A unidade é Bob Dylan - Emir Sader entrevista Daniel Cohn-Bendit

A unidade é Bob Dylan - Emir Sader entrevista Daniel Cohn-Bendit*

 

Primeiro "Le Rouge", depois "Le Vert", o "eterno rebelde" Daniel Cohn-Bendit parece evitar os rótulos que lhe inventam. Inclusive o de "eterno rebelde". Nascido na França, de pais alemães, esse ex-líder dos estudantes na Paris de 68 foi expulso da França por ordem de De Gaulle. Hoje vive em Frankfurt, é diretor do jornal quinzenal Pflasterstrand (Paralelepípedos e praia, nome baseado num slogan de 1968) e membro do Movimento Verde da Alemanha Ocidental. Esta entrevista foi feita em Frankfurt por Emir Sader em mai. / 1985, na mesma ocasião da visita de Ronald Reagan ao cemitério nazista de Bitburg.

Sader – Neste cemitério vivem, como dois grandes fogos-fátuos, duas grandes palavras: perdão e nação. O Perdão é aquele para os mortos do Terceiro Reich, e entre eles os 49 corpos de SS; a nação é a nação dividida dos alemães, condenada a uma “vergonha sem fim”.

Cohn-Bendit – Eu me recuso a considerar a questão do perdão se antes não se resolve uma outra questão, aquela que consiste em compreender o que realmente aconteceu na Alemanha de 1933 a 1945. A “Wehrmacht” e a SS não foram exércitos ou destacamentos militares normais, e é portanto evidente que também suas vítimas não foram vítimas normais, vítimas como as outras. Kohl e a direita alemã acham que o fato de ter prestado serviço na “Wehrmacht” seja uma questão administrativa e desta forma ofendem aos que realmente têm o direito a reivindicar o direito para si do heroísmo e da resistência ao nazismo, isto é, os desertores, os sabotadores, os que faziam emboscadas, todos aqueles que com pequenos ou grandes atos pessoais procuraram deter a marcha da guerra nacional-socialista. A consciência de tudo isso não existe hoje na Alemanha, e portanto eu me pergunto: como é possível perdoar?

Sader – Quando você diz Alemanha diz também Alemanha Oriental?

Cohn-Bendit – Sim, os alemães do Leste têm o mesmo problema. Com a diferença de que lá não se fala deles.

Sader – Naquele cemitério está a memória viva do holocausto. Eu me pergunto: é também um lugar histórico como os outros?

Cohn-Bendit – Não, não é. A tumba dos SS não é algo diferente de qualquer outro lugar histórico da segunda guerra mundial. E até o comportamento ambíguo de Reagan contribui para isso. Primeiro decide não ir a Dachau, depois escolhe Bitburg, posteriormente “recompensa” com Bergen-Belsen: na realidade pede um apoio a Kohl contra Mitterrand e lhe oferece esta inaceitável contrapartida, mistura do cemitério e guerra nas estrelas com uma desenvoltura intolerável.

Sader – Aferida está reaberta. A nação alemã se curará um dia?

Cohn-Bendit – A nação interessa à minha geração e não interessa a mim como judeu. O fascismo foi derrotado do exterior, e assim também o hegemonismo da Alemanha. 1945 acertou as contas como problema de um destino político alemão. Agora o hegemonismo, o projeto de domínio, está nas mãos dos soviéticos e dos norte-americanos. A questão alemã é o medo que os outros têm dela. Para os alemães não existe mais.

Sader – E como se encara hoje, na Alemanha, a experiência do nazismo?

Cohn-Bendit – Não se fala do tema na Alemanha, salvo em momentos como este. Para as novas gerações é um processo complicado. A geração alemã que fez o movimento de 1968 impôs essa discussão à sociedade alemã, a partir da idéia de que ela é uma sociedade herdeira do fascismo. É a geração que hoje, no quadragésimo aniversário do final da guerra, tem 40 anos. A juventude de hoje, que tem 20 anos, tem uma reação epidérmica contra essa discussão. Não é o problema deles. Não é nem mesmo o problema dos pais deles, mas dos seus avós, como a guerra de 1914-18 não me toca. Como hoje no Brasil, a geração que viveu o golpe de 1964. Daqui a dez anos, a geração que nascer esse ano e que terá 15 anos no ano 2 mil dirá de 1964: “Chega, já faz muito tempo”.

Sader – Mas você está seguro que para os alemães a questão alemã não existe mais?

Cohn-Bendit – Estou. Vá a uma discoteca de Munique ou de Hamburgo, de Berlim ou de Frankfurt, o que é a unidade da Alemanha. Eles te vaiarão. E no leste, bom, para eles a unidade alemã é a unidade dos blue-jeans, a unidade do rock. O símbolo da unidade da Alemanha, para eles, é Bob Dylan.

*Emir Sader. 41, é professor de política na Unicamp, autor do livro "Democracia e Ditdura no CHile" e é organizador do volume "Constituinte e Democracia no Brasill Hoje".
** FOLHETIM, UM SUPLEMENTO DA FOLHA DE S. PAULO, 28 jul. / 1985.

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