Barão Vermelho no Autódromo: o primeiro impacto em Brasília (1983)
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“Uma introdutória entre os bagos… na verdade, quem estava mal era o próprio Cazuza, que alegava uma forte dor de garganta — talvez por isso o set tenha sido tão curto. Lembro bem que, no início do show, ele usava um cachecol e explicou o motivo.” (Félix Amorim)
Fim de papo:
Cazuza não mostrou tudo — mas deixou claro o seu estilo provocador no palco.
Corria o mês de julho de 1983. Eu já conhecia o Barão Vermelho por meio de resenhas elogiosas na Somtrês. Eles tinham acabado de lançar o primeiro disco, com destaque também na Veja, e vieram tocar no Autódromo de Brasília.
O lugar era inusitado — talvez um dos primeiros eventos daquele tipo ali. Uma espécie de redescoberta do espaço. Era domingo, a cidade vazia. O ônibus fez a curva do Palácio do Buriti, descemos e seguimos pelo gramado até a bilheteria. O clima era de incerteza: vai ter show? Pouca gente no começo, depois formando um pequeno bloco diante do palco. Quase todo mundo se conhecia de vista.
Na época, eu nem sabia direito a formação da banda. Hoje sei que Sérgio Serra (futuro Ultraje a Rigor) estava em uma das guitarras, com Frejat na outra — este, inclusive, quase não tocou por estar febril.
Em certo momento, pediram silêncio para a introdução de “Down em Mim”, destacando o teclado. E, de repente, o show acabou. Curto demais.
Cazuza, de camiseta bicolor e short, sem muita preocupação com figurino, ocupava o centro de um palco baixo. Agachava-se, se movimentava de forma provocativa — algo que, naquele momento, mais me causou estranhamento do que admiração. Eu vinha de referências como Blitz, Rádio Táxi e Gang 90. Esperava algo mais próximo do que Ezequiel Neves descrevia como “uma experiência chapante”. Não achei nada demais no som — imaginava algo mais na linha do Made in Brazil.
Mas o show acabou sendo marcante por outros motivos. No meio das músicas, havia também dores pessoais: era o fim de um relacionamento, minha namorada começava a se envolver com meu melhor amigo.
Na saída, frustrado por não ter vendido nenhum fanzine, joguei os exemplares para o alto.

Dez anos depois
Já em São Paulo, na casa da fotógrafa Grace Lagôa, vi uma foto colorida de Cazuza naquele show em Brasília. Reconheci na hora: “Eu estava lá.”
Nice Pontes
Autora da fotografia, morava em Brasília naquela época. Depois se mudou para a Austrália, mas manteve contato com Grace Lagôa, a quem enviou a imagem.
Hoje, nem Nice Pontes nem Cazuza estão mais entre nós. Ficaram os registros, os olhares atentos — e a memória do nascimento de um mito, ainda cru, ainda despojado, ainda sem filtro.

