The dream is over!

 

The dream is over
(Mário Pacheco)

 

Na década de 70, o rock passa a ser uma arte como outra qualquer, agora mais desvinculada das manifestações políticas e sociais. San Francisco deixa de ser um centro de performances ao vivo como antigamente.

Vistos em perspectivas, os festivais permaneceram eqüidistantes do idílio de Woodstock e da violência de Altamont como grandes festas comunitárias, rapidamente encampadas, como todo o resto, pela sociedade de consumo.

É claro que logo o mito do festival foi descoberto como boa fonte de renda. - E se tornaram comuns os festivais mais ou menos improvisados, com condições mínimas de higiene, preços exorbitantes e artistas que só podiam ser vistos de longe, muito longe, e ouvidos com igual dificuldade.

Certamente, os festivais subsistiram, é certo: mas, cada vez mais, apenas mostras em grande escala dos últimos lançamentos ou das grandes estrelas do rock.

Várias publicações americanas procuraram relacionar a suposta decadência do rock à última excursão dos Stones pelos Estados Unidos, quando a apresentação final e gratuita do grupo em Altamont, terminou em pancadaria e com a morte de quatro pessoas.

A revista Time, barômetro das relações entre o establishment e a contracultura, logo registrava o clima em duas reportagens de capa sucessivas, em fevereiro de 1971. A primeira, The Cooling of America - O Resfriamento da América, depois de constatar que “a cultura do rock cresceu de tal maneira que é hoje o estilo de vida predominante entre os 40 milhões de americanos na faixa dos 15 aos 25 anos”, Timothy Tyler, no capítulo Desafinado e Perdido na Contracultura afirmava: “A contracultura, o primeiro (e talvez o último) movimento sócio-político nascido da força da música eletronicamente amplificada, chegou a uma trégua relutante e melancólica com o mundo ‘careta’ que ela se dispusera a salvar. Cercado, enjaulado por um sistema econômico industrializado, o movimento se tornou fragmentado, se tornou confuso. Aquela imaculada energia pacífica com que ele começou se transmutou numa vasta e bocejante sensação de futilidade - e parece não haver saída”.

A outra reportagem de capa da Time focalizava mais especificamente a “descompressão” do rock e endossava o idioma dos anos 70: o country-rock de James Taylor e Carole King, bitter sweet, “cuja música oferece uma espécie de Americana, celebrando coisas como o conforto do campo, o luar da Carolina, as geadas nos Berkshires”. E sua ideologia: “O que a todos eles parecem querer é uma mistura íntima de beleza e expressão pessoal - as reflexões muitas vezes líricas e melódicas de um eu privado”. Fazendo eco à Time, o semanário Newsweek, em sua reportagem de capa O Futuro do Rock, dizia que “o rock de amanhã bem poderá assumir um tom mais religioso e pastoral, um estilo mais intricado e ambicioso”.

Em junho de 1971, no festival Celebration of Life, comparecem 50 mil pessoas em McCrea, na tentativa de verem John Sebastian, Chuck Berry, War. O oposto de Woodstock: nada de música, nada de paz, nada de amor. O máximo em termos de consumo de drogas, com centenas de casos de overdose.

Nesse mesmo ano, Bill Graham fecha os dois maiores templos da música pop, onde muitos nomes ficaram famosos e muitas apresentações históricas foram feitas: o Fillmore West (San Francisco) e o Fillmore East (Nova York). Disse Graham ao anunciar o fechamento: “Quando começamos em 1965, eu lidava com ‘músicos’ sindicalizados. Agora só lido com ‘executivos’ e ‘acionistas’ de grandes corporações - com a única diferença de que usam cabelos compridos e tocam guitarra. O rock estava se tornando uma General Eletric, uma Pacific Gas & Eletric”. Alegando que sua motivação principal nunca foi o dinheiro, Graham acrescentava: “A inflação irracional e quase destrutiva dos concertos ao vivo foi por mim denunciada. Dois anos atrás, adverti que a síndrome do Festival de Woodstock seria o começo do fim. Eu estava com a razão... Continuo a deplorar a exploração das gigantescas salas de concerto, muitas delas cobrando ingressos altíssimos. Quando um grupo me pede US$ 5.000 por um concerto, eu posso cobrar US$ 3 ou US$ 4 por ingresso. Mas se me pedem US$ 30.000, US$ 40.000 ou US$ 50.000, não tenho outra saída senão aumentar o preço dos ingressos. Então o público fica chateado comigo! Fui até chamado de ‘porco capitalista’. Ora, meus preços se baseiam nas exigências dos artistas. Acontece que para os jovens é sempre mais fácil me atacar do que atacar seus ídolos”.

O hippismo levou o rock ao seu estertor mais puro e escandaloso. O mundo se incendeia sob a amarga trilha dos Doors. Escancaradas as portas da percepção, violentados os instrumentos e os corpos (Hendrix, Joplin), o rock corrompido mergulha no mais deslavado comercialismo.

Os dois maiores grupos - o Dead e o Starship - dão origem a vários outros, como o New Riders of Purple Sage (que fazia a abertura dos concertos do Dead); o Hot Tuna (formado por componentes do Airplane), além de novas bandas, como os Doobie Brothers, por exemplo.

