Ezequiel Neves: Entrevista Inédita

O jornalismo rocker no Brasil perde seu grande entusiasta: Ezequiel Neves

 

Ezequiel Neves era comumente conhecido nos anos 70 como “Zeca Jagger” (devido a sua paixão pela banda Rolling Stones), “Zeca Zimmerman”, em homenagem ao Bob Dylan ou ainda “Ângela Dust” (uma droga da época, pesadíssima, sintética) e era com esses heterônimos que assinava suas matérias sobre música.

Foi bibliotecário, jornalista, ator, crítico musical, diretor de shows e produtor de inúmeras bandas do rock nacional, entre elas, o Barão Vermelho, na qual, posteriormente, também lançou o cantor Cazuza em sua carreira solo.

O mineiro de Belo Horizonte foi figura determinante no cenário musical brasileiro, sempre observador, incentivador e participante do nascimento do rock nacional. Polêmico pelas crí­ticas mordazes às figuras com as quais conviveu profissionalmente, a exemplo de Rita Lee, não poupava nada nem ninguém. Um “exagerado”, capaz de uma intensidade também quando se apaixonava pelas ideias, pessoas e grupos musicais, como sua amizade pelo Cazuza e por parceiros como os integrantes dos grupos Made in Brazil, Gang 90 & Absurdetes, Kid Abelha e Cássia Eller, entre muitos que despontaram no cenário musical desde a década de 70. Foi o primeiro jornalista que escreveu uma coluna inteira sobre Janis Joplin, Jim Morrison, entre outros astros, o que lhe conferiu o título de “precursor do jornalismo rocker brasileiro”.

Na revista Rolling Stone (versão de 1972, com escritório no Rio de Janeiro) Ezequiel Neves assinava as colunas “Toque”, falando essencialmente sobre música, e “Notas Ligadas” que informava em forma de notinhas, sobre o show bizz e temas diversos.


O único “negócio” que firmou em 74 anos de vida foi com o rock, que mais do que mero estilo musical consiste em uma atitude desafiadora e anárquica de vida. Ele afirmou nesta entrevista: “Eu faço o que me dá prazer, quando não dá, caio fora!”

Abaixo, trechos de um bate-papo, em seu apartamento, no Rio de Janeiro em 2006, sobre a revista Rolling Stone (versão 1972), realizado por Sérgio de Carvalho e Patrícia Marcondes de Barros [i]

 

 

Zeca, fale sobre seu ingresso na Rolling Stone Brasil

O meu ingresso no jornal (ou revista) tem outro capí­tulo, pelo seguinte, vou contar... Eu sou mineiro, vou fazer neste ano, 72 anos. Eu fui para São Paulo, onde comecei como jornalista e como crí­tico, mas eu já escrevia em Belo Horizonte. Mudei para São Paulo em 1965 e na época, era ator de teatro. O Antunes Filho, a Maria Bonomi e eu estreamos dois espetáculos em São Paulo com “O sonho de uma noite de verão” de Shakespeare, CHATÍSSIMO, como eu pude fazer Shakespeare, AI!!! E o outro era “Zoo Story” de Edward Albee. Eu fiz as duas peças e o pessoal gostou do meu trabalho. Daí­ o Antunes e a Maria me chamaram para trabalhar em São Paulo porque eles iam montar “A Megera Domada” sob a direção de Antunes. Fui para São Paulo em 1965. Lá eu fiz trinta anos, “uma carcaça” (risos) e depois de Antunes, fui trabalhar no teatro com o Zé Celso Martinez Correa. No Oficina, fiz uma peça chamada “Andorra” e cai em outra companhia, no teatro popular do SESI. O teatro popular do SESI era sempre sessão cheia, gratuita e era uma coisa muito burocrática... Comecei então a escrever no Estadão, no Jornal da Tarde, em 1968. Eu fui convidado pelo Maurício Kubrusly, que era na época editor do Jornal da Tarde, junto com o Fernando Morais que, atualmente, é um escritor super respeitado, para ser crítico musical. Aí­ me chamaram para eu escrever sobre jazz. Eu sou da geração do jazz... Eu era e sou, nasci em 1935.  Quando eu fui escrever sobre jazz, eu descobri que não tinha mais jazz!!! Todos os bons estavam na Europa e a mais “nova praia” era o rock. Acabei me interessando e como não tinha revista, eu ia comprando as importadas para poder escrever. E fui a primeira pessoa a escrever uma página inteira sobre Janis Joplin, Donovan e Rolling Stones.

Em 1969, eu fui pela primeira vez para Nova York. E cheguei lá em uma época que o festival de Woodstoock, tinha acabado em uma semana... E todo mundo que tocou na Woodstoock fazia temporada no Filmore East, em Nova York. Foi uma loucura, e vi muita banda ruim. Sabe aquela coisa meio riponga? Muito ruim!!! (risos) Mas tinha muita coisa boa, vi muita coisa boa, The Who!!! Daí em 1970, eu fui para a Inglaterra, para Londres. Fui com 700 dólares, passei quatro meses. E aí foi uma loucura, porque Londres era uma coisa lisérgica e aquilo mexeu com a minha cabeça,  eu era totalmente “para dentro”. Pensei­:  “vou parar de fazer teatro, uma babaquice você repetir toda a noite a mesma coisa!”. Pedi uma substituição da peça em que estava e soube que o Maciel, em 1971, ia fazer a Rolling Stone e parece que me indicaram. “Quem conhece rock é o Ezequiel Neves, um jornalista de São Paulo”, disseram.

