Momento Woodstock



Momento Woodstock
(Mário Pacheco)


 Um festival não é um desfilar de vários nomes mais ou menos estelares do rock. Além do número de artistas apresentados, há outros elementos definidores: o local, ao ar livre, longe da cidade, se não bonito pelo menos agradável; sua capacidade de comportar enormes contingentes de público; e a intenção e disposição desse público em formar algo mais que uma simples platéia de rock; a idéia, sempre presente em maior ou menor grau, de que todos estão ali para algo que transcende a música, uma celebração tribal, um ritual de união do clã.

Pelo menos esse era o espírito dominante da grande era dos festivais, que vai do fim dos anos 60 ao início dos 70.

Curiosamente, a ideia de “festival de música” não começou com o rock, mas com o jazz. Em toda a década de 50 foi o festival de jazz e folk de Newport, Rhode Island, Estados Unidos, que reuniu maiores audiências e concentrou ideias e informações musicais.
O filme "Jazz on A Summer’s Day" popularizou a mostra, que foi responsável pelo lançamento, entre outros nomes, de Bob Dylan. Dylan foi aclamado e sacramentado em julho de 1963, quando duas canções folk contemporâneas de revolta e inconformismo calaram fundo na platéia de Newport. E foi violentamente rejeitado e vaiado por essa mesma platéia quando, em 1965, ousou ligar uma guitarra elétrica em seu palco, acompanhado pelos não menos elétricos e rockeiros músicos do The Band. Os tempos, como ele havia previsto, tinham mudado. Newport, ainda hoje mostra significativa de jazz, blues e folk, não era mais o denominador comum da juventude. Era preciso criar uma nova fórmula.

Em 1969, dois grandes eventos estabeleceram definitivamente o mito dos festivais.

Woodstock aconteceu num momento muito distinto, no meio do sonho de liberação vivido pela juventude da época. Daí a expressão Nação Woodstock. Mais do que música, ótima por sinal, viveu-se ali, naqueles três dias e três noites, o sonho de um mundo sem fronteiras de qualquer espécie. Foram esquecidas as diferenças ideológicas, de raça, credo, política... 

 Inserida na movimentação pacifista, que na época lutava contra a intervenção americana no Vietnã, a Nação Woodstock se espalhou pelo mundo.

Os discos lançados e o filme documentário ajudaram muito na divulgação destes ideais e, para os gurus dos hippismo, tudo era só uma questão de pouco tempo. Logo, todo mundo seria um só, unido pela mesma causa, no pique da mesma pulsação. 

As músicas do disco alimentam a memória das cenas do filme e vice-versa. No disco principal, originalmente triplo tudo estava arrumado como numa viagem: o lado um, junto do lado seis, o dois ficava com o cinco e o três com o seis. If six was 9...

“Como bom adolescente de 15 anos, eu havia convencido meu irmão a irmos de carro. E, como bons garotos que éramos, pagamos pelos ingressos, não levamos bebida alcoólica, drogas muito menos. Eu já tinha estado nos protestos contra a guerra em Washington, mas me pareceu jamais ter visto tantas pessoas reunidas num só lugar. E eles formavam uma mistura exoticamente heterogênea, com os cabelos desalinhados e as roupas multicoloridas que seriam tão facilmente parodiadas poucos anos depois.
(...) Encontramos um lugar a boa distância do palco, perto da primeira fila de caixas de som, mas o espaço foi diminuindo rapidamente à medida que mais e mais pessoas se acomodavam. Acabamos espremidos, mas a divisão era igualitária. E ficamos simplesmente ali, agachados, assistindo às apresentações, das quais recordo apenas de fragmentos, em lampejos da memória (provavelmente ajudada pelo filme). A superlotação do espaço não permitia grandes deslocamentos, mas a idéia de dormir numa encosta entre centenas de milhares de pessoas não nos assustou. As canções falavam muito fundo e as bandas tocaram a noite toda. Valia a pena lutar contra o sono.
(...) No Domingo pela manhã, estávamos atordoados, imundos e famintos. Meu irmão achou que era hora de irmos embora e nos arrastamos até a saída, passando entre milhares de companheiros animados. Assim, minha lembrança de Woodstock é de alguma boa música, alguma cordialidade, alguma indignidade e muita, muita gente, todos trazendo em os impulsos contraditórios da contracultura”. Jon Parale.

Choveu duas noites transformando a fazenda num mar de lama, mas isso também todos acharam bonito e até curtiram, brincando de escorregar. Uma das seqüências mais célebres do filme Woodstock é a que mostra uma tempestade chegando, nuvens negras, a tragédia ameaçando a multidão, os alto-falantes com calma instruindo o pessoal para se afastar das torres de som. Mas a chuva cai e nada de ruim acontece. Pelo contrário: o alto astral fez da lama de Woodstock outro motivo de festa, todos acompanhando os escorregões com uma batucada de latas e paus.

