BLUR: Londres, 1997, Barbieri participa de coletiva com a imprensa e comenta o novo álbum!

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Blur, tudo pronto para a coletiva! Foto: Antonio Celso Barbieri


Blur

Em 1997, Barbieri participa de coletiva da banda com a imprensa e
aproveita para comentar o lançamento do novo álbum homônimo!

Coincidindo com o lançamento de seu novo álbum homônimo, a banda Blur convidou a imprensa mundial para um bate-papo no prestigioso Café Royal, perto de Oxford Circus, bem no centro da capital inglesa. Longe de ser um café, no sentido normal da palavra, o Café Royal é um prédio grande e muito antigo, tendo aquelas portas giratórias na entrada, coisa de filme. Dentro do edifício, podemos encontrar vários ambientes espaçosos acarpetados com tapetes avermelhados e decorado com uma mobília em que os tons dourados são dominantes dando, um ar de realeza para todo o lugar. Quer dizer, estamos falando de um lugar bem conservador, bem aristocrático e naturalmente bem britânico. Um lugar normalmente reservado para conferências e banquetes homéricos.

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Apesar do dia escolhido (10 de fevereiro) ter caído numa típica segunda-feira inglesa, fria e chuvosa, ao chegar no local já encontrei muitos jornalistas e pela movimentação dava para perceber que a Eloise Veis (responsável pelo Departamento de Imprensa Internacional da EMI) tinha orquestrado tudo muito bem, reunindo jornalistas do mundo todo. Mais de 10 emissoras de TV, 100 jornalistas e um batalhão de fotógrafos disputavam os melhores lugares.

Não faltaram nem aqueles fotógrafos precavidos que trouxeram seus banquinhos e escadinhas para subirem em cima e, assim, conseguirem um melhor posicionamento.

Uma porta voz da gravadora anunciou que Blur estaria apresentando-se como banda principal no famoso V97 Festival daquele ano, festival organizado pelo magnata Richard Branson dono, entre muitas empresas, da companhia aérea Virgin Airways.

Em seguida, a profissional, fez um breve relato do currículo da moçada e, convidou-os para entrarem na imensa sala para darem o início à coletiva.

Os quatro rapazes entraram por uma porta lateral e a impressão que eu tive foi a de que, ou eles estavam dormindo lá trás ou não tinham lavado o rosto, nem penteado o cabelo quando levantaram-se naquela manhã. A coletiva começou com 5 minutos de fotos onde os  músicos ficaram, sem jeito, como garotinhos, posando timidamente na frente de um painel pintado com as cores da capa do último álbum, painel este, obviamente especialmente preparado para o evento.

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BLUR - A Coletiva

Como na noite anterior, o boato que corria na imprensa era o de que naquela segunda-feira, Liam Gallagher, vocalista da banda Oasis (seus rivais) e a modelo Patsy Kensey estariam casando-se bem no meio do gramado do Estádio de Wembley (o que, na verdade, não aconteceu), a primeira pergunta já tocou na ferida:

Jornalista: Vocês não estão com medo de que todo este falatório sobre o casamento do Liam e a Patsy possa obscurecer o lançamento do seu álbum e do seu show (a banda se apresentaria nesta mesma noite no London Astoria).

Damon Albam: “É muito fácil obscurecer isto, não é mesmo?” O vocalista respondeu com ironia apontando para a enormidade de repórteres presentes e continuou: “É muito mais fácil tentar obscurecer o show porque ele será muito pequeno, mas isto nem passa pela nossa cabeça.”

Jornalista: Vocês acham que seu público está gostando da sua nova direção musical?

Damon: “Sim, eles parecem que estão pulando para cima e para baixo tanto quanto eles costumavam pular.”

Alex James: “Eu penso que os garotos estão usando mais os ouvidos do que eles costumavam fazer.”

Jornalista: Que resultado vocês esperavam conseguir com este álbum?

Dave Rowntree: “Eu penso que foi muito fácil decidir o que a gente não queria fazer.”

Damon: “Nós somente decidimos que nós não queríamos usar instrumentos de sopro, cordas (violinos e similares) e harmonias demais. Quer dizer, seria um álbum um pouco arriscado.