Ainda, ao final dos anos 70, o Dead magnetiza multidões. Em Nova Jérsei, no mês de dezembro de 1978, um concerto ao ar livre reuniu 130 mil fãs do grupo. Nessa época, embora uma empresa com gravadora, departamento de divulgação, etc., os integrantes ainda acreditavam no rock como veículo de consciência. O pessoal do Starship estava milionário e com a própria gravadora, a Grunt Record (Country Joe estava de agendas tomadas cantando protest-songs e Carlos Santana, colocado no Olimpo da guitarra, assegurava o passaporte visado para a história do rock).

Foi o que restou. Mais uma aspiração, porém, foi incorporada às exigências da humanidade, a frase de Daniel Cohn-Bendit: “Não queremos uma sociedade onde não se morra de fome, mas em compensação nos mate de tédio”.

Woodstock dez anos depois

Há quem analisou o festival de Woodstock como um espetáculo musical. Há também aqueles - e entre eles o editorialista do New York Times, que depois do acontecimento - perplexo, indagou, como quem dá uma bronca: “Que espécie de cultura é essa, que produz um chiqueiro tão colossal?” e interpretou como a maior prova da “decadência de uma juventude perdida entre lamaçais e drogas”. E não faltou também quem interpretasse o fenômeno como mais uma “manifestação alienante do capitalismo ianque”.

Os que grilaram com toda aquela liberdade da Nação Woodstock tentaram diminuir a grandeza do evento, acusando por exemplo 90% dos presentes de estarem fumando marijuana. Outros falaram com carinho e simpatia: “O festival foi essencialmente um fenômeno de inocência”. Até a polícia se impressionou, e o xerife Louis Ratner elogiou: “Essa foi a turma de meninos mais agradável com quem eu me relacionei na vida!”

Seja qual for a ótica, não há como negar a importância de Woodstock como fenômeno sócio-cultural. Se, posteriormente, as propostas da chamada Nação Woodstock não se concretizaram ou se, quatro meses após, o festival de Altamont mostraria uma outra face de trilogia rock/drogas/juventude, com o assassinato a facadas de um espectador, isto é outra história. O que vale lembrar de Woodstock é o fato de meio milhão de indivíduos terem convivido pacificamente, durante três dias, numa situação totalmente diversa daquela proposta pelo “sonho americano” de seus pais e avós, e contrariando abertamente códigos de comportamento que considerava obsoletos. Woodstock foi um território livre naquele momento - e ponto final. A partir dali, as teorias podem ser lançadas, pró ou contra, realística ou emocionalmente mas nada terão a ver, na realidade, com o estabelecido naqueles três dias.

De qualquer maneira, sob o ponto de vista da evolução do movimento contracultural, o que aconteceu após o festival não pode ser considerado como o fim do sonho, conforme queiram alguns, a menos que se coloque como “sonho” idéias como as de que, a partir daquele instante, todo mundo passaria a viver nos parâmetros de curtição descomprometida que marcaram Woodstock. De certa maneira, o evento serviu para acordar muita gente para a realidade de que existiam pessoas pensando diferente, vivendo de novas maneiras, com outros costumes do que aqueles da “maioria silenciosa”. E se a Nação Woodstock não nascera no momento do festival, por que morreria ali ou quatro meses após, em Altamont?

O processo contracultural, seja qual foi o nome que se lhe dê hoje em dia, continua a acontecer. As alternativas a uma sociedade superindustrializadas e em plena crise, como é o caso da norte-americana, existem, mas obviamente, nunca ocorreriam em termos de nação - mas sim a níveis grupais. E como tribo muita coisa anda acontecendo nos Estados Unidos, papos que não estão na imprensa oficial ou na boca dos analistas da ABC, CBS ou NBC. Mas isto é outra história, longa demais.

Se há algo que realmente mudou muito, de anos para cá, em termos de Woodstock, foi, sem dúvida, a música. Quando da realização do festival o rock começava a viver o processo de industrialização total, não tendo ainda sentido na pele os prejuízos de uma arte dominada pelo poder econômico. E é por isto que se pode ouvir ainda hoje, nos discos que registram boa parte do som apresentado durante os três dias, alguns dos melhores momentos de toda a história da música pop.

Um álbum triplo e outro duplo, são tomados pela música que povoou Woodstock, interpretada por astros como Hendrix, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Ritchie Havens, Santana, Sly and the Family Stone, CSN&Young, Country Joe and the Fish, Arlo Guthrie, John Sebastian, Canned Heat, Butterfield Blues Band, Joan Baez, Sha-Na-Na, Melanie ou Mountain. Ao lado destes se apresentaram no festival outros figurões que não foram registrados nos discos, como Janis Joplin, Grateful Dead e Creedence. Numa rápida análise fica claro que a maior parte destes nomes, na época desenvolvendo trabalhos de inegável consistência, estão fora de ação ou fazendo uma música de menor qualidade.

O sonho musical de Woodstock, este sim, foi totalmente dilacerado pelo crescimento gigantesco da indústria do disco, pelo showbiz. Tanto que quem quiser ouvir rock, deve mesmo é voltar ao som do festival, o mais completo documento sobre a música pop encontrável em circuito.

“Porém, para os anos 60, Woodstock foi também uma aberração, um evento para entretenimento da massa, e não uma ação política popular. Sua proposta apolítica, sua ênfase no divertimento passivo e suas dimensões eram tanto uma antevisão dos anos 70 quanto um divisor de águas dos anos 60”. Jon Pareles – The New York Times.