O símbolo mais forte deste espírito está na apresentação de Jimi Hendrix. Sob um céu cinzento de depois-da-chuva, Jimi rosto grave, cabelos aparados, um brinco de brilhantes na orelha esquerda, caminha solenemente pelo palco de Woodstock, geme sua guitarra e toca para centenas de milhares de pessoas a sua versão da realidade: com Mitch Mitchell e Billy Cox com quem Hendrix tocara nos tempos do Exército, reinventa o hino americano num grito, num urro, de distorção controlada. 

“Hendrix joga na cara da platéia branca toda sua aversão ao modelo vigente nos Estados Unidos recriando o hino americano, Star Spangled Banner que permanece ainda como um massacrante retrato político do país de Tio Sam. Mais contundente que todas as letras das canções e poemas de protesto da época, Hendrix transforma o hino numa paisagem sonora de insuportável crueldade: numa performace invejável (e insuperável) incorpora à melodia original, ruídos e roncos assustadores, terríveis, desesperados e estridentes das explosões das bombas de Napalm e dos caças supersônicos com que os Estados Unidos incendiava o Vietnã, enquanto a juventude clamava por paz e amor. Reunindo política e sons de uma nova era (que queria sem fanatismos ou guerras de exploração) ele aponta em Woodstock para a necessidade da atual terra devastada. Por isso aparece muito distante, inatingível pelo público, tocando já para outras galáxias e seres interplanetários. Não mais para a Terra. Para o Kosmos”. (Echison Tito). 

Depois, Purple Haze, muito improviso e um número instrumental. O final é simplesmente inesquecível: Jimi Hendrix encerra seu longo e estraçalhante solo de guitarra, agradece à platéia, e fica um silêncio profundo; aos poucos, como que despertando, a multidão começa a aplaudir.

No ar de Woodstock, soprando no vento, havia amizade, camaradagem, amor, unindo platéia e palco. Não havia roteiro rígido, alguns grupos tocavam três a quatro horas seguidas, outros se apresentavam no meio da massa. 

O festival também teve momentos intimistas, de uma beleza tranqüila com a natureza em volta da multidão: folk-songs de paz e amor, cantadas por John Sebastian, Arlo Guthrie e Joan Baez, os sons faziam parte da alma de uma mesma geração. 

O mito se firmou de vez. Durante três dias, mais de 500 mil garotos vindo de todos os cantos da América (e do mundo) ouviram (mais do que viram) os sons de Hendrix, Who, Crosby, Stills, Nash & Young, Santana, Ritchie Havens, Joan Baez, Janis Joplin, também brilharam Sly & The Family Stone, The Grateful Dead, The Band, Creedence Clearwater Revival, Country Joe, Johnny Winter, Ravi Shankar... 

Joe Cocker se esgoelou num vozeirão arrasador com as veias saltando no pescoço e as mãos e os dedos em movimentos nervosos tocando uma guitarra imaginária, enquanto ele cantava a With a little help from my friends, dos Beatles. 

Ritchie Havens que fora o primeiro a tocar, teve de cantar por mais de três horas, porque as bandas que deveriam se apresentar depois dele ficaram presas no engarrafamento. Ritchie Havens teve de voltar sete vezes para o bis.

Alvin Lee chegou a Woodstock de helicóptero, “dava para sentir o cheiro de maconha lá de cima. Nosso show atrasou e eu resolvi dar uma volta entre o público. Estava todo mundo tão chapado que ninguém me reconheceu e as pessoas me deram ácido, maconha e bebida. Foi legal!”.

O Ten Years After estraçalharam no palco, aliciaram logo de início o público entorno da vibrante exibição do seu guitarrista, Alvin Lee agitando a cabeleira loira e velozmente solando  na impecável  Coming Home, os inglese mantiveram a selvageria do primitivo rock’n’roll conduzindo todos à dança.

Às duas da manhã do dia 17, Sly Stone usando uma veste branca de franjas longas e luvas de pelica – subiu ao palco para detonar acompanhado pelo coro de 400 mil vozes, repetindo num crescente incomparável a palavra higher até um clima parodoxal.

Carlos Santana recorda: “estava chapado de mescalina e não me lembro de quase nada do nosso show. Só me lembro que havia um puta engarramento de uns trinta quilômetros para chegar até o local do show”.
    Planejado para um público de 50 mil pessoas, o precário festival recebeu cerca de 500 mil pessoas. Apesar da chuva que desabou durante o festival, calcula-se que 200.000 pessoas dançaram nuas sobre a relva verde de White Lake, para depois irem nadar nas águas de um rio próximo, a invasão foi o menor dos problemas.

Ao chegar ao condado de Bethel,  a convite de Michael Lang, Mel Lawrence carregava uma ampla experiência de organização de espetáculos de música, tendo trabalhado no Magic Mountain Festival, em San Francisco, e no festival de Monterey.

