Albert Hofmann: pai do LSD

 O descobrido do LSD prefere a filosofia (El Paseante)
Da revista espanhola El Paseante

Albert Hofmann vive em seu retiro nas montanhas suíças, distante das polêmicas em torno de sua síntese de dietilamida do ácido lisérgico. O descobridor do LSD e de outros psicofármacos não menos importantes, no final de 1989, aos 83 anos, preferiu discutir com o enviado da El Paseante, filosofia e a metáfora criada por ele do “transmissor-receptor”.

Hofmann vive num lugar isolado, sobre o topo de uma colina, à qual se chega através de uma estrada estreita e sinuosa. Antes de entrar, o anfitrião me mostra “o melhor do lugar” - um jardim de plantas raras e muito belas - , enquanto comenta com certa malícia que Montezuma mostrou seu jardim particular a Cortés quando este quis ser levado ao seu tesouro.

De volta, Hofmann sugere que nos sentemos em uma pedra, que marca a divisão entre as terras suíças e francesas. Desse ponto, vemos uma enorme extensão de terra. Um providencial monte evita que se contemple o complexo fabril de Basiléia, com as imensas chaminés da Sandoz Roche e Ciba Geigy.

— O que é a metáfora do ‘transmissor-receptor’?


— Se um objeto reflete ondas eletromagnéticas com comprimento de 0,7 milimicrons, as chamamos vermelho. Se as ondas têm comprimento de 0,4 milésimos de milímetro, são chamadas de azul. Isso significa que a percepção da cor é puramente subjetiva, que acontece no espaço interno do indivíduo. 

O mesmo acontece com o mundo acústico e com o campo da sensação em termos gerais. Basta alterar a consciência individual - usando meios químicos, por exemplo - para que emerja uma realidade não-familiar. Seria absurdo supor que essa alteração no “receptor” tenha criado uma modificação no “transmissor” ou mundo externo.

— Parece uma forma atualizada do idealismo alemão clássico.


— Não pretendo dizer que o entendimento se conforma ao mundo objetivo, mas, sim, extrair duas conclusões básicas. A primeira é que nossa realidade não possui um estado fixo, mas uma existência momentânea - por isso, um menino, tendo como lastro uma carga de memória tão escassa, percebe o mundo mais intensamente que o adulto. A segunda conclusão é que cada indivíduo é um criador que deve reinventar seu próprio mundo. De uma e outra coisa resulta que nossa liberdade e nossa responsabilidade dependem da nossa capacidade de selecionar o que queremos receber do programa infinito oferecido pelo universo.

— Por que viver numa isolada casa de campo?


— Num ambiente natural é perceptível uma realidade infinitamente mais antiga, profunda e maravilhosa que em qualquer coisa feita pelo homem. As plantas mostram com toda evidência a inesgotável e divina energia vital. O que se chama função clorofílica é simplesmente o matrimônio entre Terra e Sol, um processo de assombrosa simplicidade e eficácia, que fundamenta o ciclo vital. Mas não estou propondo um retorno “rousseauniano” à natureza. O necessário é que cada qual busque dentro de si uma experiência propriamente mística, a experiência da vida em sua unidade.

— O misticismo é algo muito ambíguo, pelo menos para a sensibilidade atual.


— Chamo “místico” o maravilhar-se, a plenitude de sentido que nos embriaga sem razão aparentemente algo insignificante. Experiência mística porém não é sinônimo de beleza comovedora.

Mas cabe sentir algo assim praticando o erotismo, por exemplo?

— Há poucas coisas tão necessárias quanto uma ciência e uma cultura do prazer, que permitam resgatar a sexualidade de seu status subterrâneo, ou de seu uso publicitário. Conspira contra essa finalidade qualquer oposição entre céu e terra, alma e corpo, natureza e espírito. Agrada-me muito uma definição que lida com a beleza como promessa de felicidade. A beleza é sempre um sentimento de harmonia, uma consciência que vai além da cisão entre sujeito e objeto.

— Nisso reside também o interesse de certas drogas com efeitos alucinógenos.


— O gênio grego preveniu o que se segue de uma realidade dividida complementando o conceito apolíneo do mundo com a experiência dionisíaca, e abolindo periodicamente o dualismo mediante cerimônias de ebriedade estática. É provável que as iniciações gregas empregassem substâncias que alteravam a atitude do “receptor”.

— Supõe-se que o “emissor” seja Deus?