Para comemorar os primeiros dez anos, os mesmos organizadores prepararam um Woodstock II, onde vários artistas presentes ao primeiro festival se apresentaram ao lado do superstars de dez anos depois. Mas não foi só esse revival que agitou a garotada americana. Um outro festival, igualmente recheado de nomes famosos programado para os dias 24, 25 e 26, perto de Nova York. Hamlet of Hurleyville aconteceu e os organizadores de Woodstock, ficaram apavorados com a concorrência...

No Brasil, as sessões comemorativas dos dez anos do festival de Woodstock exibiam as mesmas cópias que as pessoas curtiram na estréia do filme em 1970.

A música de Woodstock dez anos depois

Passados os primeiros dez anos, os tempos mudaram, mas não deixa de ser curioso nessa retrospectiva avaliar o que os grupos e artistas remanescentes de Woodstock fizeram em 1979. Dos ausentes, apenas Jimi Hendrix, mesmo morto continuava nos achatando através de inúmeros discos póstumos, Message From Nine to the Universe (WEA), possuía cinco interessantíssimas longas faixas onde o guitarrista fazia incríveis experiências com o blues e o som-espacial. Mas a mais devastadora ganhou o título de Young Jam e trazia Hendrix dialogando com o fabuloso organista Larry Young. Este disco foi lançado no Brasil em primeiríssima mão, só sendo produzido em qualquer outro país do mundo no ano seguinte (1980), e ainda com o título Nine To Universe, confira as edições e certifique-se.

O outro guitarrista, Carlos Santana, autêntico filho de Woodstock, continuava fazendo uma música tribal, balançada e eficiente que lembrava muito o lendário Soul Sacrifice que levou o festival ao delírio. Isso podia ser constatado através de seu álbum Inner Secrets (CBS), que possuía petardos estraçalhantes incorporando o rock aos ritmos latinos. Centenas de instrumentistas anglo-americanos que, a partir de 1973, mergulharam nas águas do jazz-rock encontravam-se num beco sem saída. Aprisionados em fórmulas e clichês técnicos, a própria overdose da mesmice, não lhes restara outra alternativa senão abraçar uma indigesta mistura de jazz e discothèque. Esse impasse foi resolvido com extrema inteligência pelo extraordinário Carlos Santana nas nove esbaldantes faixas de Inner Secrets. Abandonando as influências de John McLaughlin, Santana voltou às raízes mais ensandecidas do “rock brabo”, inventando achatantes petardos sonoros. Secundado por oito ótimos músicos, o guitarrista cospiu fogo em nossas cucas e músculos, com uma perigosa torrente de rock e ritmos latinos. Impossível ficar indiferente às explosivas Dealer, One Chain Don’t Make No Prison, Stormy e Well All Right - essa última assinada pelo saudoso Buddy Holly e também regravada pelo Cream.

O cantor inglês Joe Cocker, mais conhecido como o “Rei de Woodstock”, não estava tão em forma como há dez anos. Por isso, em vez de seu disco daquele ano, Luxury Youn Can Afford, aconselho aos interessados a audição de The Best of Joe Cocker (Fermata), que possuía doze de suas melhores gravações.

O trio Crosby, Stills e Nash, depois de vários discos individuais, se reuniu em meados de 1976 gravando o excelente CSN (WEA). Nesse álbum eles guardaram as características que os fizeram famosos imprimindo - sem nostalgias - às suas novas letras os mesmos toques sábios de conteúdo social, as indagações existenciais e o melhor, aquelas inconfundíveis vocalizações em estilo country. O disco é ótimo.

Neil Young, nas faixas gravadas ao vivo que compõem Rust Never Sleeps (WEA), arroja a mais desenfreada paixão pelo country acústico e pelo rock rasgado de influência punk. Todo o disco é avassalador e arrepiante.

Um ano antes em 1978, o Jefferson Starship, teve de suspender as excursões por absoluta impossibilidade dos caras trabalharem (eles preferiam ficar em suas mansões se chapando), o vocalista Martin Balin, confessou raivoso: “Detesto ver Grace Slick bancando a sexy no palco. Isso me faz ficar triste. Ela me lembra minha mãe, que não tinha nada de sexy”.

Um passado interessante

Em janeiro de 1989, véspera dos vinte anos, o mundo voltava a mergulhar sem desconfiança numa onda saudosista que traria de volta os bons tempos de paz e amor de Woodstock.

Os tempos mudaram, a nostalgia não. Woodstock e seus heróis foram transformados em peças de marketing: profissionais da Nação Woodstock  a utilizavam para atingir os corações e as mentes dos seus velhos companheiros e filhos - vistos preferencialmente como consumidores. Ironicamente, o festival que foi um rito de contestação ao establishment estava sendo revivido como uma manifestação do establishment pela poderosa Warner Bros.

Em meio à excitação dos últimos anos da década de 60 não era possível enxergar claramente que por trás do idealismo havia uma grande jogada de marketing da Warner, o maior conglomerado de entretenimento da época. Woodstock recebeu um tratamento que só tinha como precedente o lançamento dos Beatles no mercado norte-americano, com o acréscimo emocional de ser um acontecimento “espontâneo” e simbolizar as melhores aspirações de uma geração.