Você já era colecionador de discos, tinha acervo?

Eu tinha um acervo maravilhoso, ainda tenho, mas está em ordem analfabética...”(risos) Tirava os discos e colocava em qualquer lugar... Eu tinha um grande acervo e tinha muita informação que não chegava aqui. Eu lembro que foi um escândalo, eu comecei a escrever na revista Realidade, foi uma das melhores revistas que a Editora Abril teve, mas por causa da censura... 

E eu ouvi falar com Maciel, que dois gringos tinham comprado os direitos da Rolling Stone para o Brasil e iam fazer a revista que seria quinzenal. Daí eu disse: “Eu vou até me mudar para lá. E conversei com os donos da revista: “Olha eu sei que vocês vão pechinchar salário e tudo. Mas tudo bem, eu ganho um dinheiro no jornal da Tarde, mas não teria dinheiro para ir para o Rio, então vocês ficam responsáveis pelo seguinte – vocês vão pagar o aluguel do meu apartamento. O dia em que vocês deixarem de pagar eu saio da revista.” E isto foi cumprido. Porque a Rolling Stone para falar a verdade faliu, no número zero. Com o “zero” de dinheiro que tinha, os sócios, os dois gringos gastaram tudo na edição de número zero, aquela, com a Gal Costa na capa. E a distribuição era muito ruim, muito ruim!!! Você não encontrava a Rolling Stone nas bancas, Só maluco mesmo que comprava! E foi um momento muito feliz da minha vida. O Maciel não estava conseguindo escrever, tipo “bloqueio”, mas estava cheio de idéias.... Na revista Rolling Stone, eu cuidava da parte do rock. Mas a revista era muito aberta para as coisas novas e tudo. Foi a primeira revista brasileira que publicou coisa por exemplo sobre o Castaneda. Foi uma revista com escândalo porque a gente conseguiu colocar para fora um delegado SAFADO que eu esqueci o nome dele. Tinha um jornalista maravilhoso que levantou a vida do cara...Eu morava num apartamentinho na rua Farme de Amoedo (Ipanema), que era o do porteiro. A porta do meu apartamento  era a do elevador. (risos) Mas era muito feliz, quando não tinha dinheiro comia um cachorro quente e ficava alimentado para o dia inteiro, todo queimado de praia. Bom, mas a Rolling Stone era engraçadíssima, a gente sempre ia entrevistar alguém para a Rolling Stone ou sobre a Rolling Stone. Tinha o Dropê... era muito maluco na Rolling Stone, muito “bicho-grilo”. Daí­ se alguém se dirigisse a mim...bom...eu tinha que trabalhar. Eu tinha a minha sala; atrás, o Okky de Souza, que traduzia as matérias, tinha acabado de chegar da Inglaterra e traduzia tudo. Porque daí­ que a gente descobriu que não tinha dinheiro, o Maciel sempre “um louco iluminado”, falava que não entrava dinheiro porque a revista era quinzenal. Vamos fazer então semanal!!! Pô!!! Se a quinzenal dava prejuí­zo, imagina semanal!!!! Eu não tinha tempo nem de ler a revista porque quando a revista saía já tinha dois números fechados. Trabalho intenso e de uma vez. Eu sempre fui muito intuitivo, apesar de ser velho eu gostava de fazer o que estava fazendo, quando eu não gostava caí­a fora! Eu sempre fui assim, como diz: “Não importa que a mula manca, o que eu quero mesmo é rosetar” (risos) E a gente arranjou um rapaz, um jovem que tinha acabado de se casar, que era o Dropê. Eu esqueci o nome inteiro e geralmente ele é muito injustiçado porque nunca falam dele. E então ele cuidava desde œdo dos loucos. “Quem é Jimi Hendrix?” Conversa com Dropê, que ele te conta....

Os leitores participavam na redação?

Iam até Botafogo, era um prédio bonito, hoje é uma porção de coisas: boite, etc e tal. Outro interessante foi Joel Macedo. Ele tinha o melhor texto da revista, mas era muito inconstante, porque gostava muito de viajar... Ia ver shows e entrevistava o pessoal... Tinha um texto maravilhoso!!! Ele tinha influência dos jovens jornalistas americanos, o pessoal do New Journalism. A Ana Maria Bahiana falava muito que trabalhava na revista... mas NÃO TRABALHAVA NÃO!!! (risos) Ela ia entregar umas matérias para Maciel. Ela namorava um cara chamado Guerra, e daí eu falei que tinha uma pilha de discos para comentar, perguntei se ela não queria escrever e falei que era para daqui a meia hora. Na verdade não tinha aparelho de som na redação. Mas a coisa era feita, a gente não tinha noção daquela revista, era como um púlpito para gandaia. Eu não tinha noção. Para mim eu estava trabalhando e era intuitivo. Claro que tinha um clima “bicho-grilo”, mas era uma coisa interessante porque as pessoas mais estranhas do Brasil inteiro compravam a Rolling Stone. As vezes a Rolling Stone chegava em Manaus! Olha as vezes não tinha nem na banca daqui, de Ipanema.

