Rock Argentino

 

 Por: Billy Bond
A Argentina faz um rock de primeira

“O ROCK não é nada mais que esta e todas aquelas capitais onde a vida anula a vida, onde o som de uma guitarra traz um ensurdecedor murmúrio: o das gargantas humanas”. Luis A. Spinetta – músico-poeta argentino 1970)


Buenos Aires é a capital da Argentina, uma cidade grisalha-austral, 8 graus abaixo de zero no inverno, 25 graus no verão, colonizada por espanhóis e ingleses, povoada por espanhóis e italianos e, após a segunda grande guerra, dominada pela repressão cultural e social de um regime militar. Buenos Aires, A rainha del plata era a Capital do Tango. O tango é uma música sentimental, de fossa dançada com coreografia sem nenhum tipo de ligação com a juventude dos anos 60, que, inconscientemente, o renegava. O jovem, no meio do seu tédio, procurou informações musicais na música americana ou inglesa porque queria um som diferente que mexesse com seus pés e a sua alma: o rock and roll. Através de discos importados ou revistas) já que não havia muita informação na mídia daqueles tempos), pequenos grupos de músicos superjovens iniciavam-se com absoluta devoção ao movimento que começava a tomar conta da Europa e Estados Unidos: Chuck Berry, Muddy Waters, Gene Vicent, pioneiros do rhythm and blues e, logo, muito imitados por Rolling Stones e milhares de grupos do mundo inteiro. Assim começa o fenômeno musical de todos os tempos na Argentina (20 anos de rock and roll) 70% do mercado fonográfico atual é rock nacional de primeiríssima qualidade, cantado em castelhano e produzido no país. Para vocês terem um exemplo do potencial deste mercado, o grupo Seru Giran lota estádio de 70.000 pessoas, existem 8 revistas especializadas em rock, MTV, 4 rádios FM, os dois jornais principais mantém um suplemento diário de rock e dois grupos brasileiros, 'Paralamas e Titãs', lotam pequenos mini-estádios cantando em espanhol, duas atrações internacionais atuam, em média, por semana na Argentina.

O Brasil teve sua oportunidade de ser assim, mas as condições aqui foram diferentes. Primeiro: o Brasil tem uma música muito forte ritmicamente, derivada dos negros. Veio a Tropicália com força devastadora, satírica, contestadora, para cima, com humor e cheia de qualidade sonora, admirada e imitada dentro e fora do país, Estados Unidos e Europa caíram aos seus pés. Enquanto os garotos argentinos tiravam os acordes das músicas de B.B. King, os brasileiros tinham seu próprio barato, tirar o som dos Mutantes, Caetano ou Gil. Este início de música dos argentinos fez com que, de alguma forma, fossem criados alicerces muito fortes para consolidar toda uma geração de músicos do blues. A herança desta geração foi uma nova etapa no processo de mutação, fazendo com que os músicos dessem um passo à frente: trocar o inglês pelo espanhol e criar uma nova fórmula: “A Música Urbana Argentina”. Através do Jornal Mixer, tentarei contar um pouco dessa história musical, ilustrando com dados técnicos, fotos e entrevistas de grupos que fizeram parte dela. (Billy Bond in 1995, Mixer Jornal de Música).

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O rock argentino sempre foi uma incógnita no Brasil pela falta de informações. Esta introdução detalha a gênese de um vocabulário próprio, onde os argentinos substituem o inglês pelo espanhol e criam uma música jovem e urbana baseada nos clássicos e nos velhos mestres da guitarra. Caberá ao grupo Manal (Javier Martinez, voz e bateria; Cláudio Gabis, guitarra e Alejandro Medina, contrabaixo) desenvolver a sonoridade negra ao cantar em espanhol. Manal é o primeiro trio que canta o blues em castelhano e interpretando-o em nível de vanguarda, tanto no aspecto técnico como criativo. Outro grupo argentino Los Gatos, cujo guitarrista era Pappo, se aventura fora de seu país participando no Festival Internacional da Canção, aqui no Brasil. Tudo isso no final dos anos 60. (Mário Pacheco)

