesinha, pedi uma cerveja e fiquei escutando o Artur tocar. Lá pelas tantas uma música tipo bate-estaca começou a soar nas caixas de som do bar do hotel, e o Artur, resignado, parou de tocar a guitarra e levantou com dificuldade do banquinho em que estava sentado. Observei-o guardar a guitarra no estojo e caminhar até a porta do hotel. Fui atrás dele. Na calçada, Artur acendeu um cigarro e ficou olhando a lua, soltando fumaça na direção das estrelas. Me aproximei. "Artur Allen", eu disse, reverente, "que prazer te conhecer pessoalmente!". Ele me olhou, intrigado. "Você deve estar me confundindo com outra pessoa. Eu não me chamo Artur Allen. Nome estranho". "Deixa disso, Artur", eu falei. "Sei que é você". "Não", ele disse, "eu já fui o Artur, agora não sou mais". "Que história é essa? Sou guitarrista, você é um dos meus ídolos. Vi você tocar na Tenda do Calvário em 1974". "Depois que fui abduzido", ele prosseguiu, ignorando minhas palavras, "e passei anos viajando pelo espaço sideral, virei uma outra pessoa. Gosto de viver no espaço, viajando. Mas lá não dá pra tocar guitarra. O som não se propaga no vazio. Então, de vez em quando, peço pra eles me deixarem aqui na terra pra tocar um pouco. Aqui na região há muitas bases de pouso".
Diante de minha expressão de assombro, ele concluiu: "Vou nessa". Dito isso, saiu andando pela rua, carregando o estojo da guitarra e baforando o cigarro. Vi quando virou numa esquina. Fiquei alguns minutos imóvel, pasmo. Quando me recuperei, fui atrás dele, mas Artur Allen, da mesma maneira que surgiu, desapareceu.
Tony Bellotto
18/09/2008
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