Os primeiros sinais da preparação desta festa foram ao ar: Woodstock virou tema de vários comerciais, ajudando a vender desde televisores e computadores a uma nova safra do conhecido vinho Mateus. Quando se ouvia o anúncio do vinho no rádio, percebia-se nitidamente que a mulher estava emocionada. Ao assistir a adaptação do comercial para a televisão, assimilava-o mais claramente. A emoção fluía através da voz da modelo de pouco mais de 30 anos, e percebia-se que ela se esforçava para conter as lágrimas, quando dava um recado, diretamente à sua geração: “Há um vinho lendário que já entrou para os livros de História. A Beat generation escreveu sobre este vinho... Ele foi passado de mão em mão numa fazenda, numa pequena cidade chamada Woodstock”. Em seguida, vinha o slogam: “Um vinho com um passado é muito mais interessante”.

Na região nordeste de Manhattan, dentro de um escritório amplo e bem arejado, John Roberts, 43, e Joel Rosenman, 46, os organizadores do festival de Woodstock que detêm os direitos sobre o nome Woodstock, vestiam ternos e gravatas comprados na Saks, uma loja da quinta avenida conhecida pelos seus altos preços. Lá eles montaram a Woodstock Ventures e recebiam seus clientes. Segundo eles, “nunca poderá ser recriado por ter sido espontâneo”.

Com o apelo da comemoração planejava-se reunir tanto os jovens que apreciam rock, assim como as viúvas dos anos 60, para quem “nunca houve nada como Woodstock” gravando um disco cujos os lucros seriam doados a “várias causas” através da Fundação Woodstock, que seria criada no decorrer do ano. A certeza da empreitada e do lucro era iminente.

Woodstock, a cidade próxima a Bethel e que deu o nome ao festival - pois a idéia original era ter realizado os shows lá, o que não foi possível por falta de local - assim como Bethel também estava fora dos planos de Rosenman e Roberts. Planejava-se alugar um lugar fechado, como um estádio - por motivos de segurança. Joel Rosenman e John Roberts sonhavam em levar o Woodstock-89 para outros países. “Ainda é muito cedo para definirmos alguma coisa”, dizia Roberts. Segundo a dupla, era possível até que Woodstock-89 não fosse apenas uma série de shows em um lugar definido mas em vários locais dos Estados Unidos. Tudo dependeria do patrocínio, que estava bastante ligado à gravadora Warner.

Os artistas que participariam dos shows não estavam definidos. “Assim como em 1969, não vamos convidar apenas os megastars. Vamos convidar também cantores e bandas que fazem um bom trabalho e podem ainda não ser conhecidos do grande público. Em 1969, muito dos que se apresentaram acabaram ficando famosos por terem participado, pois eram desconhecidos”, explicava Rosenman. Apesar da discrição, ele deixou escapar que grupos que participaram da primeira edição do festival “podem não o ser este ano”.

Os organizadores preferiam não citar nomes, mas admitiam que a nova onda de músicas de protesto representada por Tracy Chapman teria presença garantida no Woodstock-89.

Sobre a reedição da liberdade que existiu em 1969 - quando emplacou-se a máxima “sexo, drogas e rock’n’roll”- Rosenman disse que “não foi bem assim”. Segundo ele, “o Woodstock-89 relembraria ao mundo que as pessoas ainda vivem em uma comunidade com interesses comuns, e que a proteção ao clima do Alasca depende da preservação das florestas da América do Sul”.

O pacote hippie/hi-tech que a Warner colocou no mercado reforçava ainda mais o aspecto nostálgico com a sintonia da década que estava acabando. O conceito era “participe você também de um momento histórico - no conforto de seu lar”. Sem precisar enfrentar os 15 hectares de lama que a chuva provocou. A comercialização de Woodstock-89 incluía livros, o lançamento do documentário em vídeo e a reedição da trilha sonora em vinil e compact discs com faixas adicionais, além de um pacote de produtos que incluía pôsteres, camisetas e tudo o que pudesse ser ilustrado com o logotipo do festival, a pomba pousada no braço da guitarra.

A ofensiva da Warner começou no começo de 1989 nos Estados Unidos, através da exibição diária de clips para a tevê denominados Woodstock Moments exibidos diariamente, entre os dias 1 de maio e 31 de agosto, por duas redes de tevê dos Estados Unidos. Os três dias de paz e amor foram retalhados em nada menos do que cem momentos. Exibidos diariamente na MTV, uma série de flashes do e sobre o festival recebeu o nome de Woodstock Minutes. Os patrocinadores que ligaram as marcas de seus produtos à mítica palavra Woodstock, desembolsaram US$ 5 milhões.

Woodstock-89 era um desafio social e estético e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de marketing. Vamos atrair gente na faixa dos 15 aos 50 anos de idade: três gerações de consumidores - dizia Edward Bleier, um dos responsáveis pela promoção, com olhos de diamante e pose de proprietário da galinha-dos-ovos-de-ouro.

As chances do objetivo principal, a reedição do festival, mingou com a proximidade da data.

Os dois velhos empresários hippies, John Roberts e Joel Rosenman - que articularam a idéia de reeditar Woodstock - mudaram os planos e saíram a campo para promover um aniversário módico mas ao vivo. Eles reuniram os ídolos que o tempo perpetuou e também a memória daqueles que ficaram no meio do caminho, para uma celebração conjunta com as estrelas da geração de seus filhos.

Para infelicidade do establishment e da Warner Bros., que apostava em Woodstock-89 para coroar o ano em que se tornou a maior corporação de comunicações do mundo, após a fusão com a Time Inc. E com medo de perderem suas cabeças, os executivos e os profissionais que embarcaram nessa nostalgia foram abatidos pela impossibilidade das releituras que virou-se contra eles mesmo, o momento econômico não permitia investir nos novos astros do rock que com certeza não seriam lembrados daqui vinte anos como os da década de 60, estava quebrado o círculo: Jimi Hendrix, o astro mais caro de Woodstock, recebeu pífios US$ 18 mil por sua apresentação, qual astro da geração atual pela mesma soma reviveria no palco a magia de Hendrix? O lado positivo da armação ficou por conta das palavras paz e amor que voltaram a ser palavras de ordem do momento - nem que tenha sido durante o verão de 89...