 



Manal
Por: Billy Bond, Mixer Jornal de Música

Manal

Manal: Claudio Gabis, guitarra; Javier Martinez (bateria) e Alejandro Medina (baixo)

O grupo Manal inicia sua carreira no rock argentino em meados de 68; o mundo se agitava com a famosa revolução dos estudantes franceses, o som da moda era Miriam Makeba, os seriados de tevê eram “Sugarfoot”, “Pop New 68”, as revistas de Buenos Aires eram superficiais mostrando a moda “King Road” versus “Carnaby st”. Javier Martinez (voz e bateria) Claudio Gabis (guitarra) e Alejandro Medina (baixo elétrico), entonaram pelos “callejones portenhos” os primeiros gritos do blues em espanhol. Alguém falou que Javier Martinez tinha nascido cantando blues e não chorando: desde o começo, é absolutamente fanático pela música negra.

Dedicou-se anos para encontrar uma maneira de chegar à sonoridade negra para cantar em espanhol. Isso lhe custou muito já que o inglês é um idioma duro e cortado e ele deveria conseguir um timbre diferente nas frases em espanhol.

Em 31 de março de 1969, Manal se consagra definitivamente para o público e mídia argentina realizando o seu primeiro concerto lotado (389 pessoas) no espaço Instituo de Tella às 20 h em ponto. Manal foi apresentado como o único grupo de soul fraseado em castelhano.

Javier Martinez profetiza: “Essa forma musical pertence aos negros. Os brancos a capturaram para expressar-se, negando-lhe a autenticidade baseada na cor da pele e as suas implicâncias psicossociais. A partir disso, os brancos e os negros criam uma nova forma moderna que rompe com outro ritmo denominado rock”. E a imprensa confirma: blues em castelhano.

“Esse tipo de música é escutado no seu idioma original pelas elites dos diferentes países, enquanto os músicos se expressam no seu próprio idioma: a música. Agora surge Manal, bem aceito pelas elites. É a primeira vez que o blues é cantado em outro idioma e interpretado a nível de vanguarda, tanto no seu aspecto técnico como criativo” Julio Bornik

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Discografia completa de Manal
“Manal”
“O Leão”
“O Leão segunda Parte”
“Album Duplo”
“Reunion”
“Obras”

  
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Pappo’s Blues
Nos anos 70, o guitarrista Pappo sobressaiu-se com uma série de discos chamados "Pappo's Blues" (talvez uns sete LPs), cujos alguns exemplares chegavam às nossas mãos e tornavam-se estimados justamente por trazerem blues em castelhano.

 

 

1º Concerto Latinoamericano de Rock
Revista Pop

A festa foi dos Argentinos

1º Concerto Latinoamericano de Rock, que reuniu músicos brasileiros e argentinos, apresentou uma agradável surpresa: a alta qualidade do rock feito na Argentina.

CrucisCrucis_ acima à esquerda Pino Marrone guitarrista do Crucis, carreira internacional no jazz