— Podemos chamá-lo Criação: é o que se revela na experiência mística. Seja qual for seu pretexto - um local, um gesto, uma carícia - essa experiência nos submerge numa realidade que expressa amor.

— Entre o receptor e o emissor existem distintas telas. Algumas parecem tornar tudo bastante claro, como o LSD e outras contribuem para tornar tudo turvo.

 
 — O LSD não é uma droga como as outras. É inútil tentar com ela tornar qualquer coisa turva. Nem o enganar a si próprio nem o enganar a outrem encontram campo para se desenvolver. Os povos que continuam tomando periodicamente substâncias afins se preparam e se purificam de alguma forma antes de suspender a rotina e decidir viajar. Não é um passatempo e quem não cumpre as regras se arrisca a uma experiência aterradora.
 
— Aldous Huxley dizia que as viagens aterrorizantes podem ser espiritualmente úteis e beatificas.


— Isso depende das pessoas. Estou com Pasteur quando ele admitia o papel do acaso nos achados, reconhecendo ao mesmo tempo que ele só favorece os espíritos preparados. A toxidade - isto é, a proporção entre dose ativa e dose mortal - não chegou entretanto a ser determinada no caso do Lsd, pois são conhecidos casos de pessoas que chegaram a ingerir de uma só vez 600 doses sem sofrer outra coisa que o susto inicial, e não existe um só caso de intoxicação resultando em morte. Organicamente é assombroso que se possa induzir uma experiência psíquica de tais proporções com seqüelas fisiológicas tão mínimas. Empregando LSD puro, os perigos são exclusivamente mentais, mas não posso concordar que as viagens aterrorizantes sejam tão frutíferas como as outras. Além da preparação, que é essencial, existem pessoas incapazes por constituição de assimilar proveitosamente esse tipo de experiência. Se alguma vez voltar a se autorizar o uso médico da substância - como começam a reclamar os psiquiatras e pesquisadores de todo o mundo -, tais pessoas serão de antemão excluídas, evitando assim episódios inutilmente desagradáveis. Com isso não quero dizer que poderiam ser dissociados momentos de plenitude e momentos de desamparo (o que Huxley chamou céu e inferno no transe visionário), mas somente que certa porcentagem da humanidade não obterá proveito algum desempoeirando as portas de sua percepção.

 — Alguns vêem o LSD como um alimento espiritual, capaz de levar incomparavelmente mais longe que qualquer outro psicofármaco. Contudo, como se entende a descida que põe fim à viagem?


 — O LSD puro não induz a descida. Esse efeito provém da anfetamina que se acrescenta, de outros adulterantes ou de que o químico não foi capaz de sintetizar exatamente a dietilamida do ácido lisérgico. Depois de oito ou dez horas, o normal é que se produza um estado de relaxamento seguido por um sono tranqüilo, sem ansiedades nem esgotamento depressivo.

 — Quantas vezes você tomou LSD?


 — Me falta tempo para preparar o ácido adequadamente e mais tempo ainda para assimilar a experiência. Creio que passei por cerca de 30 experiências.

— Trinta experiências em 50 anos... o psicólogo Timothy Leary e outros recomendavam um uso semanal ou no mínimo mensal.


— Leary é um palhaço. Simpático, mas palhaço.

— Você também descobriu a psilocibina, outro fármaco dessa família, e suponho que a tenha experimentado pessoalmente.


— Bem menos vezes. Embora seja interessante, prefiro o LSD.

— E o Ectasy?


— Provei na Califórnia, há quatro anos. Tem uma capacidade surpreendente de estimular a comunicação e gerar afeto. Um afrodisíaco em sentido amplo, não genital, de uma toxicidade não desprezível. É menos óbvio que o LSD como veículo de experiência, mas parece um fármaco útil para várias coisas. Infelizmente, a legislação atual impede investigar até que o ponto seja.

— O caso é que começamos falando de filosofia e temo ter acabado perguntando aquilo que todo o mundo lhe pergunta.


— Pode-se dizer que certas substâncias estão aí para serem testadas ou evitadas, não simplesmente para falar sobre elas. Mas é também oportuno promover uma cultura farmacológica que substitua a barbárie reinante. Além do mais, prefiro falar de filosofia.


