"AS GUITARRAS EM BRASÍLIA NUNCA DESLIGARAM"

MUITO PRAZER - MÁRIO PAZCHECO

Para o pesquisador e militante cultural Mário Pazcheco, a capital sempre será do rock. Conhecido nos meios underground de Brasília desde os anos 1970, esse fã de Arnaldo Baptista e Renato Russo prepara um livro sobre sua ligação com o rock cadango. Criador do site Do Próprio Bolso, ele também rende homenagens a Torquato Neto, "um super-8 infinito", e Glauber Rocha, "o oráculo". Nessa conversa com o Correio, Mário fala da ligação com os artistas e bandas locais como Sepultura (a brasiliense) Mel da Terra e Tellah.

"As guitarras em Brasília nunca desligaram"

 

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05 ago. / 2012 - Associação Invisível Kavernista Do Próprio Bol$o, agradece à aula de jornalismo de José Carlos Vieira que resgata a nossa participação na história cultural de Brasília!

JOSÉ CARLOS VIEIRA

Como começou sua paixão pelo som dos Mutantes e, em particular, de Arnaldo Baptista?
Nossa formação musical foi baseada na Coleção Nova História Musical da MPB, naqueles disquinhos de 10 polegadas da Abril, que tinha todos os personagens da tropicália inclusive Mutantes!  Mas eu sempre preferi Arnaldo Baptista aos Mutantes! Muitos anos depois em 1987, foi lançado um álbum ao vivo  Arnaldo & A Patrulha do Espaço intitulado “Faremos uma noitada excelente”... Este disco me salvou de uma crise existencial e me deu forças para que eu gostasse mais de mim mesmo. Mudou a minha vida! Havia um papo de que Arnaldo Baptista não concedia entrevistas e nem recebia seu irmão... Inclusive fãs tentaram chegar próximos e ficaram frustrados. Falei com ele que estava escrevendo sua biografia e não abria  mão de entrevistá-lo. Na verdade, nos correspondíamos há seis meses.

Já havia um contato anterior?
Na verdade, nos correspondíamos há seis meses. Nosso papo durante a entrevista começou na piscina e foi gravado na cozinha. Ensaiado e gravado! Naqueles idos, 1989, Arnaldo Baptista não gostava muito de falar da Tropicália, vivia num mundo à parte. Em nossa correspondência nunca houve espaço para perguntas capciosas... Arnaldo Baptista, em seu pensamento ficcional me perguntava de marcas de amplificadores, pianos, autores de ficção e estrelas de cinema dos anos 60.

Você sempre foi ligado ao rock e à contracultura, fale um pouco dos anos 1980, tempo de Brasília, capital do rock?
As coisas eram tolas, simples, porém fortes e não eram como hoje, como nossos filhos tomam aviões e vão aos festivais e a outros países. A humanidade caminhava a passos de tartaruga... As cidades satélites não se coligavam com o Plano Piloto. No meio da década de 70, eu lia revista como a Pop. Nasci em maio de 64! Nasci beatlemaníaco! Vim de Osasco-SP para Taguatinga Sul (Vila Dimas, Matias e Sapolândia na Shis Sul). Morei também na QNJ 5 e próximo à Praça do DI estudei na Escola Classe 23 e no CTN. Quando menino, ouvia todos os domingos o jornaleiro berrando "Correio!, Correio!". Era do Correio Braziliense que tirava a escalação para os meus times de futebol de botão, em seguida passei a colecionar recortes sobre os músicos do mundo do rock...

Das bandas daquela época, quais você destacaria?
Quando fui morar no Guará 2, eu gostava dos grupos Rocha do Planalto e Psicose Crônica. Nunca fui músico, mas acompanhava as andanças musicais da UVA, um grupo ligado à cultura, da QE 34. Nos caminhos da UVA tudo: bicicletas, super8, skate, e acampamentos, motos, rock, girls, noites, pôsteres, camisetas, mocasins, macacões jeans, guitarras, bandas de rock e viagens ao nordeste... Com eles, comecei a conhecer o Plano Piloto e ir a todos os festivais. A grande chance do Rocha do Planalto foi tocar na Aruc em 1980! E o resultado não foi muito legal... Voltamos pra casa meio abatidos... Descobrimos que estávamos fazendo tudo errado. O grande destaque foi a apresentação da banda brasiliense Sepultura. Mel da Terra e Por do Sol também eram  boas bandas. O grande grupo, meio Terço/14 Bis, era o Tellah, com um trabalho instrumental de grande repercussão e respeito. Demorou dois anos para surgir a trinca de ouro do rock hard heavy de Brasília que eram o Fusão, o Extremo e o Nirvana e nós, enfim podemos voltar ao templo da Aruc para dignamente representar o rock made in Guará.

O pessoal da Patrulha do Espaço é uma das suas bandas preferidas, por quê?
Já era fã da Patrulha do Espaço sem saber que eles tocaram com Arnaldo Baptista. E acredito que inspiraram várias bandas do Brasil. Eles me fizeram ouvir rock em português! Por isso a devoção: passei os últimos 30 anos escrevendo sobre eles...