O empresário Mário Buonfiglio esteve na Argentina e assistiu a alguns shows de rock. Ficou lá por uns dias, com muita disposição e uma idéia na cabeça: promover um intercâmbio entre o rock brasileiro e o argentino. Pouco tempo depois, o Ginásio do Ibirapuera de São Paulo recebia num palco montado às pressas (o mundial de vôlei terminou um dia antes dos shows) os grupos Nito Mestre Y Los Desconocidos de Siempre, e o Crucis, além do cantor e compositor Leon Gieco. O lado brasileiro ficou por conta de Arnaldo e a Patrulha do Espaço (prejudicada pela  péssima operação de som), o Terço e César Mariano & Cia. Tudo bem com nossos grupos, mas a festa mesmo foi dos argentinos. Los Desconocidos de Siempre, formado por Maria Rosa Yorio (voz), Alfredo Toth (baixo), Rodolfo Gorosito (guitarra), Juan Ciro Fogliata (teclados) e Juan Carlos Fontana (bateria), fez um som que é uma perfeita fusão de rock e música folk, com um colorido que agradou em cheio o imenso público presente, calculado em torno de 9 000 pessoas. O som mais pesado foi o do Crucis, o grupo mais conhecido da Argentina, constituído por Gustavo Montesano, baixo; Pino Marrone, guitarra (e que guitarra!); Gonzalo Farrugia, bateria; e Anibal Kerpel, teclados. A apresentação do Crucis foi incrível, principalmente pela coreografia movimentadíssima dos carinhas, que acabou transformando palco e platéia numa só festa. Leon Gieco, conhecido como “Bob Dylan argentino”, transou apenas com violão e gaita, mostrando boas composições. Leon  cantou também com Los Desconocidos de Siempre e deu um verdadeiro banho de rock. Por tudo isso, o 1º  Concerto Latinoamericano de Rock foi um sucesso. Que dever, por sinal, ser repetido sempre que possível.

 


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Nito Mestre y Los Desconocidos de Siempre, junto com o cantor-compositor Leon Gieco (o segundo, da esquerda para a direita)

A 17 de setembro de 1977, uma sexta-feira de noite especial, aconteceu o "I Concerto Latino-Americano de Rock", reunindo grupos argentinos e brasileiros. Uma noite de pauleira total com música de nível excelente, prejudicada pelos eternos problemas de som. O público assistiu ao Crucis, Los Desconocidos de Siempre, Máquina de Hacer Pajaros, Pastoral Alas e o violeiro/gaiteiro e cantor Leon Gieco, para representar o Brasil, Arnaldo e a Patrulha do Espaço, o Terço e César Camargo Mariano e Grupo. Segundo a mídia brasileira do período, os brasileiros levaram um banho dos patrícios durante as apresentações. No ano seguinte em retribuição à visita, O Terço e Casa das Máquinas se apresentariam na Argentina com muito sucesso.

 

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Patrulha e Pappo um encontro clássico
por: Rolando Castello Júnior

Quando 1984 chegava aos seus meses finais e com a aproximação do Rock in Rio, saímos da letargia. Havia uma remotíssima possibilidade de participar do mega evento, apesar da banda estar no hangar, nossas bases e alguns contatos de maior nível nos instigavam a sair à luta. Novamente pintava uma esperança. E dessa vez um contato feito com um empresário argentino assinalava também a presença no Rio de Janeiro de um velho conhecido e guitar-hero dos pampas, o Pappo, um mito na sua terra e com o qual eu havia tocado junto em 1977 na Argentina com o Aeroblues. E que inclusive fez um show com a Patrulha em 1979 em São Caetano / São Paulo. Nesse meio tempo, Pappo tinha estourado mais uma vez na Argentina com uma banda chamada Riff. Com o fim do Riff, Papo veio ao Rio de Janeiro tentar montar algo. Depois de um show no Circo Voador com o Celso Blues Boy, uma máfia de editores argentinos que editavam no Brasil as revistas Roll e Metal tentava armar para que ele tocasse com o Barão Vermelho no Rock in Rio. Eu sabia que tal empreitada era roubada e impossível. Assim que Pappo se ligou da patifaria, pintou a idéia de juntarmos as forças e de tentar algo com a Patrulha. A distância Rio/SP era um obstáculo, mas depois de algumas viagens e acertos transferimos a operação para São Paulo, começamos a ensaiar e a compor rapidamente, agendamos com o Luiz da Baratos a gravação do novo material no estúdio Vice-Versa. Tudo corria velozmente e em fevereiro de 1985 entramos no estúdio para gravar o nosso quinto disco. Com a entrada do Pappo, o som ficou mais pesado, e como ele é um soberbo guitarrista o som ficou como sempre sonháramos. Mas nosso sangue de roqueiro nos empurrava para o lado oposto do que se supõe que era o rock comercial do momento. Mais uma vez dissemos foda-se e em três dias gravamos três temas Robot, Olho animal e Mulher fácil. O quarto tema gravado Deus devorador, foi composto e gravado no terceiro dia no estúdio e feito em um take.(...)