Hofmann lotava sala de aula nos Estados Unidos

No outono de 1977, uma multidão lotava a sala da aula magna da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, Estados Unidos. Desfilavam pelas primeiras fileiras da sala estrelas do rock, psiquiatras, orientalistas, agentes do serviço secreto disfarçados de hippies, professores de ciências sociais, farmacologistas e jornalistas. Um homem de meia-idade, de paletó e gravata, abriu com dificuldade o caminho até a mesa, repleta de microfones. Quando as ovações diminuíram, o chamado pai da era psicodélica desdobrou algumas folhas de papel e começou dizendo: “Temo desapontá-los. Talvez esperassem um guru. Em vez disso aparece um químico”.

Albert Hofmann não se deteve em outros esclarecimentos. Dissertou sobre o tema que domina, descrevendo as sutis diferenças entre as estruturas moleculares de diferentes substâncias com psico-atividade. Manteve fascinado até o último segundo o público heterogêneo. Se muitos assistentes acreditavam que a ele deviam experiências inesquecíveis, poucos suspeitavam que a viagem de então pudesse se concretizar de modo claro em radicais e cadeias atômicas.

Em 1988, ano que marcou os 50 anos da sintetização do ácido lisérgico, o New York Times informava sobre nova visita de Hofmann a terras americanas, para inaugurar a fundação batizada com seu nome. Outra vez na Califórnia, começou seu discurso dizendo: “Alguém poderia perguntar como um químico se atreve a tocar o problema filosófico fundamental (...) Mas na fala a realidade se vincula ao mundo material externo, ao mundo da matéria, e a ciência da matéria é a química. Acrescento que há precisamente 50 anos sintentizei uma substância que influi profundamente sobre a experiência da realidade”. Hofmann anunciou que estava preparando o Museu do LSD, com obras de artistas que atuaram sob o efeito do ácido.

Dos trabalhos em laboratório à filosofia, muitas décadas se passaram. Hofmann nasceu no cantão suíço de Aargau, em 1906, em uma família pobre, desamparada pela morte prematura do pai. Passou a adolescência trabalhando em fábricas e estudando, à noite, química. Terminou o curso em tempo recorde e defendeu um doutorado sobre a enigmática estrutura da quitina.

Hofmann aposentou-se como diretor de pesquisa na indústria farmacêutica Sandoz Ltd. A inofensiva Suíça é berço do LSD, da cocaína e STP. Foi ali que descobriu-se em 2 de maio de 1938 o LSD abreviatura de Lyserg-Saeure-Disethylamid, um composto químico simples, obtido facilmente em qualquer laboratório. O Dr. Albert Hofmann descobriu as qualidades alucinogênicas do ácido lisérgico por acaso. No curso de pesquisas para curar a hemicrania e estancar a hemorragia ele pesquisava um fungo chamado Ergot que parasita o centeio, tentando obter um tipo de analéptico, uma substância estimulante do sistema circulatório que seria derivada do esporão (ou grão) do centeio. A partir desse fungo, ele extraiu e produziu o vigésimo quinto derivado do ácido lisérgico: ácido lisérgico dietilamida, abreviado LSD-25. Testado em camundongos, a nova droga não levantou nenhum interesse entre farmacologistas e médicos, sendo assim arquivada, até que o químico inadvertidamente ingerisse a substância.

A partir de um relatório de Hofmann à Sandoz, o LSD foi divulgado a pesquisadores de todo o mundo. Vários laboratórios passaram, nas duas décadas seguintes, a estudar o uso terapêutico do LSD em psiquiatria. Mas foi durante os anos 50 que começaram as pesquisas com “cobaias” humanas. Nessa época, a CIA (Agência Central de Informações) e as forças armadas dos Estados Unidos realizaram testes com a droga em pessoas que não haviam sido informadas sobre a experiência. O objetivo era desenvolver o uso do LSD como “soro da verdade”.

Em pouco tempo, a CIA, os escritores Aldous Huxley e as “cobaias pagas” Ken Kesey, Lee Oswald, astros de Hollywood, Cary Grant
e a psiquiatria se apaixonaram pelo produto. Alguns acreditavam que a droga aumentava a sabedoria e outros achavam possível controlar com o ácido a vontade e a demência. Todos concordavam porém que essa substância e outras de sua espécie, descobertas por Hofmann durante os anos 50 - como a amida do ácido lisérgico, a psilocibina e a psilocina -, eram o achado psicofarmacológico mais importante do século.

Instado pelo Pentágono a que colaborasse em projetos de armas químicas e pela intelectualidade a fazer precisamente o contrário, Hofmann participou mais tarde de sessões de LSD com alguns dos mais distintos escritores e filósofos europeus, começando para Hofmann uma época de polêmica, agora distante em sua casa nas montanhas suíças.