A organização esperava um público pouco maior do que 100 mil espectadores. “Qual não foi a nossa surpresa ao percebermos que, dias antes, milhares de pessoas estavam chegando. Tivemos que nos preparar às pressas para atender muito mais gente do que esperávamos”.

Como responsável pela infra-estrutura, coube a Lawrence resolver um problema prático. O número de toaletes espalhados na área do festival tinha capacidade para atender, no máximo 150 mil pessoas. Como as estradas estavam bloqueadas por um enorme engarrafamento que impedia que os detritos fossem levados par ao aterro sanitário a tempo, Lawrence desafiou o departamento de Saúde Pública e abriu uma fossa no próprio terreno do festival. “Tivemos pouco tempo para nos adaptar à nova situação”.

Mesmo com tudo em cima, o festival acabou sendo improvisado. Por causa do congestionamento geral, muitos grupos de rock tiveram que ser transportados de helicóptero até um campo de pouso, próximo ao palco. O mesmo recurso foi usado para trazer mais comida, pois o estoque de 500.000 hot-dogs e hambúrgueres terminou no primeiro dia. A uma certa altura, os organizadores perderam o controle dos bilhetes de entrada. A metade deles não pagou os 7 dólares de ingresso, porque veio muito mais gente do que o previsto e a a cerca foi derrubada, é por isso, que não se sabe precisamente quantas mil pessoas foram comemorar o final da década de 60 com sex, drugs e rock’n’roll.

Três mortes (um envenenado por uma dose brutal de heroína, outro atropelado por uma pá mecânica mal dirigida e um por um apêndice supurado), dois nascimentos, enquanto quatro mães abortaram, por não resistirem às conseqüências do excesso de maconha estão entre as ocorrências da época. O Dr. William Avbruzzi, médico de plantão em Catskills, considerou tudo normal e sem violência. 5.000 pessoas foram hospitalizadas por abuso de drogas, e 77 traficantes foram apanhados em flagrante. Ao final do espetáculo, um jovem de 24 anos, estudante de História, declarou: “Todos se cansaram, mas todos fariam tudo outra vez. Afinal, em Sodoma e Gomorra foi bem pior”.

Mas, mais do que isso, eles formaram uma gigantesca comunidade alternativa que, embora durando 3 dias, criou a nítida ilusão que algo de novo e renovador estava, enfim, acontecendo. Como disse, o saudoso,  Max Yasgur, proprietário do local onde se realizou a mostra: “Woodstock provou ao mundo que meio milhão de garotos podem ficar juntos para curtir alegria e música, e só alegria e música. Deus os abençoe por isso”.

Ou, como escreveu Joni Mitchell, a grande musa de Crosby, Stills, Nash & Young na canção-hino Woodstock:
Joni Mitchell

Nós somos poeira de estrelas / nós somos ouro /
somos carbono de um bilhão de anos /
e precisamos retornar ao Jardim

— Eh, caras, eu só tenho a dizer que vocês são a gente mais forte que eu já vi. Três dias, cara! Três dias! Nós amamos vocês, amamos mesmo... Esta é a segunda vez que tocamos em público. E estamos apavorados! A primeira parte de seus shows era acústica, depois Dallas Taylor, bateria; e Greg Reeves, baixo; entravam para a parte elétrica, com duelos emocionantes entre Stills e Young, os mais pesados. (Neil Young, Toronto/Canadá, 12/11/45, vocais, guitarra, chamado para acompanhar o trio original impôs a condição de só aceitar se o grupo acrescentasse o “Young”, exigência prontamente atendida.

Stephen Stills e David Crosby (que ficou, três anos com The Byrds, que o despediram quando ele fez um comentário político, no palco do Festival de Monterey) falavam para o público de meio milhão de pessoas de Woodstock. Tinham recebido cinco mil dólares para isso, menos que o Canned Heat, Ritchie Havens, Blood, Sweat and Tears e Joan Baez, mas, um ano depois, com dois álbuns batendo recordes de vendagem, estavam ganhando mais dinheiro que todos eles juntos.

Stills e Crosby tinham conseguido captar o espírito dos jovens de Woodstock. Quando a Guarda Nacional abriu fogo contra os estudantes que protestavam em Kent State, matando quatro, eles responderam com Ohio, uma canção violenta a refletir os sentimentos de uma geração inteira. Uma ovação sensibilizada saudou a reestréia do grupo em Woodstock - pontuada por muitos pedidos de desculpas e algumas desafinadas tensas, típicas de quem estava-se encontrando naquele momento - fica no tempo como ícone de uma era. Por suas quatro vozes - e Neil Young trazia um peso até então desconhecido pelo grupo - celebrava-se triunfalmente, explicitamente o poder da mudança. A América se acreditava jovem, sorridente e capaz de mudar seu próprio Karma: os rostos e o canto de Crosby, Stills, Nash & Young pareciam-lhe dizer isso.

 

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