Lula Martins: A tropicália vista por dentro

A tropicália vista por dentro

 

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Prestes a ser resgatada em documentário produzido pela O2 de Fernando Meirelles e a Record Films, a trajetória da tropicália acaba de ganhar o testemunho de um dos mais importantes atores da contracultura brasileira. Conhecido por ter encarnado o personagem que sustenta a narrativa de Meteorango Kid – O herói intergalático (1969), grande referência do cinema marginal, o artista baiano multimídia Lula Martins lança agora o livro Mágicas mentiras (editora Vento Leste), no qual cruza suas memórias com os atropelos da produção cultural (alternativa) do país nos últimos 40 anos.

– Há muito tempo venho exercendo várias atividades no campo das artes. Por causa disso, nunca tive uma profissão ou uma especialidade definitiva na vida, e isso é péssimo para as finanças. Escrevi Mágicas mentiras para, sobretudo, reunir os meus cacos, tentar dar unidade aos meus trabalhos e a mim – reconhece Martins, que leva uma vida low profile.

Ao contrário das estrelas visíveis do movimento estético e sonoro que influenciou todas as atividades culturais entre o final dos anos 60 e os anos 70, Lula Martins trilhou um caminho de bastidor. Filho de poeta e originário de uma família bem situada no sudoeste da Bahia, o pequeno Antônio Luiz da Silva Martins frequentou as matinês dos cinemas de Jequié, seu primeiro contato com a arte audiovisual. Ainda jovem, vagou pelo universo pré-hippie e se envolveu com as artes plásticas. Participou, inclusive, da Bienal da São Paulo, em meados dos anos 60.

De volta a Salvador, fez teatro amador, fase que deixou algumas cicatrizes (físicas), até ser convidado para ser protagonista do premiado Meteorango Kid, dirigido pelo conterrâneo André Luiz Oliveira. Anos mais tarde, depois de errar sem rumo profissional e financeiro, veio dar no Rio, onde passou a ganhar a vida como designer gráfico. Produziu capas de discos de expoentes da música lisérgica brasileira da época, como o grupo Novos Baianos e artistas como Sivuca, Glorinha Gadelha, Moraes Moreira, Pepeu Gomes e Baby Consuelo.

Melhor capa de 1972

Durante algum tempo, o design gráfico rendeu louros para Martins. A capa do disco Acabou chorare (1972), dos Novos Baianos, sempre citado em listas dos melhores discos brasileiros de todos os tempos, foi a eleita por especialistas a melhor criação daquele ano. Aproveitou os contatos nos círculos musicais para produzir discos experimentais. Nos anos 80, uma canção de sua autoria, Rock Mary, ganhou popularidade na voz de Paulinho Boca de Cantor. Em seguida, caiu no ostracismo. Mas seu trabalho até hoje é referência para estudiosos da cultura brasileira, inclusive no exterior.

– Ator, poeta, escultor, diretor, cantor, artista plástico e compositor, Lula Martins é uma das figuras mais lendárias da contracultura no Brasil. Sua obra é vasta e profunda. As belas capas de LPs que fez para tantos artistas são verdadeiros documentos visuais da cultura de vanguarda produzida no país. Sua obra e sua vida, como um todo, são parte da própria história do Brasil recente – elogia Narlan Matos, doutorado pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, que está produzindo um documentário sobre outra lenda da tropicália, o artista plástico e designer Rogério Duarte.

Criador de alguns dos mais belos cartazes de filmes brasileiros de todos os tempos, como o de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Duarte fazia parte da vanguarda artística em um tempo em que reinava a censura militar. Arregimentou em torno de si um grupo de resistência cultural que Narlan identifica como o Grupo de Jequié, formado pela tropa de choque da tropicália. Este incluiu Edinízio Ribeiro Primo, criador da capa do famoso álbum de Expresso 2222, de Gilberto Gil; Dicinho, ilustrador da capa de Flor do Mal e Gal, de 1969, um dos desaparecidos durante o regime; Cesar Zama, militante underground que voltou para Jequié onde se tornou advogado; Jorge Salomão, irmão de Waly, artista performático, e, claro, Lula Martins.

– O documentário sobre o Rogério (Duarte) está sendo dirigido por Daniel Cortez. Estamos gravando aos poucos. Agora, em junho, vamos para a Bahia entrevistá-lo. Estou levando os lendários panteras negras junto – informa o acadêmico. – Já gravamos os depoimentos de nomes com Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Jorge Mautner e Galvão, dos Novos Baianos. Estão confirmados as participações dos Titãs, do Macalé, do Tavinho Paes, e mais muita gente boa.

Na época do lançamento de Mágicas mentiras, Duarte se referiu ao ex-companheiro de vanguarda como “uma ave rara da nossa constelação”. O brasilianista Chistopher Dunn, co-diretor do Conselho de Estudos Brasileiros da Universidade de Tulane, nos Estados Unidos, atribui a ele força de símbolo da resistência nacional, que ganhou representatividade visual em Meteorango Kid.

– Estudiosos e críticos elegem O Bandido da Luz Vermelha como o primeiro grande filme marginal, mas Meteorango Kid revelou com muito mais força a marginalidade e desilusão dos jovens brasileiros durante a época mais repressiva da ditadura – destaca o americano. – É o primeiro filme do desbunde brasileiro, que teve a ousadia de, em pleno AI-5 de encenar um ritual cotidiano tão conhecido, mas pouco representado no cinema brasileiro: a preparação cuidadosa e consumo dionisíaco de um baseado.

 

20:46 - 13/06/2009

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