DESBUNDE: CAPANGA DE GUILHERME ARAÚJO (2009)

Capanga de Guilherme Araújo

Jary Cardoso*

 

30 mar. / 2009 - Meio século atrás, os cariocas manifestavam seu desprezo pelos nordestinos classificando todos de "paraíbas", enquanto os paulistanos chamavam de "baiano" qualquer mulato de cabeça chata, e ambas as denominações serviam para desclassificar quem eles achassem que fosse burro, preguiçoso e submisso.

Os tempos mudaram, o preconceito perdeu força no Sudeste e a baianidade virou moda no País. Muitos fatores contribuíram para isso, um deles foi o movimento musical e contra-cultural do tropicalismo, liderado entre outros pelos, baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, José Carlos Capinan, Gal Costa e Maria Bethânia (esta nos bastidores), e um de seus principais artífices foi um carioca, o empresário e produtor Guilherme Araújo, falecido na semana passada.

Conheci Guilherme Araújo de perto, no Rio, durante curto, porém intenso período, entre 1972 e 73. Paulistano, eu era um daqueles apelidados de "baiano" pelos colegas de escola em São Paulo (pelo menos no meu caso, o apelido era pura inveja). Vinha da imprensa marginal ou alternativa e trabalhei no setor de divulgação e como assistente de produção na empresa de Guilherme, que tinha escritório na Av. N. Sra. de Copacabana, perto dos fundos do Copa. Era a Guilherme Araújo Produções Artísticas, a Gapa, nome que serviu para o poeta Waly Salomão um dia me xingar violentamente.

Nesse dia eu estava na produção de um show de Jards Macalé (carioca que também chegou a ser apelidado de "baiano"), um dos contratados da Gapa na época. E trabalhar na produção significava cuidar desde da coca-cola e a água dos músicos até o movimento da bilheteria.

Guilherme era super-rigoroso, exigia precisão, disciplina e muita atenção aos detalhes, e cobrava tudo a todo instante, disparando com espantosa rapidez palavras - emendadas e engulindo sílabas - de advertência, admoestação, ameaças, com argumentações lógicas, demolidoras. Numa dessas rajadas, ele me disse que só tinha prejuízos financeiros bancando shows de "malucos", embora Macalé, Jorge Mautner e outros fossem criadores maravilhosos, mas só atraíam público de "hipongas" que não tinham dinheiro para o ingresso e mesmo quando podiam pagar queriam entrar de graça.

"Os convites já foram todos distribuídos, não tem mais convite", disse, autoritário, intimador. O show era no Teatro Tereza Rachel, o Terezão, também em Copacabana. Estou ali na bilheteria quando aparece Waly, pra mim um líder e companheiro daquele mundo "underground". Mas ele está possesso, tomado por ira satânica e me fez logo sentir como quem naquele momento se encontra do outro lado do balcão. A meu ver com carradas de razão, o baiano de Jequié chega vociferando contra Guilherme por não ter lhe enviado convite para o espetáculo de Macalé, cuja concepção artística era justamente de autoria dele, Waly Salomão.

Era evidente que duas personalidades fortes, guerreiras e antagônicas como Guilherme e Waly não podiam se entender o tempo inteiro. Barrar Waly era uma atitude despótica do empresário. Eu me considerava cúmplice daqueles inventores de artes e modas revolucionárias e naquele momento me senti deslocado na função. Acabei nocauteado quando Waly abrindo aquela boca enorme começou a berrar apontando para mim: "Gapanga, gapanga, gapanga..." Ou seja, eu não passava de um capanga da Gapa, um lambe-botas do "explorador de artistas".

Foi Caetano Veloso quem me acalmou em relação a Guilherme. Isso foi numa das poucas oportunidades que tive de conversar com Caetano naquela época, porque Guilherme cortava logo, não podia ver assistente dele ocupando tempo de suas estrelas. Caetano gostava muito de Guilherme e me apresentou justificativas fortes para a agressividade dele. Não tenho o direito de revelar coisas muito íntimas, em respeito a Caetano e à memória de Guilherme. Mas o próprio cantor e compositor baiano escreveu em seu livro "Verdade Tropical":

Guilherme Araújo "(...) com sua feiúra combinada a um ar imodesto tinha tudo para ser repulsivo, terminava por cativar quem quer que transpusesse a barreira do primeiro impacto e realmente dele se aproximasse. Havia uma espécie de nobreza no seu jeito franco de emitir opiniões originais sobre o mundo dos espetáculos. (...) Para ele, nós, os baianos, éramos 'chiques' e 'modernos' e poderíamos ser 'internacionais'".

caretano

O divino e maravilhoso Guilherme Araújo bem merecia o título de cidadão baiano, mesmo sendo post mortem.

 

*Jary Cardoso, editor de Mundo de A Tarde, de Salvador, foi repórter do JA e do Folhetim, de Tarso de Castro, e do Bondinho, de Hamilton Almeida Filho, o HAF.
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