Heróis mudam de atitude

Vinte anos depois de Woodstock, boa parte dos heróis do hippismo estão “do outro lado da cerca”. Como disse o guitarrista Pete Townshend, do grupo The Who: “depois de um certo tempo fazendo sucesso, você se transforma no sistema”. Sábias palavras de um sobrevivente dos anos 60, que teve chance para refletir.

Outros “velhinhos” continuavam em boa forma. O papa do LSD Timothy Leary, quando dono da Futics, uma empresa que projeta software. Acreditava que os videogames seriam uma maneira de modificar os “circuitos impressos” do cérebro, como o ácido era nos anos 60. Leary continuava experimentando drogas de “expansão da consciência” como o Adam e o Ecstasy.

Outro veterano bem cotado era o escritor e militante homossexual Allen Ginsberg, considerado o maior poeta em atrividade da América. Naquele momento, ele compunhava uma ópera em parceria com Philip Glass.

Alguns líderes contestadores da época tiveram um fim inglório. É o caso dos militantes anti-Vietnã Jerry Rubin e Abbie Hoffman, fundadores do Partido Internacional da Juventude, e confortavelmente instalados na iniciativa privada.

Preso mais de trinta vezes por suas atividades, Rubin gostava de desfiar seu currículo nos debates em que participava - pelo preço médio de 1,5 mil dólares - e em seguida acrescentava que não era capaz de sair de casa sem seu American Express. Uma brincadeira com a conhecida publicidade desse cartão de crédito, mas quase um auto-de-fé.

Jerry Rubin, em sua última entrevista ditou a Daniel Cohn-Bendit “Quero ser bem sucedido na vida, e nos Estados Unidos só se dá certo com dinheiro”. Defensor da invasão americana à diminuta ilha de Granada, Rubin considerava que naquele momento era a direita que tinha idéias muito mais interessantes que a esquerda. Ele ganhava a vida organizando recepções para os nova-iorquinos endinheirados.

O ativista estudantil Tom Hayden era deputado na Califórnia, e então casado com a atriz e ex-militante dos direitos civis Jane Fonda, que se tornou multimilionária com sua série de vídeos de ginástica aeróbica. O diretor de Easy Rider e seu irmão Peter Fonda estavam semi-inativos, mas seu parceiro Dennis Hopper estava em alta, depois dos filmes Veludo Azul e Colors. A grande revelação de Easy Rider, Jack Nicholson, transformou-se num dos ícones remanescentes da contracultura, apesar de ser um dos astros mais bem pagos.

Os principais representantes do new journalism sobreviveram. Ken Kesey (Um Estranho no Ninho) trabalhava ocasionalmente em romances próprios e nunca editados no Brasil. Hunter Thompson, o fundador do jornalismo “gonzo”, patrimônio jornalístico norte-americano e o fora-da-lei mor (Las Vegas na Cabeça) colaborava semanalmente para uma cadeia de jornais norte-americanos e para a revista inglesa Time Out. Tom Wolfe, o mais bem-sucedido, escrevia best-sellers como Os Eleitos (The Right Stuff) e A Fogueira das Vaidades.

Alguns dos artistas mais respeitáveis dos anos 60 morreram em decadência. O mais famoso expoente da Pop Art, Andy Warhol hospitalizado para uma operação na vesícula, sofre uma parada respiratória fatal no dia 22 de fevereiro de 1987. Andy Warhol tinha 57 anos e não teve tempo de recuperar a imagem polêmica e o poder de chocar, se desgastando com a supercomercialização de seu trabalho. Seu último negócio foram as 47 pinturas de Cars, patrocinadas pela Mercedez Benz, desde de setembro de 1986, ele cumpria esse contrato. “Está bem, pode me entrevistar. Diga o que quer que eu fale e eu repetirei. Sou tão vazio que não consigo pensar em nada. Gostaria de ser uma máquina, como isso simplificaria as coisas. No fundo, sou uma miragem, e é inútil procurar algo por trás de uma miragem. Não vão encontrar nada”. – (Andy Warhol).

Outro foi Julian Beck, fundador do revolucionário grupo teatral Living Theather. Julian Beck desativou o grupo ainda nos anos 70; seu último trabalho cinematográfico foi no fraco Poltergeist 2.

A elegia continua

1989. Vinte anos depois, os astros de Woodstock se dividem em grupos básicos: os esquecidos, os inativos, os que transcenderam a morte e uns poucos superstars que ainda conseguiam lotar os teatros.

Muitos saíram do olho público. É o caso de Ritchie Havens, o folk-singer-negro que tocava o violão de maneira percussiva e que se dedicava aos jingles e à locução de comerciais.

Ravi Shankar 69, um dos principais representantes da música clássica instrumental indiana, casou-se em janeiro com Sukanya Rajam, 38, segundo os ritos hindus de um templo em Hyderabad (sul de Nova Deli, Índia). Foi o segundo casamento de Shankar que continuava ativo no circuito religioso alternativo.

Country Joe, conservou a sua militância radical full-time.