Vocês tinham controle sobre as vendas, sobre o retorno financeiro?

Eu não queria saber dessas coisas... Eu sempre fui assim, enquanto as coisas me dão prazer tudo bem... Eu nunca soube mexer com dinheiro, nunca fui ambicioso. Este apartamento quem me deu foi Cazuza há muito tempo atrás. Ah eu não tinha a menor noção....Eu sabia que as coisas pegavam fogo, porque sempre tinha alguém que mexia com dinheiro e que apanhava de alguém. Um dia o gringo veio perguntar por que eu não tinha entrado no horário certo, do expediente, 13h30... Eu respondi que estava na praia, colhendo material para a revista. Eu conversava com as pessoas para saber o que elas estavam ouvindo...

A praia que você se refere é a do píer de Ipanema?

Sim, chegava na redação as 14h e saí­a as 20h, trabalhava MESMO! E aí­ teve uma grande sacada de Maciel... A gente recebia cartas dos leitores, tudo “bicho-grilo”, muitos com o raciocí­nio de um paquiderme e a gente publicava as cartas todas. Tinham algumas cartas boas e noventa por cento imbecilidades: “Ah porque o mundo é assim...” “a natureza está assim...”. Ah, vai trabalhar vagabundo!!!! (risos) Mas aí foi maravilhoso, passou a ser a parte mais importante da revista.

O Jamari França foi um dos participantes e ficou conhecido por uma carta do leitor enviada para a Rolling Stone...

Sim, eu publiquei!!! Eu lancei Jamari!!! Maciel na época falou: “recebemos uma carta aqui que fala que você não entende nada de música!!! Daí­ eu li e disse: “vamos publicar!!!” E ele estava metendo o pau em mim (risos). Ele falava de mim assim: “analfabeto, só fica falando do Rolling Stones!!!!” E você sabe que não tenho coragem de abrir hoje a Rolling Stone que fizemos?

Qual o motivo? Não sente certa nostalgia da época?

Eu gosto muito da palavra “saudades” que só tem em português. Que é uma língua que não está acabada, e que registrou a palavra saudade. Tenho saudades...mas... vamos indo... sei que não tem mais volta. O tempo não pára!

Qual o tipo de som que você está escutando atualmente?

Escuto música o tempo todo!!! O meu som queimou e Frejat me deu um novo. Eu não tenho saudades porque foi tudo intenso, não tem repetição...

Zeca, como acabou a Rolling Stone?

O jornal acabou... Foi uma coisa meio feia... Novembro, dezembro e não entrava mais dinheiro... O pessoal que participava foi levando tudo. Foi chatíssimo para mim...Acabou porque acabou, tinha que acabar, não tinha dinheiro.

Vocês chegaram a preparar um último, um número especial...

Não lembro. Era pirata, eu trabalhava com uma tesoura na mão roubando as revistas musicais norte-americanas, roubando a própria Rolling Stone (risos).

Você ainda tem algum número guardado?

Tenho, em um lugar ali em cima, onde não tenho acesso. Então é isso, a Rolling Stone durou enquanto pôde. Daí­, eu sinto saudades porque foi uma coisa tão diferente de tudo, era muito especial. E eu me vestia de um jeito na época, o pessoal em São Paulo falava: “Você anda numa pobreza!!!” E eu respondia: “Eu ando numa felicidade!!!” (risos) Mas há muita ficção a respeito da revista, eu inventava até discos que não existiam, faixa a faixa (risos).

 

Oi, obrigada pela oportunidade.
Como tem muito chato de plantão, tem uma errata na matéria que é a seguinte: eu .
 
A idéia mesmo é homenagear o Zeca, uma figura que foi ímpar, "sem papas na língua" e com uma graça do tamanho de seu talento. Abraços

 


[i] Patrícia Marcondes de Barros, paulistana, é pesquisadora e professora universitária em Curitiba. Publicou os livros "Panis et Circenses": a idéia de nacionalidade no Movimento Tropicalista (editora UEL, 2000) e "A Contracultura na América do Sol: Luiz Carlos Maciel e a coluna Underground" resultado da sua dissertação de Mestrado. Ainda tem outro sobre a imprensa da contracultura carioca, que ela fez no Doutorado, mas  já é uma outra história

 Sérgio de Carvalho, carioca, é músico, publicitário e dono do Espaço Néctar (Vargem Grande, Rio de Janeiro), produtor do filme “Rolou”, onde conta a história da contracultura carioca.

 

 

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