Alan Parker. "Roger Waters é Satanás!"

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Entrevista http://www.ionline.pt/conteudo/111806-alan-parker-roger-waters-e-satanas
 

Alan Parker. "Roger Waters é Satanás!"
Publicado em 21 de Março de 2011  |  Actualizado há 13 horas

No dia em que Roger Waters actua em Lisboa, o realizador de "Pink Floyd The Wall" fala da (má) experiência de trabalhar com o fundador da banda inglesa

Roger Waters sempre teve fama de não ser um tipo fácil. Pode ser um dos maiores génios da história da música, mas quem conviveu de perto com ele - quer durante o período dos Pink Floyd quer já depois do fim da banda - conta que tem um problema temperamental. Uma dessas pessoas foi Alan Parker, realizador do filme "Pink Floyd The Wall", de 1982, baseado no histórico álbum da banda inglesa e no espectáculo "The Wall". Vinte e oito anos depois do lançamento do filme, Roger Waters regressa hoje e amanhã a Portugal - ao Pavilhão Atlântico -, precisamente para mostrar o concerto que deu origem a este filme. Num encontro que o i teve em Marraquexe com Alan Parker (realizador de "Evita" e "Mississípi em Chamas"), o cineasta contou-nos que fazer este filme com Waters foi das piores experiências profissionais da sua carreira. Ainda assim, "Pink Floyd The Wall" é uma referência no género cinematográfico. Curioso é que Parker e Waters não se encontram, precisamente, há 28 anos.



Quando entrou no projecto do filme, em 1982, o guião já estava escrito pelo Roger Waters. Como foi trabalhar com ele?

Antes de eu estar envolvido no projecto, o disco já tinha sido um sucesso. E os Pink Floyd já tinham feito um brilhante espectáculo de rock and roll, elaborado. Nesse espectáculo foi construído um muro gigante em que não se conseguia ver a banda, que estava por trás do muro. Com três máquinas, eram projectadas imagens nesse muro. É muita dessa animação que aparece no filme. Por isso já estava muita coisa feita, como aquela imagem muito famosa das duas flores a fazerem amor, um trabalho extraordinário de Gerald Scarfe. Já estava tudo bastante adiantado quando entrei. O que o Roger Waters me pediu foi que ajudasse a torná-lo num filme. No início ia só produzi-lo, juntamente com o Roger.

Então como acabou sentado na cadeira de realizador?

Na versão original era para haver algumas imagens de um concerto em Londres, mas ficou um desastre. Então vieram ter comigo e pediram-me que o realizasse. E eu disse ao Roger que aceitava o convite, mas que ele tinha de se afastar, por ser muito dominador. Ele tem uma personalidade muito forte... não é muito agradável. O filme foi feito em três meses, mas não foi fácil. Como disse, o guião estava feito, mas tinha apenas 20 páginas. Não era bem um guião! Tivemos de o ir compondo durante as filmagens.

Pois, era o primeiro guião do Roger Waters. E ele não tinha muita experiência, pois não?

Pois, por isso é que o fui ajudando.

Mas como reagiu a esse pedido de ajuda do Roger? Disse que ele era uma pessoa dominadora.

Dominadora é pouco! O homem é Satanás! É uma pessoa muito difícil. E aquele filme era o bebé dele, o seu sonho. Pertencia-lhe mais do que qualquer outra coisa. Eu fiz o filme e tenho muito orgulho, mas foi uma experiência miserável. Não gostava de repetir. Mas para que veja eu nunca mais estive com o Roger Waters desde o dia em que acabámos o filme. E isto passou-se em 1981. Estamos a falar de 30 anos...

O filme estreou-se no festival de cinema de Cannes, certo?

Sim, essa foi a última vez que o vi, precisamente. E foi uma experiência impressionante: levámos dois camiões carregados de equipamento dos Pink Floyd e a exibição do filme foi feita no antigo palácio de Cannes, na sessão da meia-noite. Estava tudo à espera... o filme começa de forma muito silenciosa e depois o som explode! Conseguiam sentir-se as vibrações no ar! A tinta do tecto do palácio começou a cair em cima das pessoas. Parecia caspa, foi incrível! No ano seguinte a organização mudou para o novo palácio. Houve quem tenha dito que destruímos aquele velho palácio [risos].

Mas sabe porque é que o Roger nunca mais falou consigo?

Nós não nos dávamos bem. Eu não gostava dele e ele não gostava de mim. Nunca mais ouvi falar dele. Curiosamente até à semana passada [em Dezembro]: recebi uma mensagem da assistente, a dizer que o Roger gostava muito que eu fosse ao concerto em Londres, agora em Março. Talvez tenha um novo psiquiatra! [risos]

Também parece que está de volta a boa relação com o companheiro dos Pink Floyd David Gilmour. Acha que é uma nova era para o Roger Waters?

Talvez. Pelo menos comigo está a ser simpático! Mas sabe que eu sempre disse que fazer filmes é óptimo se implicar passar um bom bocado. Mas passar um bom bocado não é garantia de poder ser criativo. E, para mim, "Pink Floyd The Wall" foi feito em condições verdadeiramente miseráveis por várias razões. Primeiro porque o Roger é um megalomaníaco e porque eu também sou um megalomaníaco. Ele estava habituado a estar em controlo completo do mundo dele e eu a estar em controlo completo do meu. Então havia este conflito. E pelo meio havia ainda o Gerald Scarfe, que também detestava todo o meu controlo!

O engraçado é que, mesmo assim, com tantos conflitos, é um filme brilhante e uma referência.

Tem sido muito influente para muita gente, sim. Recentemente estava a guiar em Los Angeles, ao pôr do Sol, a ouvir rádio, e estava a passar uma entrevista com o Christopher Nolan, que realizou "A Origem". E ele disse que mostrou "Pink Floyd The Wall" aos técnicos e à equipa antes de começar a rodar esse filme... Fiquei muito contente.

E agora, tem planos para filmar a curto prazo?

Tenho alguns guiões, mas que não tive dinheiro para filmar. É muito normal isso acontecer hoje em dia. Os estúdios fazem filmes muito grandes e caros e para públicos mais jovens, com muitos efeitos especiais. E o que eu quero fazer é muito caro. Mas quero fazer um filme este ano. Há pouco tempo estava num táxi, em Londres, e o condutor diz-me: "Eu conheço-o! O senhor não era o Alan Parker?" Eu respondi: "Era? Mas eu ainda sou!" Por isso tenho mesmo de fazer um filme. Nem que seja para calar os taxistas. E a minha mulher, que me quer ver fora de casa pelo menos uns cinco meses.


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