Jornalista: Você deve pensar que o tempo do Brit Pop já foi... Mas, você não acha que o Grunge norte americano soa ainda mais antigo e está totalmente vendido? (Esta pergunta foi feita naturalmente por um jornalista inglês e refere-se ás bombásticas declarações da banda dizendo que o Brit Pop já morreu fazem 3 anos e que eles já não são mais influenciados por bandas como The Kinks e sim por bandas norte americanas, como Beck.

Damon: “Obviamente você não ouviu o novo álbum se é assim que você deduz que o álbum soa. Eu não diria que o álbum soa Grunge, muito embora ele seja muito “Gritty” (numa outra entrevista ele disse que o som deles estava mais para Iggy Pop do que para Brit Pop). Trata-se simplesmente do original "fucking rock music" direto do nosso coração para o seu!”

Grahan Coxon: “Eu queria fazer um disco de jazz, mas nós ainda não somos bons o suficiente para tocar isso.”

Jornalista: Por que vocês foram gravar na Islândia e é verdade que possuem próprio bar lá?

Damon: “ Sim. E parem de falar para o povo ir lá, seus putos!” (risos)

Jornalista: Ir para a Islândia foi um jeito que vocês encontraram para arejar as idéias e reinventar vocês mesmos?

Damon: “ A palavra reinventar eu simplesmente não entendo. Nós simplesmente crescemos um pouco como pessoas. Quando nós fomos lá pela primeira vez eu me senti muito entusiasmado em falar a respeito porque eu sou do tipo de pessoa que, quando me impressiono, gosto de falar. Entretanto, este assunto subitamente transformou-se em algo que eu não quero falar nunca mais. “(O que se fala é que no episódio “Blur versus Oasis” na batalha de palavras publicamente trocadas através da imprensa mundial, a banda Blur levou a pior. Isto resultou num quase colapso do grupo e afetou seriamente Damon, em particular. Os músicos foram abatidos por forte depressão e retiraram-se para a Islândia, com o intuito de se recuperarem do desgaste psicológico sofrido).

Jornalista: Vocês foram para o estúdio com uma idéia exata do que iam gravar ou vocês ficaram surpresos com o resultados final?

Damon: “Foi uma surpresa..”

Alex: “Você sempre entra, cerra os dentes e toca intensamente. Depois, quando se escuta o que foi gravado, a gente se pergunta: O que nós fizemos?”

Damon: “Eu não penso que a gente pode escolher o tipo de música que faz..”

Alex: “A maior diferença que existe entre este álbum e os outros quatro anteriores é que neste nós tocamos muito juntos e não fizemos nada. Nós simplesmente preferimos deixar as coisas como ficaram..”

Minha chance para fazer 3 perguntinhas... (aliás, as duas primeiras foram incluídas nas matéria da revista Melody Maker)

Barbieri: Vocês aplicaram tecnologia de forma diferente neste álbum? Vocês usaram samplers?

Alex: “Sim, um pouco...”

Dave: “Nós estivemos operando um pouquinho na era digital com o novo computador Atari do Stephen Street.” (risos)

Nota do Barbieri: À vários anos a empresa Atari parou de fabricar computadores. Hoje em dia, o único jeito de conseguirmos um é usado. Houve um tempo em que o computador Atari foi um componente obrigatório em qualquer estúdio de gravação profissional. Já em 1988 eu comprei o meu primeiro, um Atari 520ST. Atari foi até agora o único computador que, já veio de fábrica com um interface MIDI (In & Out) instalado no próprio aparelho permitindo, com a ajuda de um seqüenciador, controlar instrumentos musicais tipo samplers e teclados. Ter um Atari rodando um MIDI seqüenciador alemão Steinberg Cubase, era considerado o máximo em termos de tecnologia!

Barbieri: Será lançado algum remix de alguma música do novo disco?

Damon: “Nós temos uma ou duas pessoas que nós gostamos e que fizeram suas versões. Eu preferiria não chamar de remixes e sim de regravações.”

Barbieri: A última. Vocês têm algum plano para tocar no Brasil?

Damon: “Sim!” (Respondeu com cara de desconsolado, querendo dizer que já era tempo de isto ter acontecido, com os outros membros da banda acrescentando nomes de outros países, “Austrália, etc, etc...”