John Sebastian, semi-aposentado.

E Sha-Na-Na, teoricamente ainda ativo mas sem shows ou discos há séculos.

Alguns desaparecidos primavam pela decadência. Uma é Melanie, que vendeu três milhões de cópias de Brand New Key em 1971 e começou a sair de cena logo depois. Em 1990, lançaria um disco...

Novamente reunidos, Crosby, Stills, Nash & Young, como quarteto reuniram 14 canções folk variando entre temas políticos e baladas, gravando American Dream, que entrou no Top 20. A revista Musician não deixou pedra sobre pedra da nova gravação do grupo. “Agora que Neil Young pagou sua dívida com os amigos, talvez possa voltar ao que normalmente faz para ganhar a vida: gravar discos”, concluiu o crítico Jimmy Guterman.

Em janeiro David Crosby, falando à revista Music Express, declarou que os anos 60 foram a forma encontrada para se livrar da década de 50, “uma das mais enfadonhas e monótonas que a América já viveu”.

— Houve uma mudança enorme nos valores culturais e morais do país, diz Crosby. Foi muito excitante enquanto durou. Aquele sentimento não existia antes e nunca existirá de novo, concluiu o veterano cantor.

Em fevereiro, em Los Angeles, David Crosby com disco solo recém-saído do forno Yes I Can, dramaticamente revelou: “Eu não deveria estar dizendo isso, mas se fosse preciso eu rastejaria até o Brasil para tocar lá”... Até agora ninguém se habilitou a cobrar do roliço David Crosby, esse esforço que a cada ano fica quase impossível...

O Canned Heat acabou em 1976. Os sobreviventes ainda tocam em barzinhos de vez em quando, mas sem o guitarrista Al Wilson (que cometeu suicídio em 1970) e Bob Bear Hite (morto em 1981).

Sly Stone entrava e saia da cadeia a cada seis meses, sempre por posse de drogas.

Mais preocupados em não deixar cair o faturamento, Blood Sweat and Tears, se dedicavam ao circuito dos cassinos em Las Vegas-Reno-Lake Tahoe.

O Sweetwater acabou em 1971 e a Incredible String Band em 1975. A Paul Butterfield Blues Band acabou em 1972, e Butterfield morreu em 1987 de overdose.

O Ten Years After acabou em 1975; e voltou com a formação original em 1989. Outro herói da guitarra e sobrevivente é Leslie West, único membro em atividade do Mountain, que fez sua estréia em Woodstock, o grupo se dissolveu em 1974. Felix Pappalardi, produtor do Cream e baixista do Mountain, foi morto a tiros por sua mulher e parceira musical, Gail Collins, em 17 de abril de 1983, em Nova York.

Finalmente, o grupo The Band que acompanhou Dylan na turnê de 1974 e documentou seu final no filme O Último Concerto de Rock - The Last Waltz, dirigido em 1976 por Martin Scorcese. Reagruparam-se em 1984, e após um concerto em Orlando, na Flórida, Richard Manuel, o tecladista e fundador, enforcou-se no banheiro de um hotel, enquanto sua esposa atendia a um chamado na recepção do hotel. Ele não deixou bilhete e não havia razão aparente para o ato. Robbie Robertson, o guitarrista seguiu carreira solo. The Band, reaparecerá no Woodstock-94 em um show de mais de duas horas, com a participação de convidados especiais: Bruce Hornsby, Bob Weir e Roger McGuinn.

A turnê de 1982 fora a despedida oficial do Who. A volta foi possível porque Pete Townshend precisou de dinheiro para tocar seus projetos pessoais. The Who novamente estava no topo do time dos sobreviventes de primeiro escalão. O grupo comemorou seus 25 anos com uma excursão americana milionária. Da formação original ficou de fora o enlouquecido baterista Keith Moon, que morreu de overdose alcoólica em setembro de 1978. No lugar de Kenny Jones que substituía Keith Moon entrou Simon Phillips (ex-Jeff Beck, Bad Company). Aos três remanescentes da banda uniram-se a uma big band e convidados, como Phil Collins, Elton John e Billy Idol.

A apresentação do Who, em 27 jun. / 1989, arrecadou US$ 1 milhão para instituições de caridade com a reapresentação da ópera-rock Tommy, no Radio Music Hall, em Nova York. Foi rodado o vídeo The Who Live featuring The Rock Opera Tommy (EUA, 1989, 135m) Direção: Lany Jordan. Uma espécie de caça-níqueis hediondo - se bem que milionário. A ópera Tommy quase executada na íntegra é prejudicada pelos arranjos grandiloquentes que comprometem ainda mais quando estragam outras boas canções agregadas ao espetáculo, como Substitute e Baba O’Riley.

Joe Cocker, com o disco One night of Sin e Santana seguiam bem-sucedidas carreiras solo.

Em outubro de 1989, após cinco anos o Jefferson Airplane voltava à ativa com a retomada do nome original. O estímulo aconteceu no começo de 1988 quando a vocalista Grace Slick subiu ao palco durante um show de ex-componentes da banda. Grace Slick, Paul Kantner, Kaukonen, Casady, Balin e Kenny Aronoff (bateria), gravaram o álbum Jefferson Airplane que ficou no 85 posto.

 Grace Slick, comemorou a volta do Jefferson Airplane, afirmando: “Nós somos o pior pesadelo dos seus pais agora, porque agora nós somos os seus pais”.

