Onde quer que você queira ir

 

Onde quer que você queira ir
(Mário Pacheco)

 

José Emílio Rondeau — Como foi que você começou a se interessar por assuntos espirituais?

George Harrison — Bem, um dia, eu, John e nossas esposas fomos jantar. E John colocou ácido em nosso café. Nós não sabíamos o que era aquilo, e ele nos disse: "Aconselho que vocês não saiam". Depois, pensando que ele nos estava convidando para uma orgia em sua casa, saímos. Acabamos entrando numa discoteca chamada Ad Lib - e uma porção de coisas incrivéis começaram a acontecer. Parecia que estávamos na pré-estréia de alguma coisa, achamos que o elevador estava em chamas (havia apenas uma luz vermelha), e quando saímos dele estávamos todos gritando. Foi incrível. E depois dessa experiência de deixar meu próprio corpo, de ver meu ego, passei a procurar alguma coisa mais real. Então me liguei em música clássica indiana, fui a Índia, passei algum tempo com Maharishi Mahesh Yogi, em Bangor, para me encontrar. (Hit Pop, 1979).

Um jantar bacana na primavera psicodélica de 1965, durante a filmagem de Help!, jamais seria esquecido quando contra suas vontades, John e Cynthia Lennon, George Harrison e Patti Boyd (mais tarde Harrison), deram um salto escuro em rumo ao futuro colorido colocado nos seus cafés.

O cuidado com os dentes se tornaram uma grande preocupação para os Beatles desde que se tornaram as pessoas mais fotografadas do show biz de sua época. George se tornara amigo do dentista dos Beatles em Londres, Eric Cousins (nome fictício).

Os Beatles achavam que o dentista era uma espécie de gozador chegado a uma orgia e suspeitavam das intenções amistosas dele, mas depois de muita insistência George e John aceitaram um convite para jantar em seu apartamento.
Assim que entraram, os quatro convidados vêem os cubos de açúcar bem arrumadinhos sobre a lareira, no living, mas ninguém chega a tocar no assunto. A conversa durante o jantar rola desde sexo até um cara norte-americano chamado Timothy Leary, que nenhum dos convidados conhecia, exceto John, que já ouvira falar alguma coisa sobre uma droga nova e assustadora chamada LSD. Todos os liberais de classe média de Londres, tinham ouvido falar de ácido, e eles não sabiam que era diferente de fumo ou das bolas. Depois que o jantar foi consumido e sem explicar o significado do que estava fazendo, o dentista, com certo ar ritualístico, colocou um cubo de açúcar em cada xícara de café servida. Pattie se mostrou relutante em terminar a dela, mas Cousins insistiu que ela tomasse até a última gota.

Quando todo o café já tinha sito tomado, Cousins explicou o que acabara de fazer Cynthia e Pattie Boyd, ficaram tomadas de terror, não porque já compreendessem os efeitos do LSD, mas porque tiveram a impressão de que era algum tipo de afrodisíaco e que uma orgia viesse a acontecer. George, John e as garotas imediatamente pediram desculpas e se prepararam para sair, mas o dentista aconselhou que eles não saissem; não seria seguro estar nas ruas quando o efeito da droga começasse. Mas os Beatles não desistiram de ir embora, e rapidamente vestiram seus casacos, ganhando as escadas. Cousins, preocupado com a segurança deles, seguiu-os de carro com sua namorada. George dirigiu a uma velocidade enlouquecida pelas ruas de Londres, tentando livrar-se dele. Cousins conseguiu ficar grudado na traseira do carro de George até o Paickwick Club, uma casa noturna então muito popular, aonde eles decidiram ir.

Os Beatles não sabiam o que estava acontecendo, e pensavam que estavam enlouquecendo. Era insano andar por Londres de ácido. Tinham ido comer no Pickwick e as coisas estranhas começaram a acontecer. O salão parecia maior, mais comprido, a luz negra assemelhava-se a uma série de luminosíssimos espocares de fogos. A multidão à volta deles parecia ondular e pulsar, fazendo-os se sentirem tão pouco à vontade que saíram poucos minutos depois. Com Cousins atrás deles, aconselhando-os a voltarem para seu apartamento, os dois casais dirigiram-se para a discoteca Ad Lib, onde esperavam que o ambiente e as pessoas mais familiares a eles pudessem ajudar a acalmá-los. Quando estavam chegando, pensaram que o clube estivesse pegando fogo, depois pensaram que era uma estréia e que havia um holofote do lado de fora. Eles pensaram, porra, que é que tá acontecendo aqui? Eles estavam rindo pelas ruas, e durante o caminho as pessoas gritavam: Vamos quebrar uma janela. Pattie teve que ser segurada para não dar vazão a uma compulsão inexplicável de quebrar todas as vitrines das lojas ao longo da rua. Eles estavam simplesmente insanos. Tinham simplesmente perdido a cabeça...

Finalmente chegaram ao elevador, e todos eles pensaram que estavam pegando fogo. Era só uma luzinha vermelha, e lá estavam eles gritando: aagh, assim, e todos histéricos e morrendo de calor. Chegaram ao andar - a discoteca era no alto de um prédio - e o elevador pára, a porta abre e lá estavam eles outra vez: aaagh. Aí viram que era o clube, entraram, sentaram, e a mesa estava se alongando. Fazia poucos momentos que eles estavam no Ad Lib, quando o dentista, que chegara pouco depois sentou-se à mesa deles e se transformou num porco, ali mesmo, na cadeira.

Era exatamente o que John tinha lido sobre os efeitos do ópio, e ele pensou: Porra! Está acontecendo!

Eles deram um jeito de sair do clube, deixando o dentista e a namorada para trás. De alguma forma, George conseguiu dirigir o seu Mini e levou todos para sua casa. A viagem de 45 minutos levou horas, porque George não conseguia ir mais rápido que 20km por hora - e parecia mil. Cynthia, sentada atrás, ficou enfiando os dedos na garganta, na esperança de vomitar o cubo de açúcar. John não conseguia parar de despejar piadas histéricas. George dizia: Não me faça rir, não, ó Deus. Patti dizia: Vamos saltar e jogar futebol. Tinha umas traves grandes de rugby, ela estava aterrorizada e tendo uma crise de claustrofobia no pequeno automóvel.

Quando eles finalmente chegaram à casa de George, trancaram o portão, a porta e todas as janelas. A casa parecia um grande submarino, e John o estava pilotando e parecia flutuar acima da parede, que tinha seis metros de altura. George pegou sua guitarra e começou a tocar, espantado de ver as notas saírem do instrumento como se fossem tiras de plástico colorido. John se ocupou em fazer uns desenhos. Um era do rostos dos quatro Beatles dizendo: Nós todos concordamos com você! Depois John deu os originais para o Ringo: Ele fez um bocado de desenhos aquela noite.

Patti e Cynthia não conseguiam dormir, nem estavam tendo alucinações agradáveis. Pattie estava enroscada com seu gatinho no chão do quarto, convencida de que tinha sido transformada permanentemente e que nunca voltaria a ser sã.
Cynthia tinha a esperança de descobrir um meio de se ver livre daquilo, porque estava tomada pela terrível convicção de que o que lhe acontecia era irreversível.


"Era como se eu nunca tivesse saboreado, falado, visto, pensado, ou escutado devidamente antes”, disse George. “Pela primeira vez eu estava inconsciente".

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