Uma das primeiras entrevistas de Renato Russo foi feita por você. Quando e como você conheceu o líder da Legião Urbana?
Renato Russo era poeta conhecido e já tinha seu séquito de seguidores. Quando ele tocou em agosto de 1982, no Guará, a produção local me levou nos bastidores e me apresentou a Legião Urbana e falou: "Mário veio fazer uma entrevista para um fanzine". Renato Russo sacou na hora a minha incipiência jornalística e perguntou: "Cadê o bloco de anotações?"  Peguei um saquinho de pão e ele tascou seu primitivo e definitivo press release sobre a Legião Urbana.

Você teve outro encontro com Renato Russo?
Em fevereiro de 1983, no Centro de Convenções, durante o governo Figueiredo, Maharishi Mahesh Yogi, o guru dos Beatles, apareceu para uma palestra sobre meditação. Existiam vários banners em inglês com gráficos sobre o processo químico da meditação transcendental. Pedimos a Renato Russo que traduzisse os painéis, o que ele fez prontamente, mas sempre arredio. Em março 1985, no Verão Cultural, show que a Legião Urbana fez com Cida Moreyra, ele me dedicou: Baader-Meinhof Blues! — Essa! Que o carinha pediu..." Por um bom tempo fiquei conhecido como “Renato Russo” e desde então participei como convidado em shows, tributos e entrega de títulos post-mortem a Renato Russo.

Em comparação com o auge da cena do rock em Brasília, a cidade hoje está decadente?
O rock Brasília pode estar longe dos holofotes e gravadoras, mas a guitarra nunca desligou... Tenho a oportunidade de acompanhar o rock feito no Entorno do DF, e bandas como Lis Negra e Antimácula não fazem feio...  são os novos talentos. Destaco o trabalho autoral da River Phoenix e o circo dos veteranos da Stoner Babe.

Como está a cena underground da cidade?
O crack dominou tudo, os espaços culturais estão feios. Mas tem muita gente trabalhando contra esse flagelo social.

Você tem um espaço cultural no Guará que é frequentado por várias gerações de roqueiros e artistas do DF. É o seu "recanto do guerreiro"?
Nos anos 1990, herdei o laboratório de teatro volante do Elefante Branco e, desde então, eu venho cedendo o espaço, com palco, sala de vídeo, biblioteca e muito verde. Sou aberto, mas muito exigente, não gosto de porralouquice. Lá estamos criando um movimento invisível (risos).

O seu site "Do Próprio Bolso" é uma viagem da música e da cultura underground mundial, como foi produzi-lo?
Meu trabalho sempre foi mambembe, mas hoje o site criou fama e eu deitei na cama (risos). O site vive por ele mesmo, com várias colaborações, como um organismo, Só só que agora não tenho o tempo e nem a disposição plena como  nos últimos nove anos. Estou totalmente imerso no meu livro 10.000 dias de rock – ou um pedaço da contracultura candanga.

Torquato Neto e Glauber Rocha estão entre os destaques do site. Os dois têm a ver como rock?
Cara, Torquato Neto é o super-8 infinito, é o rompimento com o Cinema Novo, é o desafeto dos tropicalista, é amigo de Rogério Duarte e Hélio Oiticica. Temos ligações que remontam ao velho Piauí... De onde vem minha companheira, Zanza Meneses... Seu lema ‘o desejo do mito é ser esquecido’ sempre me acalma... Glauber Rocha o oráculo, a metralhadora giratória e os melhores filmes feitos no Brasil. Glaube,r para mim desbancou Fassbinder. É atávico o seu cinema novo, é claro que na sua ilha de edição andava o destino da humanidade e os melhores expoentes do cinema brasileiro. No meu livro, 10.000 anos de rock há um depoimento impressionante de Rogério Duarte sobre os anos verdes de Glauber Rocha quando ele rodava A cruz na praça e Barravento.

Correio Braziliense, domingo, 5 de agosto de 2012

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Foto: Zeca Ribeiro - 14 julho 2012

Em pé da esquerda... 01 – Zanza Meneses – arte educadora; 02 – Mário Pacheco – historiador; 03 – Nardelli Gifone – Presidente-fundador do  Sindicato do Reggae de Brasília; 04 – Vânia Maria (“Zuzu”) – curadora Sindicato do Reggae;

05 – Félix Amorim – guitarrista Stoner Babe; 06 - Ivanessa – professora na Estrutural; 07 – Tiago Rabelo – baterista Stoner Babe; 08 – Lincon Lacerda – professor, escritor; 09 – Fellipe CDC – músico – fanzineiro – produtor;

10 – Marcelo – vocalista Stoner Babe; 11 – Julião – produtor cultural; 12 – Miro Ferraz – guitarrista, compositor, cantor; 

Agachados
13 – Leo Saraiva – dee-jay; 14 – Hugo Rocha – ativista cultural, diagramador; 15 – Hamilton Zen – músico, produtor cultural; 16 – Hélio Gazu – contrabaixista d'Os Cabeloduro; 17 - Bill – contrabaixista Stoner Babe; 18 - Mana Gi Lemos – artista plástica

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