O Grateful Dead continuava totalmente hippie e tendo os fãs mais fiéis, os deadheads, cujo número aumentava após a excursão triunfal com Bob Dylan, registrada no disco Dylan and the Dead, de 1989.

O empresário Bill Graham cujo nome verdadeiro, era Walfgang Grajanka, nascido em Berlim, em 1931, morreu de um acidente de helicóptero em 1991.

Mil estradas

Muitas estrelas do rock se tornam viciadas em drogas, mas poucos desceram publicamente como David Crosby.  O legendário folk-rocker começou a usar marijuana e drogas psicodélicas ao longo de seus dias com os Byrds e Crosby, Stills e Nash. Depois da morte de sua namorada Christine Hinton num acidente de carro, ele passou a usar drogas mais pesadas. Na década de 80, ele era conhecido por gastar até $700 dólares em cocaína, heroína  e freebase (aspiração da fumaça resultante da queima da resina da cocaína) por dia.  “Quando você estava tão viciado como eu estava, sua vida era apenas a busca das drogas em primeiro lugar, procurar a maneira mais fácil de se conseguir dinheiro para comprar drogas, e implorar por drogas”, lembra ele.

Em 1992, ele tentou ultrapassar a velocidade do som em seu carro esporte. A polícia encontrou nos destroços uma pistola 45 e alguma cocaína. Nos próximos poucos meses, haveria mais carros destroçados e mais prisões. Pôr um instante, seu status de celebridade pareceu o proteger do sistema. Ele foi mandado para programas de tratamento de drogas, mas fugiu. “Ainda não é tarde para ele voltar”, disse seu amigo e velho parceiro de banda Neil Young. “Ou isto acontece ou ele morrerá”.

Ele finalmente se entregou e passou um ano numa prisão do Texas. “As pessoas se aproximavam de mim de várias maneiras”. Diz ele, “Assim, ‘Ôba, é você mesmo...?’ ou ‘Aquele filho-da-puta. Ele tem mais dinheiro do que eu jamais vi. Mate aquele filho-da-puta’”.

Quando foi finalmente liberado da prisão, Crosby tinha deixado as drogas e reanimou sua paixão pela música. Hoje em dia, ele está de volta em tours com o Crosby, Stills, e Nash, e gravando álbuns. De fato, a Island-Ear Publicações de Música situada em Nova York  relançou seu álbum solo de 1992, o Thousand Roads “seu melhor trabalho de sua carreira solo”. Essa espécie de retorno musical tem que figurar entre as maiores na história do show business, considerando especialmente pelas profundas atividades e depressões mentais que Crosby viveu devido ao consumo de drogas.

Crosby escreveu também uma biografia Long Time Gone, êxito de vendas, e ultimamente aparecia como convidado em shows de tevê tais como Roseanne. Ele mesmo admite que a sua volta ao show business é algo como um milagre. “Quando você passou severamente pelo vício das drogas como eu passei, você se sente surpreso por estar vivo”.

25 anos depois, dois Woodstocks II

O espírito de Woodstock está morto e enterrado para o norte-americano Mel Lawrence, 50, responsável pela organização da infra-estrutura do festival original. Lawrence é ativista do movimento ecológico nos Estados Unidos e desde a década de 80 trabalha com cinema. Foi assistente em Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, e fez em seguida a produção Powaqqatsi, do mesmo diretor.

Lawrence não queria se envolver com uma possível tentativa de se repetir o festival de Woodstock. “Isso seria puro comercialismo”, afirmou.

O jubileu de prata de Woodstock, principal emblema da geração ‘paz & amor’  foi comemorado em dose dupla, ganhou duas reedições politicamente corretas e muito diferentes do original, no mesmo fim de semana 13, 14 e 15 de agosto de 1994, nos Estados Unidos. O Woodstock-94 organizado pela Woodstock Ventures que detêm a marca foi realizado em Saugerties, cerca de 160 km ao norte de Nova York. O outro festival a 60 milhas (96 km) em Bethel, 57 km a oeste de Nova York, na mesma fazenda dos “três dias de sexo, drogas e rock’n’roll” de 1969, lá a festa chamou-se Bethel-94.

As vendas iniciais foram de mal a pior para o Woodstock-94. Até o mês de junho só tinham sido vendidas 35 mil das 250 mil entradas disponíveis. Bob Dylan que não esteve no primeiro Woodstock, quando era o líder de sua geração e todos esperavam que fosse - desta feita compareceu defendendo um cachê de 380 mil reais. Fez muito bem em defender seu troco (cada um dos 250 mil ingressos postos à venda por telefone custava US$ 135) e não houve nada de errado nisso: foi um show  muito bem pago como outro qualquer dele. A confirmação da presença do astro levantaram as vendas.

O Woodstock-94 foi rotulado de “esdrúxulo e ridículo” organizado pela mesma trinca que promoveu a célebre festa. Em 1969, a entrada custava US$ 18. Mas dois terços dos 600 mil rapazes e moças que apareceram não pagaram um tostão para assistir o festival.

Segundo os organizadores, Joel Rosenman, John Roberts e Michael Lang “foram necessários 15 anos para pagar os prejuízos de Woodstock”. Esses homens ricos não quiseram repetir o erro e “esqueceram” que tudo que os produtores deixaram de ganhar nas bilheterias foi ganho multiplicado - até hoje - com os direitos de disco e filme.

