“Os Graais Brasileiros que Não Querem Ser Encontrados” (2026)

“Jaws was never my scene and I don’t like Star Wars.”

Quando Freddie Mercury cantou esse verso em Bicycle Race, não estava apenas fazendo troça de dois dos maiores fenômenos culturais do cinema americano. Ele estava, com elegância debochada, marcando uma posição: a recusa em se ajoelhar diante do espetáculo dominante, do gosto majoritário, do consenso fabricado.

Tubarão e Star Wars simbolizam o nascimento do entretenimento como indústria total — franquia, medo, épica simplificada, merchandising, mito pronto para consumo. Ao rejeitá-los, Freddie não reivindica obscuridade: reivindica liberdade de imaginação. A liberdade de não gostar do que todos gostam. De não participar da fila do hype.

Essa frase poderia perfeitamente abrir qualquer discussão séria sobre os Santos Graais da música brasileira — porque, por aqui, os verdadeiros graais quase nunca coincidem com o que virou evento, manchete ou produto.

Os graais brasileiros não são, em geral, os mais visíveis, os mais celebrados ou os mais compartilháveis. Eles vivem à margem do espetáculo, fora do algoritmo, longe da narrativa oficial. São fitas que não querem virar arquivo digital, programas de TV apagados por descaso, discos interrompidos pela morte, pela censura ou pela falta de mercado.

Este texto não é sobre o que foi encontrado, restaurado e embalado com selo de “achado histórico”. É sobre “Os Graais Brasileiros que Não Querem Ser Encontrados” — aqueles que resistem justamente porque não se encaixam na lógica do blockbuster cultural.

Porque, no fundo, como já avisava Freddie Mercury, nem todo mundo quer correr a mesma corrida. E muito menos pedalar na direção apontada pelos holofotes.

You say Lord I say Christ, I don't believe in Peter Pan, Frankenstein or Superman

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O Santo Graal tem 3:48 — ou quase uma hora?

Tudo começou quando alguém do próprio meio musical levantou uma dúvida incômoda — e bastante pertinente: o vídeo dos Mutantes tocando “A Day in the Life”, com 3 minutos e 48 segundos, seria mesmo o verdadeiro Santo Graal do rock brasileiro?

A pergunta não caiu no vazio. O vídeo rapidamente virou manchete, foi compartilhado por estrelas do rock nacional, circulou com entusiasmo quase religioso nas redes e acabou carimbado como Santo Graal pelo jornal O Globo. Estava sacramentado: relíquia encontrada, milagre confirmado, missa celebrada.

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O Globo, 7 de janeiro de 2026

Mas como todo graal brasileiro, a história não parou aí.

Na sequência da euforia, foi disponibilizado o programa Jovem Urgente em sua íntegra, com quase uma hora de duração. E aí a pergunta voltou, ainda mais desconfortável:
se o graal era o fragmento de 3:48, o que seria então o programa completo?

Um graal maior?
Um meta-graal?
Ou apenas mais um sintoma da nossa dificuldade crônica de lidar com o contexto, preferindo sempre o recorte mais compartilhável?

O curioso é que, quando surgiu o todo, o fragmento perdeu parte do encanto. O milagre já havia sido consumido. A hóstia, repartida em clipes.

Quando o graal não é imagem

Essa obsessão contemporânea por vídeos raros talvez nos impeça de enxergar graais menos fotogênicos — porém mais profundos. Um exemplo clássico: “Milagres dos Peixes”, de Milton Nascimento.

Ali, o graal não está em uma fita perdida ou num take reencontrado, mas na ausência.
Nas letras censuradas, substituídas por vocalizações, silêncios, gemidos, respirações. O disco é um álbum de fantasmas: canções mutiladas pelo regime, sentidos sugeridos e nunca plenamente ditos.

Cabe perguntar:
essas letras proibidas — jamais plenamente recuperadas em sua forma original — não seriam um Santo Graal muito mais radical do que qualquer registro televisivo?

Antes do graal, veio a fita

Muito antes da internet, do YouTube, dos “achados” semanais e da pornografia da raridade, o Brasil já tinha seu primeiro grande Santo Graal portátil: a fita cassete “Isto sim é algo mais”, dos Mutantes.

Final dos anos 80. Circulação subterrânea. Cópias copiadas de cópias, com o som se degradando a cada geração e a aura crescendo na mesma proporção. Aquilo sim era um graal:
não oficial,
não autorizado,
não domesticado.

Um objeto que não queria ser encontrado — e justamente por isso se tornava irresistível.

Ali se formou uma geração inteira de ouvintes-arqueólogos, mais interessados em buscar do que em possuir. Quando a fita finalmente virou CD, como acontece com quase todo graal brasileiro, perdeu parte do encanto. O milagre havia sido reproduzido. E, uma vez reproduzido, deixou de ser milagre.

O Brasil é um país graal-dependente

O problema nunca foi a falta de santos graais. Pelo contrário. O Brasil produz graais em escala industrial porque também produz apagamentos, interrupções, censuras, mortes precoces e arquivos malcuidados em quantidade proporcional.

Alguns continuam lá, desafiando pesquisadores, colecionadores e mitólogos:

– A fita do show de Chico Science & Nação Zumbi no Central Park, nunca lançada oficialmente.
Qualquer edição sobrevivente do Divino, Maravilhoso, sobretudo as de dezembro de 1968, quando a TV brasileira decidiu apagar a própria memória.
Discos inacabados de artistas que morreram cedo demais.
Bandas que não gravaram nada, mas mudaram tudo.
– E, claro, se a Legião Urbana é o maior ícone do rock nacional, a pergunta é inevitável: onde está o trabalho definitivo, inédito, ainda não ouvido?

Talvez o verdadeiro graal seja outro

Talvez o verdadeiro Santo Graal da música brasileira não esteja no que finalmente aparece, viraliza e vira manchete. Talvez esteja no que permanece faltando, no que não se resolve em link, no que resiste à lógica do consumo rápido.

Porque, no Brasil, todo graal encontrado corre o risco de virar souvenir.

E isso — mais do que qualquer vídeo raro — é a nossa tragédia recorrente.

De volta o circo do rock'n'roll

No início dos anos 2000, a Mákina du Tempo entrou em estúdio para gravar seu único álbum, e Sérgio Dias chegou a ser cogitado como produtor.

Durante as conversas, a banda comentou que possuía uma versão em inglês de “Ando Meio Desligado”, o que imediatamente despertou o olhar desconfiado — e curioso — do questionador Sérgio Dias, que pediu para ouvir a gravação.

O que o Mutante não sabia era a origem daquela versão: ela havia sido retirada de uma fita cassete que Arnaldo Baptista me entregara no final dos anos 80, contendo material do álbum “Tecnicolor”, ainda envolto em aura mítica naquela época.

Ou seja, antes de virar curiosidade de estúdio ou moeda de negociação estética, aquela gravação já era — sem alarde — mais um daqueles graais portáteis que circulavam de mão em mão, fora do radar da indústria e longe de qualquer intenção de consagração oficial.

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