Jornalista: Na música Essex Dogs você fala de ataques de pânico. Qual é a razão e o por que da capa do disco?

Damon: “Bom, eu sofri ataques de pânico por uns 18 meses e eu suponho que é por isso que eu mencionei na música, capturou bem a idéia. Eu penso que é bem próximo de um ataque de pânico musical.”

Jornalista: E a capa?

Damon: “Quando eu a vi pela primeira vez eu disse: De jeito nenhum! Porque ela sugere morte. Mas, também pode ser parto. Quer dizer, é meio ambígua.”

Jornalista: Então, onde este álbum está na “curva” de criatividade do Blur? (Uma pergunta tentando forçar uma auto-avaliação da moçada)

Graham: “ No começo eu penso...” (Graham é interrompido pelo Damon)

Damon: “...nós somos somente uma destas bandas que tem muitos lados diferentes e leva muito tempo para por tudo isso para fora.”

Alex: “...a curva criativa do Blur é alguma coisa parecida com uma "Sine Wave”. (Sine Wave é uma representação gráfica de um tipo de freqüência; foi uma forma simbólica para ele dizer que a banda uma hora está por cima e outra está por baixo)

Jornalista: O que vocês acham deste furor da imprensa sobre as declarações de Noel Gallagher (Oasis) sobre drogas? (Refere-se à defesa que Noel fez à um membro banda East 17 e suas afirmações favoráveis à droga Ecstasy. Um dos músicos da banda East 17 fez uma defeza pública do Ecstasy e, sua atitude custou-lhe a expulsão da banda)

Damon: “Eu discordo totalmente dele. Eu não penso que gente na nossa posição deveria emitir opinião sobre este assunto.”

Alex: “Quando eu vou no dentista eu espero que ele não esteja louco da cabeça(!?). Provavelmente está tudo certo para pop stars. Mas, eu acho esse assunto um debate muito chato.”

Jornalista: Vocês pensam que deve haver um debate para saber se as leis a respeito de drogas devem ser mudadas?

Damon: “Sim, mas eu penso que o povo envolvido precisa estar preparado para sentar e ser inteligente a respeito disto.”

Dave: “Eu realmente não acredito que nenhuma das opiniões destas pessoas sejam muito objetivas de qualquer forma.”

(Como a Inglaterra estava em época de campanha eleitoral, os políticos estão tentando associar seus nomes com bandas famosas, daí a próxima pergunta.)

Jornalista: Qual é a sua opinião á respeito da campanha “Rock the Vote”? (Rock no sentido de descartar, jogar fora) É verdade, Damon, que no começo você apoiou a campanha mas depois abandonou-a porque você sentiu que eles estavam usando seu nome demais?

Damon: “Não, eu nunca disse que apoiava a campanha. Eu estou com o saco cheio de ser mencionado nos jornais somente porque eu não valorizo as opiniões deles a respeito do que eu faço.”

Alex: “É uma lata cheia de vermes! Nós poderemos começar a ser questionados interminavelmente à respeito de política se ficarmos falando de política e este não é o nosso lugar. De qualquer forma, música é melhor do que política.”

Dave: “Eu estou cagando para toda esta merda. Os políticos gostam de se envolver com as bandas porque elas fazem com que eles pareçam jovens e dinâmicos e, no final das contas, deixam as bandas parecendo velhas e estúpidas.”

Damon: “Se é de alguma ajuda para vocês, eu votarei Labour (Trabalhador).”

Alex: “E eu sou fucking Tory (Conservadores)”.

Jornalista: Vocês estão tentando se distanciar da era do Parklife?

Damon: “Não. Nós tocaremos material de todos os nossos álbuns anteriores porque tem gente que está conosco desde o começo.”

Jornalista: Por que você se sente culpado por The Great Escape ter se transformado num sucesso Pop adolescente?

Damon: “Esta é uma pergunta estranha. Eu não me sinto culpado a respeito disto. Eu não tenho problemas com a idéia de que você realmente pode mudar sua opinião sobre as coisas.”