     *PUBLICADO NA REVISTA PSICODÉLICA “DE QUANDO O ROCK ERA CONTRACULTURA’ VOLUME I

 Químico
Albert Hofmann, o pai do LSD, morre na Suíça aos 102 anos
 

30 abr. / 2008 - Albert Hofmann, o pai do ácido lisérgico (LSD), faleceu na Suíça aos 102 anos, anunciou Doris Stuker, uma funcionária da prefeitura da cidade de Burg Im Leimental. Hofmann morreu na terça-feira (29) em sua casa em Burg Im Leimental, uma pequena cidade nos arredores da Basiléia para onde mudou-se depois de aposentar-se, em 1971.

 O LSD, alucinógeno descoberto por Hofmann, inspirou - e afetou consideravelmente a saúde mental de - milhões de hippies nas décadas de 1960 e 1970. Décadas depois da proibição da invenção, no fim dos anos 60, Hofmann defendia com afinco sua invenção. "Eu produzi a substância como um remédio. Não é minha culpa se as pessoas abusavam dele", declarou certa vez.

O químico suíço descobriu a dietilamida do ácido lisérgico (LSD-25) em 1938, quando estudava as aplicações medicinais de um fungo encontrado no trigo e em outros grãos para a companhia farmacêutica Sandoz, na Basiléia.

Hofmann tornou-se a primeira cobaia de sua invenção quando tocou com um dedo acidentalmente em uma pequena quantidade da substância durante a repetição de um experimento em 16 de abril de 1943. "Precisei sair do laboratório e voltar para casa porque comecei a sentir de repente um mal-estar e uma tontura", escreveu em um memorando a seus chefes.

"Tudo o que eu enxergava era distorcido, como um espelho ondulado", disse ele sobre a volta para casa, de bicicleta. "Eu tinha a impressão de estar parado, mas meu assistente me disse que na verdade estávamos indo rápido demais."

Ao chegar em casa, Hofmann acomodou-se em um divã e começou a experimentar o que chamou de "visões maravilhosas".

Numa entrevista para marcar seu centenário, Hofmann disse à emissora de televisão suíça SF DRS que o efeito "durou algumas horas e depois acabou".

Três dias depois, o cientista experimentou uma dose maior. O resultado foi uma viagem de horror. "A substância tomou conta de mim. Eu sentia um medo devastador de enlouquecer. Fui transportado para um outro mundo, um outro tempo", escreveu ele.

A expectativa de Hofmann e de seus colegas era que o LSD desse uma importante contribuição para a psiquiatria. A droga amplificava problemas e conflitos internos e a esperança era fazer com que ela fosse usada para reconhecer e tratar problemas como a esquizofrenia.

 A Sandoz chegou a comercializar o LSD-25 sob o nome de Delysid e encorajou médicos a testarem em si mesmos. Foi um dos remédios mais fortes de que se tem notícia - calcula-se que apenas um grama seria suficiente para drogar de 10.000 a 20.000 pessoas durante cerca de 12 horas.

Hofmann descobriu mais tarde que a estrutura química de sua descoberta era similar à de cogumelos venenosos e de ervas alucinógenas usadas em cerimônias religiosas por índios mexicanos.

O LSD ganhou fama internacional na passagem da década de 1950 para a de 1960, quando o professor Timothy Leary, de Harvard, passou a defender o uso do ácido lisérgico com a frase "ligue, sintonize a caia fora". O ator Cary Grant e diversos roqueiros passaram depois a propalar as virtudes do LSD na busca por autoconhecimento e iluminação espiritual.

Além das viagens psicodélicas, porém, começaram a aparecer notícias de pessoas promovendo chacinas e pulando de janelas em meio a alucinações provocadas pelo ácido. Usuários frequentes sofreram danos psicológicos permanentes.

O governo Estados Unidos proibiu o LSD em 1966. A medida foi adotada a seguir pelos demais países do mundo. Hofmann admitia que o LSD era perigoso se caísse em mãos erradas, mas considerava a proibição injusta e defendia que fossem permitidas pesquisas medicinais com a droga.

Em dezembro do ano passado, autoridades suíças liberaram o uso do LSD para tratamento psicoterápico em casos excepcionais. "Para mim, esse é um sonho que vira realidade. Eu sempre quis ver o LSD em seu lugar de direito na medicina", disse ele à TV suíça na época.

 Hofmann deixa um filho e uma filha. Sua esposa, Anita, e dois de seus quatro filhos morreram antes dele. 

 

Fonte: Agência Estado

 


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