Com as quatro músicas gravadas, o Pappo voltou a Buenos Aires para cuidar de negócios pendentes e mandar para o Brasil alguns amplificadores Marshall que ele tinha e que aqui eram objeto de desejo e sonho de todos os músicos e bandas. Algumas semanas transcorreram-se, nas quais colocamos as vozes das músicas gravadas. Quando o Pappo retornou para São Paulo, os amplificadores que haviam ido pra o Rio de Janeiro estavam presos na aduana por uma cagada burocrática. Lá fomos tentar recuperá-los, mas os impostos e o imbróglio alfandegário criado fizeram com que os amplificadores acabassem sendo vendidos para se salvar alguns dólares. Foi uma grande perda financeira e material que abalou totalmente os ânimos do Pappo e nosso. Isso somado a uma milionária proposta para o retorno de sua banda Riff aos palcos argentinos fez com que déssemos um basta ao trabalho que vínhamos realizando. O Pappo retornou a Buenos Aires e nós resolvemos recolher a nave da Patrulha mais uma vez ao hangar. Desta vez iriam ser longos os anos de forçada parada. O disco ainda foi editado com o nome de "Patrulha 85, com as quatro músicas gravadas e apesar das ótimas críticas, sem shows para promovê-lo e sem banda para cair na estrada, o disco e o trabalho caíram no ostracismo. (Rolando Castello Júnior in Dossiê, volume 3 - 1984/1990).

 

 Patrulha 85, um clássico binacional
por: Mário Pacheco

Necessariamente um clássico não precisa preencher todos os sulcos dos dois lados. Essa acepção surgiu quando ouvi "Patrulha do Espaço 1985" - um dos discos mais seminais e mais ouvidos em toda a minha vida. Zezinho Blues numa reminiscência: - há quanto tempo não ouço esse disco. Desde os dias que você ainda morava com seus pais. O disco por ser em 45 rotações passou também por um período de ostracismo até que pintasse uma pick-up que o rodasse! 20 anos depois as bombas atômicas estão explodindo e eu sou de metal, esse é o recado da primeira faixa, Robot. Mulher fácil é uma bluseira insinuante, lá vem você de novo mulher fácil com suas mentiras e seu jeito fácil - muulhêr fácil -muulhêr fácil.

Olho animal e Deus devorador são as mais perfeitas métricas do rock'n'roll, mesclando fantasia, caos e imagens de quadrinhos sob o manto urbano do universo paulista. Grandes temas instrumentais e riffs cortantes como o fio da navalha. Uma situação crítica quando se está sob a mira do olhar animal.  Os desempenhos de guitarra, bateria e voz e contrabaixo registraram o nascimento da mais nobre aliança binacional (Brasil/Argentina) num disco de rock já feito.

 

pappo 

Num domingo de blues, o rock e suas voltas finais 
 por: Mário Pacheco

2005. Um dos músicos mais conhecido da Argentina, o guitarrista Pappo Napolitano, morreu nesta manhã de quinta-feira (25/02), aos 54 anos, ao ser atropelado por um carro, em Luján, Buenos Aires.
Na hora do acidente, o músico de blues estava em sua moto, uma Harley Davidson. Seu filho e sua nora viajavam junto com ele em outra moto e nada sofreram.

Pappo chegou a tocar com bandas conhecidas como Rolling Stones, Motorhead, AC/DC e Guns N' Roses. E chegou a acompanhar B.B. King durante um concerto no Madison Square Garden, em Nova York.
Num domingo de lágrimas, as imagens de Duane Allman e Tom Capone também não deixaram a cabeça.

 

Manal: Claudio Gabis (guitarra), Javier Martinez (bateria) e Alejandro Medina (baixo)
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