Graham: “Eu penso que nós estamos sempre satisfeitos com cada álbum que fazemos, mas agradecemos a Deus que as coisas possam ser melhoradas e que nós possamos nos distanciar de qualquer música ou pronunciamento que fizermos.”

Jornalista: (Jornalista Espanhol) No verão passado vocês tocaram nos Pirineus e vocês não soaram muito bem! Eu não sou um grande fã do Blur. Vocês dão o melhor de si quando tocam na Europa, do mesmo modo quando tocam na América e aqui em Londres, ou vocês fazem qualquer merda?

Alex: “Vai se foder, cara!”

Graham: “O que você está fazendo aqui então?”

Damon: “Nos Pirineus, os organizadores puseram a gente para tocar lá pelas 4 da manhã. Nós tomamos litros de café para ficarmos acordados. Você somente não gosta da gente. Eu aposto que você estava vendo aquela banda de Heavy Metal no outro palco. Você viu a gente no show de Madri? O que você achou daquele show?

Jornalista: “Foi muito bom, foi excelente!”

Jornalista: Vocês não têm medo de que “Blur” (o nome do novo álbum) seja um suicídio comercial?

Dave: “Talvez pareça isto, mas eu não acho que será..”

Neste mesmo dia, á noite, a banda apresentou-se no London Astoria para uma platéia composta na maioria por jornalistas e amigos convidados. O show rolou bem, mas quando a luz acendeu, o povo reconheceu num dos balcões superiores duas garotas da banda Spice Girls (Geri e Mel C) acompanhadas do ex-ator de novela e cantor Sean Maguire. Imediatamente, o público começou a gritar palavrões que, foram seguidos de uma chuva de latas de cerveja vazias. Sean ainda teve tempo de devolver umas latas para baixo antes que os seguranças aparecessem e os escoltassem para fora.

Blur /Blur (EMI Records/Parlophone)

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Depois de Leisure, Modern Life is a Rubbish, Parkelife e The Great Escape, a banda nos brinda com este auto intitulado álbum, onde seus músicos assumem muitos riscos e conduzem o som do grupo polemicamente para novos territórios.

Nesta produção, a banda não escondeu ter sido influenciado por grupos norte americanos entretanto, o álbum, refletiu isto mais em termos do tratamento do som do que na emulação de algum estilo em particular. O som parece mais sujo e cru e as músicas passam uma idéia de que foram finalizadas sem muita atenção aos detalhes. Mera ilusão!

Gostei! Quero dizer, sempre que uma banda foge das fórmulas pré estabelecidas, em princípio, já dou um ponto. Obviamente, o álbum, por seguir uma linha não tão comercial, certamente não agradará aqueles que só querem ouvir The Beatles “revisitado”. Mas, os fãs mais ardorosos, mais antigos, podem ficar tranqüilos porque a primeira música do álbum chamada Bleetlebum foi feita sob medida para eles.

Já a próxima, Song 2, é uma paulada na cabeça, pesadíssima e até lembrou-me a banda Korn. Song 2 é minha preferida. (Esta música acabaria, com o tempo, transformando-se material obrigatório em todo show. Esta música foi usada na TV inglesa, incontáveis vezes como trilha sonora de comerciais).

A terceira, Cowntry Sad Ballad Man achei cômica, com o vocalista cantando agudo com e com uma voz tipo Prince.

No total são 14 músicas onde o experimentalismo com sonoridades eletrônicas, loops de guitarras distorcidas misturam-se com grooves e efeitos vocais resultando numa salada de estilos. Esta oferenda é um quebra-cabeças sonoro, onde as peças nem sempre encaixam-se com facilidade mas que, nem por isso, não impedem que o resultado tenha um saldo positivo, presenteando-nos com vários momentos muito interessantes e cheios de criatividade. Em termos “Bleatlemaníacos”, este álbum homônimo está mais para o The White Album do que para um Let it Be ou Abbey Road. Hiiiiiuuuuu! (Escute a música Song 2 que você entenderá!)

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Esta matéria é de autoria do Barbieri e foi originalmente escrita para a Revista Dynamite, tendo sido publicada na sua edição de junho 1997 .

 

Copy Desk

Andrea Falcão

 

Diagramação, Revisão e Atualização

A. C. Barbieri

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