Com patrocínio da Pepsi-Cola, da Polygram, e por outros big-shots do “mercado jovem”, e partes transmitidas por televisão, Woodstock-94 foi um espetáculo com precisão científica e tecnologia de final de século, superando a qualidade sonora e as improvisações que marcaram o Woodstock original.

Desta feita os espectadores foram levados de ônibus ao festival. Os 3.000 banheiros instalados na área do festival não foram suficientes para atender às necessidades locais e apesar da vigilância dos 1.300 guardas que poderiam considerar um simples baseado como contravenção o Lsd foi traficado sem repressão no local por cinco dólares. Nos postos de saúde – com 179 leitos cada, uma equipe de mil e trezentos médicos e para-médicos atenderam a cerca de três mil pessoas e a comida industrializada à venda, não foi suficiente.

Os promotores pensaram em quase tudo para manter a assepsia do festival. Até um estudo sobre os mosquitos da região foi feito para se espargir a quantidade certa de inseticida na véspera para o show não ser perturbado.

Os nostálgicos reclamaram de tudo. “Ninguém vai engravidar desta vez”, disse o professor de comunicação Todd Gitlin, estudioso dos anos 60.

Gitlin como outros de sua geração revoltaram-se, com a notícia inicial de que no Woodstock-94 a venda de álcool e o uso drogas seriam proibidos. A mídia internacional protagonizou o apelo comercial da nova versão, batizando-o de “um Rock in Rio disfarçado”. Já que o sexo tem que ser seguro; as drogas têm que ser pesadas e o rock’n’roll é curto e grosso, nada melhor do que detectores de metais na entrada para evitar uma manifestação semelhante a Altamont, tudo politicamente correto no papel. Mas mesmo com cabines de detector de metais a exemplo das existentes nos aeroportos, grande parte do público não foi revistado devido a grossa chuva, o que facilitou o acesso de câmeras de vídeo, bebidas em latas ou em garradas, comida, panelas, lanternas e qualquer tipo de metal, itens previamente proibidos.

Com 250 mil pessoas reunidas e enlameadas, o festival  liberou a entrada no último dia. A marijuana circulou com desenvoltura pelas milhares de barracas espalhadas pela fazenda Winston.  Sexo, e rock’n’roll foram seguidos à risca: garotas de topless e muito LSD. “Foi ótimo. Dancei nua, fumei maconha, igual a minha mãe”. Chris Sonnen, 18 anos, de Los Angeles, ao final do Woodstock-94.

O público, predominantemente formado por adolescentes em férias que nem era nascido em 1969, chegou mais cedo do que o previsto a Saugerties. Resultado: no penúltimo dia, a comida acabou dentro do festival e o êxodo desordenado de multidões que deixavam o local, no sábado, em grupos de dez a quinze mil pessoas, fez com que os veículos credenciados parassem de transitar. A situação esteve perto do caos.

No último dia, domingo 15, muita gente desiludida e molhada voltou para casa mais cedo, aliviando a densidade demográfica na fazenda. A lama, que tanta diversão proporcionou ao público quando ainda era novidade para os teens, começou a irritar os que tentavam inutilmente dar mais que cinco passos sem chafurdar no terreno movediço

Na platéia a heterogeneidade das tribos provocava uma saudável mistura, mas tornou impossível qualquer tentativa de união em torno de um mesmo ideal.

Os que tiravam a roupa eram encarados como seres exóticos pela multidão de indivíduos normais, preocupados com a fila do caixa eletrônico. Foram raros os momentos de transgressão, pois a maioria sabia que a liberdade terminaria na segunda-feira e não se desamarrou das conservadoras normas da sociedade americana. Eles só não controlaram a chuva. Ela veio, como em 1969, pelo menos alguma coisa de 25 anos atrás, a lama, repetiu-se.

Dos poucos remanescentes do Woodstock-69, Joe Cocker, Crosby, Stills e Nash (sem Young), recordaram momentos do passado no sábado cantando sucessos da época, porém sem passar clima de nostalgia ao evento. Sha-Na-Na e Santana, não encontraram dificuldades para cativar a platéia. Bob Dylan, o maior ídolo americano dos anos 60, animou o público ao interpretar seus velhos clássicos. Entre os grupos mais queridos dos adolescentes-MTV, indiscutivelmente o Red Hot Chili Pepper, metidos em macacões prateados e lâmpadas gigantescas como chápeus, roubaram a cena, Metallica abriu seu show cantando Stone Cold Crazy, do Queen, Spin Doctors, Nine Inch Nails, Alice in Chains e Green Day, (pagos entre US$ 250 e 350 mil por apresentação)  atrairam os jovens submetidos ao grande inconveniente de escolher entre assistir shows de qualidade que rolavam em dois palcos diferentes, ao mesmo tempo.

Bethel 94

Ainda em 1994, vinte e cinco anos depois Bethel vive da memória do Woodstock original, dezenas de lojas ganham dinheiro vendendo “lembranças” daqueles três dias.

     Sid Bernstein, o empresário que trouxe os Beatles à América em 1964, começou a consultar os donos do local para fazer o festival, em 1986, a Woodstock Ventures não estava interessada. Também não estavam interessados nos anos seguintes. Eles queriam levar 250 mil pessoas para, lá e como isso não era aceito, eles partiram para os campos de Saugerties. Depois, Sid Bernstein, conseguiu o local com uma estimativa de 80 mil pessoas. Pagou mais de US$ 1 milhão. Em Bethel 94 apareceram Ritchie Havens, Melanie, John Sebastian e Country Joe. Um festival mais no espírito do original.

 

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