Caetano e Tom Zé: Ressentimentos, Mágoas ou Falácias


Caetano e Tom Zé: ressentimentos, mágoas, falácias

(Quase bala, a filha das cabalas: balas de estalo, falácias e saídas rápidas pela direita!)

 

Caetano deu uma declaração à imprensa, já há muito tempo, dizendo que Paulo Francis era “uma bicha ressentida”. No recente incidente com Tom Zé, ele também classifica o genial compositor como “ressentido”. Quem não tem ressentimento? Quanta psicologia barata não sai por ai na imprensa e nos botequins em nome da psicanálise?

Pessoas que foram excluídas de processos socioculturais, políticos e artistas importantes não têm o direito a ter lá suas mágoas? Como iremos distinguir mágoa de ressentimento em tão pouco espaço, na imprensa, no jornalismo, nos blogs e sítios da rede mundial de computadores, ou seja, em textos que querem ser sucintos e exigem linguagem acessível a um público não especializado em psicologia? Mas, tentaremos aqui dar um passo nessa direção. A razão dessa audaciosa tentativa é demonstrar que Caetano Veloso, ao menos duas vezes, apelou para o uso dessa terminologia vinda da psicologia, especialmente da psicanálise, de forma falaciosa, em discursos nada louváveis. Se o falante não desenvolve argumentação mínima quando lança mão da adjetivação, ocorre uma falácia. Antes de levantar questões sobre a pertinência das duas acusações de Caetano, é preciso ter alguma definição, algum norteamento, ao menos, sobre o que seja "ressentimento".  

 

Ressentimento

"O ressentimento é um afeto de forte apelo dramático. Funciona bastante bem como elemento polarizador da ação, no cinema ou no teatro, e também para promover a identificação do espectador com alguns personagens, vistos como vitimados pelas circunstâncias ou, principalmente, pelos outros." (Maria Rita Kehl -Desejo e Liberdade: A Estética do Ressentimento. em Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação. Giovanna Bartucci (org.). Rio de Janeiro: Imago, 2000. p. 216).

De acordo com Maria Rita Kehl, o personagem ressentido de um filme "[...] costuma angariar simpatias; suas queixas são repetitivas e fundamentadas, e se ele se coloca como "perdedor" ou, como alguém que ficou para trás na dinâmica das relações sociais [sem grifo no original], isto se dá em razão de sua pureza moral, em sua inabilidade para jogar o jogo das conveniências e das aparências. O ressentido é, por um lado, um que vê a si mesmo como moralmente melhor do que os outros - por outro lado, e por isto mesmo, é um vingativo justificado, coberto de razões".  (Maria Rita Kehl. idem. p. 216).

 

Mágoa

Muito próxima do ressentimento, está a mágoa. Tão próxima e tão distinta, simultaneamente, em um só golpe! Se alguém fica de fato "[...] para trás na dinâmica das relações sociais." e, assim se encontra justamente por ter sido ingênuo, razoavelmente puro, moralmente pertinente, esta pessoa não pode receber, repentinamente, o rótulo de ressentido. Por outro lado, como o humano é impreciso e inevitavelmente sujeito a erros e confusões, para além da mágoa pode ainda, mesmo quando "coberto de razões" de fato e não por ilusão, pode sim subsistir algum ressentimento.

Não vou poder me deter aqui na bala de estalo lançada por Caetano contra Paulo Francis. No caso de Tom Zé, entretanto, existem razões de sobra para crer que sua reação negativa ao elogio de Caetano não pode ser assim, com toda facilidade e sem maiores argumentações, taxada como uma atitude "ressentida", como um "surto de ressentimento", como disse Caetano.

Vá lá, que haja algum ressentimento no enorme, gentil e humano coração de Tom Zé. Vamos considerar, apenas hipoteticamente, que Tom Zé tem ressentimentos em relação ao grupo baiano. Não será nem um pouco difícil argumentar e demonstrar, com considerável razoabilidade, que a reação do "Herói de Irará" ao elogio, à adulação de Caetano demonstra que existem motivos de sobra para a existência de mágoas. Se algumas mágoas acabaram maturadas, curtidas ao ponto de soar, cheirar e parecer sob muitos aspectos com algum ressentimento, isso não habilita ninguém a colocar toda atitude forte e séria de Tom Zé na vala comum e fácil do ressentimento. Saída rápida pela direita é o que acudiu o discurso de Caetano!

Quase bala, a filha da Cabala, machadadas de estalo: Quem não é ressentido, que atire a primeira falácia!

Toda essa psicologia resumida, rápida e quase rasteira me faz lembrar das reflexões de Tom Zé sobre os complexos dos Compositores Brasileiros.

 

 

 

Complexo de épico
 

 

 

Todo compositor brasileiro é um complexado. 
Por que então esta mania danada, 
esta preocupação 
de falar tão sério, 
de parecer tão sério, 
de sorrir tão sério, 
de chorar tão sério, 
de brincar tão sério, 
de amar tão sério? 
Ah, meu Deus do céu, 
vá ser sério assim no inferno! 
( Tom Zé )  

 

Depois de ouvir essa canção, tem que ter muita coragem para sair por ai dizendo que Tom Zé teve lá algum surto de ressentimento.  Ele está aquém e além do jogo daqueles que traem sua poesia e estão sempre prontos para "[...] sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus." (Torquato Neto no Artigo Pessoal Intransferível publicado na coluna Geléia Geral, Jornal do Brasil.)

 

Sandro Alves Silveira

 

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